Injustiça — Mãe — repetiu a Inês —, porque é que me chegou só trezentos e trinta mil euros e não um milhão? Que valor é este? Dava para ouvir o secador dela na casa de banho. Ela desligou-o e respondeu: — Está tudo certo — a mãe, Vera, já tinha decidido o destino daquele milhão que nem era dela —, trezentos e trinta. Mas à Inês devia ter calhado bem mais. — Trezentos e trinta? Mãe, onde estão os outros seiscentos e setenta? Estava à espera de quase um milhão. Esse dinheiro veio do meu pai, foste tu que vendeste o apartamento e tinhas de mo transferir. — Ai, Inês, não venhas com essas contas — respondeu —. Sabes que fiz tudo como deve ser. — “Como deve ser?” — o soalho até rangia de indignação — Eu dei-te procuração para venderes o meu apartamento, que recebi como herança do pai. Pedi para me enviares o dinheiro. E então? Onde está o resto? Inês percebeu que tinha relaxado cedo demais. — E enviei! — o secador voltou a funcionar — Só que fiz como mãe. Como uma boa mãe. Dividi o dinheiro por todos os filhos. Igual. A tua parte direitinha está aí. O que era direito dela, era o valor total. — Dividiste a herança do meu pai por três? Por mim e por eles? — Inês referia-se aos meios-irmãos — Mãe, esse dinheiro é só meu! É do meu pai! Temos pais diferentes, já que isto te surpreende. — Que diferença faz quem é o pai? — a mãe terminou de secar o cabelo e começou a pentear-se — O dinheiro é da família. Eles são teus irmãos. Eu sou tua mãe. Achas que te ia deixar gerir tudo sozinha enquanto eles ficavam a ver navios? Nada disso. Tratei de ser justa. Tudo igual para todos. Como gostava de voltar atrás ao dia em que assinou aquela procuração… — Iguais? Partiste o meu milhão em três! Trezentos e trinta mil euros! E a casa valia mais. — Sim, ficou um bocadinho acima do milhão depois de todas as taxas e impostos — disse Vera, — arredondei. O resto fiquei eu, pelo trabalho que tive com a papelada. Achas que ias ter paciência para tratar disso? Não! Fiz eu tudo, enquanto tu estavas a trabalhar. — E não te cansaste? — Não faltes ao respeito! — ralhou — O teu pai era o teu pai, mas eu sou tua mãe, quem manda sou eu. E outra coisa, já és crescidinha, és a mais velha, precisas de menos do que eles. Dividi por igual. Os rapazes em breve vão criar família. Tu és rapariga, não precisas de tanto. — E eu não vou criar família? Ou tenho de viver de migalhas porque sou rapariga e não esperam grande coisa de mim? — perguntou Inês, com ironia — Transfere-me o resto, mãe. Agora. — Não. Seco. Ponto final. A mãe sabia bem que Inês não ia agir. Meter a mãe em tribunal por causa de dinheiro? Dificilmente. Ninguém ia entender, ainda mais condenar. E mãe continua sempre mãe — mal ou bem, ainda falavam. Umas semanas depois, com as contas já em ordem, Inês viu nas redes sociais: o João exibia-se junto de um Polo azul, novinho em folha. O Miguel postou: — A minha nova máquina! Os irmãos compraram carros baratos. Muito bem. Inês guardou os seus 330 mil. Pensou em esperar. Como dizia a avó: “Paciência de ouro”. Passou mais de um ano. Inês trabalhava, juntava dinheiro, planeava. Não esqueceu a situação, mas conseguiu ultrapassar. A mãe portava-se como se nada fosse: ligava, falava de tudo e de nada. Mas, naquele dia, a voz da mãe estava diferente, até deu arrepios a Inês. — Que se passa, mãe? — A avó… — Vera hesitou — a avó do João e do Miguel… faleceu esta manhã. Inês sentiu-se estranhamente desligada, como num filme. Aquela “avó”, não era dela, nunca foi importante na sua vida — era só “a sogra da mãe” ou “avó dos irmãos”. Mas, claro, sentiu pena. — Os meus sentimentos. — Tenho de tratar do funeral, dos papéis, não tenho tempo para nada. Estou sozinha, os rapazes… não sabem lidar com