Injustiça
Ó mãe, exclamou Leonor, com ar incrédulo, porque é que só me calharam trezentos e trinta mil euros? Onde é que ficou o resto? Era para ser um milhão
Dava para ouvir o secador a funcionar lá da casa de banho. Vera, a mãe, desligou o bicho e respondeu do corredor:
Está correto, sim. Foram trezentos e trinta. Fiz as contas certinhas.
Mas Leonor sabia que devia ter recebido muito mais.
Trezentos e trinta? Ó mãe e os outros seiscentos e setenta mil? Achei que me ias passar quase um milhão! Eram as poupanças do meu pai, prometeste transferir tudo logo que vendesses o apartamento.
Ai, Leonor, por amor de Deus, não faças dessas contas agora atirou Vera, já cheia de paciência curta. Sabes bem que foi tudo feito direitinho.
Direitinho, como? Leonor sentia o soalho de madeira a ranger, quase solidário na sua revolta. Fui eu que te dei a procuração para cuidares do apartamento que herdei do pai. Só te pedi para me transferires o dinheiro. Agora explica: aonde é que foi parar metade?
E Leonor percebeu, tarde, que nunca devia ter relaxado.
Olha, eu transferi sim senhora, o secador voltou ao serviço, só que fiz de mãe. De boa mãe. Dividi por todos, como é justo. A tua parte certinha, um terço.
O justo dela era o milhão inteiro.
Dividiste a herança do meu pai em três? Para mim, para o João Pedro e para o Rúben? Leonor referia-se aos meio-irmãos. Ó mãe, a herança era SÓ minha. Eles nem sequer são filhos do meu pai
Que interessa quem é o pai, filha? a mãe agora penteava-se à frente do espelho, cheia de calma. O dinheiro veio para a mesma família! E eles são teus irmãos. Achas que ia deixar só tu a nadares em dinheiro e eles a verem navios? Equilibrei as coisas. Somos uma família, bolas.
Se pudesse voltar ao dia de assinar a procuração, Leonor dava uma chapada em si própria
Equilibraste? Ficou tudo três a dividir? Trezentos e trinta mil para cada? E onde está o resto, mãe? A casa até rendeu mais do que um milhão
Sim, claro, ficou qualquer coisinha a mais, com taxas e tretas. Eu arredondei. E alguma coisa ficou para mim, pelo trabalho todo. Vê lá se tinhas pachorra para tratar desses papéis todos Não tinhas! E eu tratei, enquanto tu andavas na tua vida!
Pois, realmente, estafaste-te muito
Nem penses em ser insolente! cortou a mãe, já irritada. O teu pai era teu pai, mas eu sou tua mãe, não esqueças. E além disso, tu és a mais velha, tens mais juízo, não precisas tanto. Eles, sim, vão agora começar vidas, provavelmente criar família Tu és rapariga, não te exige tanto. Achei melhor assim.
Mas quer dizer, eu não posso fazer vida própria? Fui feita para ficar a pão e água só porque sou rapariga e não se espera tanto de mim? Leonor, mordaz. Transfere-me o resto, mãe. Agora.
Não.
Seco. Curtíssimo.
A mãe de Leonor sabia bem que ela não ia fazer escândalo nenhum. Processar a própria mãe por dinheiro? Ninguém iria compreender. Se calhar até seria insultada por metade da família. E mãe é mãe, lá se falam ainda.
Duas semanas depois, já com a cabeça fria e a conta bancária meio organizada, Leonor espreitou as redes sociais e claro, João Pedro posava ao lado de um Polo reluzente, acabado de sair do stand. Rúben orgulhoso ao volante: Primeira viagem na máquina nova!
Os irmãos compraram dois carros baratos. Óptimo por eles, pensou Leonor. Ela, por sua vez, encostou os seus trezentos e trinta mil e esperou. Paciência é ouro, dizia a avó.
Passou mais de um ano. Leonor trabalhou, poupou, planeou. Deixou para trás a zanga, mas o episódio ficou-lhe gravado. A mãe fingia-se de paisagem, telefonava toda sorrisos e conversas banais.
Só que naquele dia, Vera falou com uma voz tão estranha que Leonor ficou logo em alerta.
Que foi, mãe?
A avó Vera fez uma pausa, a avó do João Pedro e do Rúben faleceu esta manhã.
Leonor sentiu-se meio arredada daquela notícia, como se estivesse num filme. Aquela avó nunca lhe fez parte. Para ela era só a minha madrasta ou a avó dos irmãos. Mas, claro, uma morte é sempre uma tristeza.
Que pena. Os meus pêsames, mãe.
Agora é um problema, porque tenho de tratar do funeral, papéis, tudo. Estou sozinha nisto, os rapazes ficam perdidos nestas alturas. Podes cá vir? Precisava muito da tua ajuda.