isto. Vens? Ajudas-me? Não era má vontade, mas Inês não podia sair do trabalho. — Mãe, estou no trabalho. Não posso largar tudo para ir ao funeral de uma pessoa que vi três vezes na vida — respondeu Inês. Nunca a levaram a casa dessa avó. — Por favor! — pediu a mãe — Faz-me mesmo falta. — Não vou, mas ajudo com dinheiro. Quanto precisas? Diz e transfiro já. A mãe hesitou, mas pensou que dinheiro não atrapalha. — Não é a mesma coisa… mas pronto. Uns vinte mil chegam? — Tratado. E mando mais um pouco para qualquer coisa que faça falta. Considera uma homenagem… à memória dela. — Obrigada, Inês. És sempre um apoio. Inês desligou sentindo-se horrivelmente satisfeita. Arranjou desculpa: não foi, mas ajudou. Agora ninguém podia criticar. Meio ano passou. O funeral ficou lá atrás. Miguel e João já deviam ter comprado novos brinquedos — motas ou telemóveis, talvez. Numa terça-feira calma, Inês decidiu que era o momento. Ligou à mãe, estava a preparar-se para uma reunião no trabalho. — Olá mãe! Está tudo bem? — Inês! Vai-se andando. O Miguel conseguiu emprego novo, melhor. O João… também anda bem, arranjou namorada. — Fico contente. Olha, mãe, queria perguntar uma coisa… — O quê? — a mãe ficou logo defensiva. — Já passou meio ano do falecimento da avó. Já trataram da herança, certo? Desta vez, a conversa ainda custou mais do que quando falou dos 330 mil euros. — Inês, o que é isso agora? Claro que sim. — Pronto. E a minha parte da herança? — Que herança é essa? — a mãe fingiu não perceber, mas Inês percebeu logo quando ela mentia. — Da avó. — Mas não era tua avó. — Que diferença faz? — Inês devolveu a lógica da mãe — Sou tua filha, disseste que não se pode excluir nenhum filho. “O dinheiro é da família”, verdade? O meu milhão dividiste pelos três. Fizeste “justiça igual”. — Inês, isso não é a mesma coisa! — Vera ficou nervosa — Isto é outra situação! — O que é que tem de diferente? Disseste várias vezes: “a herança é da família, quem manda sou eu, todos os filhos devem ter o mesmo!” — Não compares… — Olha que conveniente! Quando era o meu dinheiro, do meu pai, passou a ser de todos e ficou dividido igual. Agora, com o dinheiro da avó deles, já há famílias separadas? — Não estejas a pegar por tudo! — a mãe bufou — Queres que diga aos rapazes que tens direito à herança da avó deles? — Só quero que uses o teu método: dividiste o meu dinheiro entre todos porque “a mãe manda e o dinheiro é dos filhos”. Agora aplica o mesmo. Também tenho direito. Vendeste a casa, certo? — O dinheiro já foi. — Gastaste em quê? Nos carros? Nas obras? Eu também quero. Onde está a minha parte? Disseste que eu tinha de aceitar menos porque sou rapariga. Não aceito. A mãe pensava, certamente, numa saída da armadilha que criou. Sempre foi assim naquela família! Os rapazes, filhos do padrasto, eram considerados; a avó nunca aceitou Inês — “filha de outra”. A mãe nunca defendeu. — Inês, mas para que queres dinheiro? Trabalhas, estás de saúde, és nova. Não precisas de tanto. O Miguel e o João têm de pensar em casas, são homens! É mais difícil para eles! — Quer dizer, a tua opinião é: herança do meu pai, é de todos, porque somos irmãos. Herança da avó deles, é só deles porque são homens e eu sou rapariga, não preciso de nada? — Não te ponhas a ser respondona — disparou — Para que tanta ganância? A mãe nunca ia admitir que estava errada. Inês era egoísta só porque pedia justiça. — Pela procuração eras obrigada a dar-me o valor todo do apartamento. O prazo legal ainda não passou. Não estou a ameaçar, mas… — Inês! Vais ameaçar-me? — sussurrou, assustada. — Não, mãe. Mas ainda posso pedir o que é meu. Pensa nisso. Um mês depois, transferiram-lhe o que restava em dívida e depois… bloqueada em tudo.

Injustiça

Ó mãe, exclamou Leonor, com ar incrédulo, porque é que só me calharam trezentos e trinta mil euros? Onde é que ficou o resto? Era para ser um milhão

Dava para ouvir o secador a funcionar lá da casa de banho. Vera, a mãe, desligou o bicho e respondeu do corredor:

Está correto, sim. Foram trezentos e trinta. Fiz as contas certinhas.

Mas Leonor sabia que devia ter recebido muito mais.

Trezentos e trinta? Ó mãe e os outros seiscentos e setenta mil? Achei que me ias passar quase um milhão! Eram as poupanças do meu pai, prometeste transferir tudo logo que vendesses o apartamento.

Ai, Leonor, por amor de Deus, não faças dessas contas agora atirou Vera, já cheia de paciência curta. Sabes bem que foi tudo feito direitinho.

Direitinho, como? Leonor sentia o soalho de madeira a ranger, quase solidário na sua revolta. Fui eu que te dei a procuração para cuidares do apartamento que herdei do pai. Só te pedi para me transferires o dinheiro. Agora explica: aonde é que foi parar metade?

E Leonor percebeu, tarde, que nunca devia ter relaxado.

Olha, eu transferi sim senhora, o secador voltou ao serviço, só que fiz de mãe. De boa mãe. Dividi por todos, como é justo. A tua parte certinha, um terço.

O justo dela era o milhão inteiro.

Dividiste a herança do meu pai em três? Para mim, para o João Pedro e para o Rúben? Leonor referia-se aos meio-irmãos. Ó mãe, a herança era SÓ minha. Eles nem sequer são filhos do meu pai

Que interessa quem é o pai, filha? a mãe agora penteava-se à frente do espelho, cheia de calma. O dinheiro veio para a mesma família! E eles são teus irmãos. Achas que ia deixar só tu a nadares em dinheiro e eles a verem navios? Equilibrei as coisas. Somos uma família, bolas.

Se pudesse voltar ao dia de assinar a procuração, Leonor dava uma chapada em si própria

Equilibraste? Ficou tudo três a dividir? Trezentos e trinta mil para cada? E onde está o resto, mãe? A casa até rendeu mais do que um milhão

Sim, claro, ficou qualquer coisinha a mais, com taxas e tretas. Eu arredondei. E alguma coisa ficou para mim, pelo trabalho todo. Vê lá se tinhas pachorra para tratar desses papéis todos Não tinhas! E eu tratei, enquanto tu andavas na tua vida!

Pois, realmente, estafaste-te muito

Nem penses em ser insolente! cortou a mãe, já irritada. O teu pai era teu pai, mas eu sou tua mãe, não esqueças. E além disso, tu és a mais velha, tens mais juízo, não precisas tanto. Eles, sim, vão agora começar vidas, provavelmente criar família Tu és rapariga, não te exige tanto. Achei melhor assim.

Mas quer dizer, eu não posso fazer vida própria? Fui feita para ficar a pão e água só porque sou rapariga e não se espera tanto de mim? Leonor, mordaz. Transfere-me o resto, mãe. Agora.

Não.

Seco. Curtíssimo.

A mãe de Leonor sabia bem que ela não ia fazer escândalo nenhum. Processar a própria mãe por dinheiro? Ninguém iria compreender. Se calhar até seria insultada por metade da família. E mãe é mãe, lá se falam ainda.

Duas semanas depois, já com a cabeça fria e a conta bancária meio organizada, Leonor espreitou as redes sociais e claro, João Pedro posava ao lado de um Polo reluzente, acabado de sair do stand. Rúben orgulhoso ao volante: Primeira viagem na máquina nova!

Os irmãos compraram dois carros baratos. Óptimo por eles, pensou Leonor. Ela, por sua vez, encostou os seus trezentos e trinta mil e esperou. Paciência é ouro, dizia a avó.