Leonor não conseguiu mesmo arranjar tempo. O trabalho não perdoava.
Ó mãe, estou carregada de reuniões, não posso meter férias assim de repente por causa de uma senhora que vi, vá, três vezes na vida
Nunca a tinham levado a casa daquela avó.
Oh, filha, faz lá esse esforço!
Não consigo ir, mãe. Mas posso ajudar com dinheiro. Diz-me só quanto vai ser, e transferência já de seguida.
A mãe ainda fez cerimónia, mas o dinheiro nunca era demais
Pronto, olha, se mandasses uns vinte mil já compensava.
Combinado. E olha, mando-te mais qualquer coisa para as outras despesas, para não te faltares nada. Podes encarar como gesto de respeito pela tal senhora.
Obrigada, Leonor. Sempre tens uma solução.
Leonor desligou com um sentimento amargo, mas confortável. Não foi, mas ajudou. Ninguém lhe podia apontar o dedo.
Meio ano depois já ninguém falava de funerais. Rúben e João Pedro mostravam no Instagram umas motas novas, ou telemóveis topo de gama.
Numa terça-feira calma, Leonor achou que estava na altura certa. Ligou à mãe da cafetaria onde almoçava.
Então, mãe! Como vai tudo?
Vai-se andando, Leonor. O Rúben mudou de emprego, agora está melhor. O João Pedro anda todo contente, arranjou namorada.
Fico contente por eles. Olha, queria perguntar uma coisa.
Que coisa? a mãe já com o radar ligado.
Já lá vão seis meses desde que a avó deles faleceu, certo? Já está resolvido o processo de herança, digo eu.
Esta conversa foi mais difícil do que a das contas e dos trezentos e trinta mil.
Leonor, onde é que queres chegar?
É que onde está a minha parte dessa herança?
Que herança? a mãe fingia-se perdida, mas Leonor já conhecia aquele tom.
Da avó.
Mas não era tua avó!
E então? Leonor metia-se nos passos da mãe, sempre disseste que não se devem distinguir entre os filhos. Quando foi o dinheiro do meu pai, dividiste a preceito. Igual para todos.
Leonor, que comparação exagerada! Isso não tem nada a ver!
Não tem? Disseste que tudo era para dividir, que tu decides porque és mãe, porque os filhos têm de ser tratados igual. Portanto
Não compares situações
Ai é? Bem jeitoso, pá! Para dividir herança do meu pai, era tudo igual, filhos da mesma mãe. Agora, para a casa da avó deles, já só é para os rapazes, porque são homens, e eu, como sou rapariga, fico a ver navios?
Não sejas picuinhas! a mãe bufava Agora vais querer pedir uma parte da herança da minha sogra? Como vou eu explicar isto aos rapazitos?
Não te preocupes, mãe. O que eu queria mesmo era que usasses a mesma lógica que usaste comigo. Usaste a minha confiança para ficar com parte do meu dinheiro, só porque achaste que era justo. Estou só a pedir o mesmo agora. Tu não trataste também da venda da casa deles?
O dinheiro já foi
Gastaram em quê? Carros? Para fazerem remodelações? Também quero! Onde está a minha parte, mãe? Quando era o meu milhão, disseste que eu precisava de menos, por ser rapariga! Pois olha, não sou obrigada.
A mãe, do outro lado, tentava arranjar um buraco para sair daquele beco, mas a lógica era tramada. Em casa deles, sempre foi tudo para os rapazes: o marido por padrasto, a avó uma sogra distante. Nunca a trataram como filha, nem a mãe se mexeu para defender.
Leonor, o que é que te deu?! Para que é que queres tu tanto dinheiro? Trabalhas, és nova, tens saúde. Os rapazes é que agora têm de pensar em casas, família Eles são homens, é-lhes mais difícil!
Portanto, para ti, herança do meu pai: tudo igual, somos irmãos. Herança da avó deles: é só deles porque são homens e eu não preciso muito. Grande lógica.
Olha lá o respeito
A mãe nunca ia admitir que fez asneira. Para ela, Leonor era sovina, só porque ousava pedir justiça.
Mãe, talvez não saibas, mas com aquela procuração eras obrigada por lei a passar-me todo o dinheiro. E ainda vou a tempo de resolver isto pelos tribunais, se for preciso. Só para que saibas, não estou a ameaçar, apenas a informar.
Leonor! Vais-me pôr em tribunal? tremia a voz da mãe.
Não, mãe. Só quero o que é justo. Pensa nisso.
Um mês depois, Leonor recebeu todo o valor que lhe deviam. E logo depois viu-se bloqueada de todas as redes sociais da família.