Passou mais de um ano. Leonor trabalhou, poupou, planeou. Deixou para trás a zanga, mas o episódio ficou-lhe gravado. A mãe fingia-se de paisagem, telefonava toda sorrisos e conversas banais.

Só que naquele dia, Vera falou com uma voz tão estranha que Leonor ficou logo em alerta.

Que foi, mãe?

A avó Vera fez uma pausa, a avó do João Pedro e do Rúben faleceu esta manhã.

Leonor sentiu-se meio arredada daquela notícia, como se estivesse num filme. Aquela avó nunca lhe fez parte. Para ela era só a minha madrasta ou a avó dos irmãos. Mas, claro, uma morte é sempre uma tristeza.

Que pena. Os meus pêsames, mãe.

Agora é um problema, porque tenho de tratar do funeral, papéis, tudo. Estou sozinha nisto, os rapazes ficam perdidos nestas alturas. Podes cá vir? Precisava muito da tua ajuda.

Leonor não conseguiu mesmo arranjar tempo. O trabalho não perdoava.

Ó mãe, estou carregada de reuniões, não posso meter férias assim de repente por causa de uma senhora que vi, vá, três vezes na vida

Nunca a tinham levado a casa daquela avó.

Oh, filha, faz lá esse esforço!

Não consigo ir, mãe. Mas posso ajudar com dinheiro. Diz-me só quanto vai ser, e transferência já de seguida.

A mãe ainda fez cerimónia, mas o dinheiro nunca era demais

Pronto, olha, se mandasses uns vinte mil já compensava.

Combinado. E olha, mando-te mais qualquer coisa para as outras despesas, para não te faltares nada. Podes encarar como gesto de respeito pela tal senhora.

Obrigada, Leonor. Sempre tens uma solução.

Leonor desligou com um sentimento amargo, mas confortável. Não foi, mas ajudou. Ninguém lhe podia apontar o dedo.

Meio ano depois já ninguém falava de funerais. Rúben e João Pedro mostravam no Instagram umas motas novas, ou telemóveis topo de gama.

Numa terça-feira calma, Leonor achou que estava na altura certa. Ligou à mãe da cafetaria onde almoçava.

Então, mãe! Como vai tudo?

Vai-se andando, Leonor. O Rúben mudou de emprego, agora está melhor. O João Pedro anda todo contente, arranjou namorada.

Fico contente por eles. Olha, queria perguntar uma coisa.

Que coisa? a mãe já com o radar ligado.

Já lá vão seis meses desde que a avó deles faleceu, certo? Já está resolvido o processo de herança, digo eu.

Esta conversa foi mais difícil do que a das contas e dos trezentos e trinta mil.

Leonor, onde é que queres chegar?

É que onde está a minha parte dessa herança?

Que herança? a mãe fingia-se perdida, mas Leonor já conhecia aquele tom.

Da avó.

Mas não era tua avó!

E então? Leonor metia-se nos passos da mãe, sempre disseste que não se devem distinguir entre os filhos. Quando foi o dinheiro do meu pai, dividiste a preceito. Igual para todos.

Leonor, que comparação exagerada! Isso não tem nada a ver!

Não tem? Disseste que tudo era para dividir, que tu decides porque és mãe, porque os filhos têm de ser tratados igual. Portanto

Não compares situações

Ai é? Bem jeitoso, pá! Para dividir herança do meu pai, era tudo igual, filhos da mesma mãe. Agora, para a casa da avó deles, já só é para os rapazes, porque são homens, e eu, como sou rapariga, fico a ver navios?

Não sejas picuinhas! a mãe bufava Agora vais querer pedir uma parte da herança da minha sogra? Como vou eu explicar isto aos rapazitos?

Não te preocupes, mãe. O que eu queria mesmo era que usasses a mesma lógica que usaste comigo. Usaste a minha confiança para ficar com parte do meu dinheiro, só porque achaste que era justo. Estou só a pedir o mesmo agora. Tu não trataste também da venda da casa deles?

O dinheiro já foi

Gastaram em quê? Carros? Para fazerem remodelações? Também quero! Onde está a minha parte, mãe? Quando era o meu milhão, disseste que eu precisava de menos, por ser rapariga! Pois olha, não sou obrigada.

A mãe, do outro lado, tentava arranjar um buraco para sair daquele beco, mas a lógica era tramada. Em casa deles, sempre foi tudo para os rapazes: o marido por padrasto, a avó uma sogra distante. Nunca a trataram como filha, nem a mãe se mexeu para defender.

Leonor, o que é que te deu?! Para que é que queres tu tanto dinheiro? Trabalhas, és nova, tens saúde. Os rapazes é que agora têm de pensar em casas, família Eles são homens, é-lhes mais difícil!

Portanto, para ti, herança do meu pai: tudo igual, somos irmãos. Herança da avó deles: é só deles porque são homens e eu não preciso muito. Grande lógica.

Olha lá o respeito

A mãe nunca ia admitir que fez asneira. Para ela, Leonor era sovina, só porque ousava pedir justiça.

Mãe, talvez não saibas, mas com aquela procuração eras obrigada por lei a passar-me todo o dinheiro. E ainda vou a tempo de resolver isto pelos tribunais, se for preciso. Só para que saibas, não estou a ameaçar, apenas a informar.

Leonor! Vais-me pôr em tribunal? tremia a voz da mãe.

Não, mãe. Só quero o que é justo. Pensa nisso.

Um mês depois, Leonor recebeu todo o valor que lhe deviam. E logo depois viu-se bloqueada de todas as redes sociais da família.

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Injustiça — Mãe — repetiu a Inês —, porque é que me chegou só trezentos e trinta mil euros e não um milhão? Que valor é este? Dava para ouvir o secador dela na casa de banho. Ela desligou-o e respondeu: — Está tudo certo — a mãe, Vera, já tinha decidido o destino daquele milhão que nem era dela —, trezentos e trinta. Mas à Inês devia ter calhado bem mais. — Trezentos e trinta? Mãe, onde estão os outros seiscentos e setenta? Estava à espera de quase um milhão. Esse dinheiro veio do meu pai, foste tu que vendeste o apartamento e tinhas de mo transferir. — Ai, Inês, não venhas com essas contas — respondeu —. Sabes que fiz tudo como deve ser. — “Como deve ser?” — o soalho até rangia de indignação — Eu dei-te procuração para venderes o meu apartamento, que recebi como herança do pai. Pedi para me enviares o dinheiro. E então? Onde está o resto? Inês percebeu que tinha relaxado cedo demais. — E enviei! — o secador voltou a funcionar — Só que fiz como mãe. Como uma boa mãe. Dividi o dinheiro por todos os filhos. Igual. A tua parte direitinha está aí. O que era direito dela, era o valor total. — Dividiste a herança do meu pai por três? Por mim e por eles? — Inês referia-se aos meios-irmãos — Mãe, esse dinheiro é só meu! É do meu pai! Temos pais diferentes, já que isto te surpreende. — Que diferença faz quem é o pai? — a mãe terminou de secar o cabelo e começou a pentear-se — O dinheiro é da família. Eles são teus irmãos. Eu sou tua mãe. Achas que te ia deixar gerir tudo sozinha enquanto eles ficavam a ver navios? Nada disso. Tratei de ser justa. Tudo igual para todos. Como gostava de voltar atrás ao dia em que assinou aquela procuração… — Iguais? Partiste o meu milhão em três! Trezentos e trinta mil euros! E a casa valia mais. — Sim, ficou um bocadinho acima do milhão depois de todas as taxas e impostos — disse Vera, — arredondei. O resto fiquei eu, pelo trabalho que tive com a papelada. Achas que ias ter paciência para tratar disso? Não! Fiz eu tudo, enquanto tu estavas a trabalhar. — E não te cansaste? — Não faltes ao respeito! — ralhou — O teu pai era o teu pai, mas eu sou tua mãe, quem manda sou eu. E outra coisa, já és crescidinha, és a mais velha, precisas de menos do que eles. Dividi por igual. Os rapazes em breve vão criar família. Tu és rapariga, não precisas de tanto. — E eu não vou criar família? Ou tenho de viver de migalhas porque sou rapariga e não esperam grande coisa de mim? — perguntou Inês, com ironia — Transfere-me o resto, mãe. Agora. — Não. Seco. Ponto final. A mãe sabia bem que Inês não ia agir. Meter a mãe em tribunal por causa de dinheiro? Dificilmente. Ninguém ia entender, ainda mais condenar. E mãe continua sempre mãe — mal ou bem, ainda falavam. Umas semanas depois, com as contas já em ordem, Inês viu nas redes sociais: o João exibia-se junto de um Polo azul, novinho em folha. O Miguel postou: — A minha nova máquina! Os irmãos compraram carros baratos. Muito bem. Inês guardou os seus 330 mil. Pensou em esperar. Como dizia a avó: “Paciência de ouro”. Passou mais de um ano. Inês trabalhava, juntava dinheiro, planeava. Não esqueceu a situação, mas conseguiu ultrapassar. A mãe portava-se como se nada fosse: ligava, falava de tudo e de nada. Mas, naquele dia, a voz da mãe estava diferente, até deu arrepios a Inês. — Que se passa, mãe? — A avó… — Vera hesitou — a avó do João e do Miguel… faleceu esta manhã. Inês sentiu-se estranhamente desligada, como num filme. Aquela “avó”, não era dela, nunca foi importante na sua vida — era só “a sogra da mãe” ou “avó dos irmãos”. Mas, claro, sentiu pena. — Os meus sentimentos. — Tenho de tratar do funeral, dos papéis, não tenho tempo para nada. Estou sozinha, os rapazes… não sabem lidar com isto. Vens? Ajudas-me? Não era má vontade, mas Inês não podia sair do trabalho. — Mãe, estou no trabalho. Não posso largar tudo para ir ao funeral de uma pessoa que vi três vezes na vida — respondeu Inês. Nunca a levaram a casa dessa avó. — Por favor! — pediu a mãe — Faz-me mesmo falta. — Não vou, mas ajudo com dinheiro. Quanto precisas? Diz e transfiro já. A mãe hesitou, mas pensou que dinheiro não atrapalha. — Não é a mesma coisa… mas pronto. Uns vinte mil chegam? — Tratado. E mando mais um pouco para qualquer coisa que faça falta. Considera uma homenagem… à memória dela. — Obrigada, Inês. És sempre um apoio. Inês desligou sentindo-se horrivelmente satisfeita. Arranjou desculpa: não foi, mas ajudou. Agora ninguém podia criticar. Meio ano passou. O funeral ficou lá atrás. Miguel e João já deviam ter comprado novos brinquedos — motas ou telemóveis, talvez. Numa terça-feira calma, Inês decidiu que era o momento. Ligou à mãe, estava a preparar-se para uma reunião no trabalho. — Olá mãe! Está tudo bem? — Inês! Vai-se andando. O Miguel conseguiu emprego novo, melhor. O João… também anda bem, arranjou namorada. — Fico contente. Olha, mãe, queria perguntar uma coisa… — O quê? — a mãe ficou logo defensiva. — Já passou meio ano do falecimento da avó. Já trataram da herança, certo? Desta vez, a conversa ainda custou mais do que quando falou dos 330 mil euros. — Inês, o que é isso agora? Claro que sim. — Pronto. E a minha parte da herança? — Que herança é essa? — a mãe fingiu não perceber, mas Inês percebeu logo quando ela mentia. — Da avó. — Mas não era tua avó. — Que diferença faz? — Inês devolveu a lógica da mãe — Sou tua filha, disseste que não se pode excluir nenhum filho. “O dinheiro é da família”, verdade? O meu milhão dividiste pelos três. Fizeste “justiça igual”. — Inês, isso não é a mesma coisa! — Vera ficou nervosa — Isto é outra situação! — O que é que tem de diferente? Disseste várias vezes: “a herança é da família, quem manda sou eu, todos os filhos devem ter o mesmo!” — Não compares… — Olha que conveniente! Quando era o meu dinheiro, do meu pai, passou a ser de todos e ficou dividido igual. Agora, com o dinheiro da avó deles, já há famílias separadas? — Não estejas a pegar por tudo! — a mãe bufou — Queres que diga aos rapazes que tens direito à herança da avó deles? — Só quero que uses o teu método: dividiste o meu dinheiro entre todos porque “a mãe manda e o dinheiro é dos filhos”. Agora aplica o mesmo. Também tenho direito. Vendeste a casa, certo? — O dinheiro já foi. — Gastaste em quê? Nos carros? Nas obras? Eu também quero. Onde está a minha parte? Disseste que eu tinha de aceitar menos porque sou rapariga. Não aceito. A mãe pensava, certamente, numa saída da armadilha que criou. Sempre foi assim naquela família! Os rapazes, filhos do padrasto, eram considerados; a avó nunca aceitou Inês — “filha de outra”. A mãe nunca defendeu. — Inês, mas para que queres dinheiro? Trabalhas, estás de saúde, és nova. Não precisas de tanto. O Miguel e o João têm de pensar em casas, são homens! É mais difícil para eles! — Quer dizer, a tua opinião é: herança do meu pai, é de todos, porque somos irmãos. Herança da avó deles, é só deles porque são homens e eu sou rapariga, não preciso de nada? — Não te ponhas a ser respondona — disparou — Para que tanta ganância? A mãe nunca ia admitir que estava errada. Inês era egoísta só porque pedia justiça. — Pela procuração eras obrigada a dar-me o valor todo do apartamento. O prazo legal ainda não passou. Não estou a ameaçar, mas… — Inês! Vais ameaçar-me? — sussurrou, assustada. — Não, mãe. Mas ainda posso pedir o que é meu. Pensa nisso. Um mês depois, transferiram-lhe o que restava em dívida e depois… bloqueada em tudo.
– Oci, už k nám radšej nechoď! Lebo vždy, keď odídeš, mama začne plakať. Plače až do rána. – Zaspím, zobudím sa, znova zaspím a opäť sa zobudím – a ona stále plače. Hovorím jej: „Prečo plačeš, mami? Kvôli ockovi?..“ – A ona mi povie, že neplače, vraj má iba nádchu. Lenže ja som už veľká a viem, že taká nádcha neexistuje, aby boli slzy v hlase. Ocko s Olíviou sedel v Bratislavskej kaviarni za stolom, miešal kávu v maličkej bielej šálke, ktorá už dávno vychladla. Olívia sa svojho zmrzlinového pohára ani nedotkla, hoci pred sebou mala umelecké dielo – farebné kopčeky, ozdobené lístkom mäty, višňou a poliate čokoládou. Každé šesťročné dievčatko by neodolalo takej kráse. Len nie Olívia – tá už minulý piatok rozhodla, že s ockom chce hovoriť vážne. Ocko bol dlho ticho, kým povedal: – Čo teda spravíme, dcérka moja? Nevidieť sa vôbec? Ako by som takto žil?.. Olívia zvráskavila nos, krásny akoby po mame – trošku „zemiakový“, pomyslela si a povedala: – Nie, oci, aj ja bez teba nemôžem. Poďme to urobiť tak: zavolaj mame a povedz, že každý piatok si ma vyzdvihneš zo škôlky. – Pôjdeme spolu na prechádzku, ak budeš chcieť kávu alebo zmrzlinu, posedíme v kaviarni. A ja ti vždy poviem, ako s mamou žijeme. Potom sa znova zamyslela a po chvíľke pokračovala: – Ak budeš chcieť vidieť mamu, budem ti ju každý týždeň fotiť na mobil a ukazovať fotky. Chceš? Ocko sa na svoju múdru dcéru ani nepozrel, len sa jemne usmial a prikývol: – Dobre, takto budeme teraz žiť, dcérka… Olívia si s úľavou vzdychla a pustila sa do zmrzliny. Ale rozhovor ešte neskončila – musela povedať to najdôležitejšie, takže keď jej od zmrzliny vznikli pod nosom „fúziky“, oblízla ich a opäť zvážnela, takmer dospele. Takmer žena. Taká, čo sa musí starať o svojho muža. Hoci je už starší – ocko mal minulý týždeň narodeniny. Olívia mu k tomu namaľovala v škôlke pohľadnicu s obrovskou číslovkou „28“. Tvár dievčatka znova zvážnela, stiahla obočie a povedala: – Myslím si, že by si sa mal oženiť… A veľkodušne zaklamala: – Veď… ešte nie si taký starý… Ocko ocenil gesto dobrej vôle a pousmial sa: – Povieš aj „nie taký“… Olívia veselo pokračovala: – Nie taký, nie taký! Veď u nás mamu chodí navštevovať aj ujo Štefan – a ten je už trošku plešatý, tu na vrchu… A Olívia si pohladila vrch hlavy a potom si uvedomila, že prezradila mamine tajomstvo – keď ocko stuhol a ostro sa pozrel. Tak sa chytila oboma dlaňami za ústa a vyjavene otvorila oči. – Ujo Štefan? Aký už ten Štefan chodí k vám na návštevu? Ten, čo je mamin šéf?.. – takmer na celé kaviarne povedal otec. – Ja neviem… – Olívia sa zľakla tej búrlivej reakcie. – Možno aj šéf. Nosí mi sladkosti. A tortu pre všetkých. – A ešte… – váhala, či povedať otcovi, hlavne keď je taký „neadekvátny“ – mame kvety. Ocko dlho zvieral ruky na stole a Olívia pochopila, že práve teraz robí v živote veľké rozhodnutie. Mladá žena čakala, neponáhľala svojho muža k záverom. Už vedela – alebo tušila – že muži bývajú tvrdohlaví a k správnym rozhodnutiam ich treba „postrčiť“. A kto iný, ak nie žena – jedna z tých najdrahších v jeho živote. Ocko ostal ticho, ticho – a nakoniec sa odhodlal. Hlučne si vydýchol, zdvihol hlavu a povedal… Keby Olívia bola staršia, vedela by, že to povedal ako Othello na Desdemonu. No o Othellovi ani Desdemone ešte netušila, ani o iných veľkých zamilovaných. Len si postupne zbierala životné skúsenosti a videla ako ľudia prežívajú radosti, aj sa trápia kvôli maličkostiam. Ocko povedal: – Poďme, dcérka. Je už neskoro, odvediem ťa domov. A popritom prehovorím s mamou. O čom chce s mamou hovoriť, sa Olívia nevypytovala, ale pochopila, že je to dôležité – a rýchlo dojedla zmrzlinu. Uvedomila si, že to, na čo sa otec rozhodol, je omnoho dôležitejšie než najchutnejšia zmrzlina, a tak odhodlane hodila lyžičku na stôl, zoskočila zo stoličky, utierala si ústa chrbtom ruky, potiahla nosom a s pohľadom priamo na otca povedala: – Som pripravená. Poďme… Domov nešli, ale takmer bežali. Vlastne bežal otec. Ale Olíviu držal za ruku, takže takmer „vlála“ ako vlajka. Keď vbehli do vchodu, výťah práve pomaly zavrel dvere, odvážajúc suseda nahor. Otec trochu zmätene pozrel na Olíviu. Tá mu pozrela do očí a spýtala sa: – No? Čo tu stojíme? Na koho čakáme? Veď bývame len na siedmom… Otec vzal dcéru na ruky a vybehol po schodoch. Keď na dlhé netrpezlivé zvonenie konečne otvorila mama, otec začal rovno: – Nemôžeš to tak riešiť! Aký ešte Štefan? Veď ja ťa milujem. A máme Olíviu… Potom, držiac ďalej Olíviu v náručí, objal aj mamu. A Olívia objala oboch kolem krku a zavrela oči – lebo dospelí sa bozkávali… Takto to v živote chodí, že dve zmätené dospelé duše utíši malé dievčatko, ktoré ich miluje oboch – a oni ju, aj jeden druhého, len si nedali odpustenie… Napíšte mi do komentára, čo si o tom myslíte? Dajte like, ak ste to prežili s nami.