O Visitante de Inverno

Hóspede de Inverno

Nas aldeias portuguesas, o inverno traz a noite cedo, e quando chove ou há vento forte, parece que escurece ainda mais depressa. Às sete da tarde, da janela já só se via o ruído branco do vento e da chuva, e as gotas a escorrer pelo vidro.

Eu estava sentada à mesa, a rever um manuscrito.

O trabalho não era urgente o prazo estava marcado para dois de janeiro , mas nunca fui de adiar. Além disso, o que mais se faz na noite de passagem de ano, quando se está sozinho, a cidade mais próxima fica a setenta quilómetros e já não se vê televisão há quase dez anos?

Comprei a casa em São Martinho, com o meu marido, vinte anos atrás. Pensámos usá-la no verão, para fugir da cidade, respirar outro ar. Depois o Manuel morreu e Lisboa deixou de me fazer falta. Acabei por vir de vez, com o computador, as revisões, os livros, e a gata Júlia, que agora dormia enrolada junto ao radiador, alheia à tempestade lá fora.

Os vizinhos habituaram-se depressa: ao início olhavam-me com mais curiosidade, mas ao fim de dois anos, aceitei o meu lugar sou a mulher editora, da casa das portadas azuis, que vai aos correios e ao minimercado de três em três dias, que não mexe nem espera de ninguém. Uma boa vizinha.

Em cima da mesa estava a impressão do romance. No topo, lia-se o nome: R. Carvalho. Oito meses de trabalho, de idas e voltas com a editora, de anotações aceites e recusadas, mais de trezentas páginas sobre uma pessoa que passou a vida toda a andar para onde não devia até perceber enfim porquê. Bom romance.

Já revi muito lixo, e noto a diferença. Este estava vivo, feito de verdade. Há vozes que não se podem ensinar: nascem connosco, ou não existem. R. Carvalho parecia saber bem disso talvez até o temesse.

O telefone tocou às sete e meia.

Maria, já tens isso pronto? perguntou a Inês da editora, a voz um pouco culpada: estava a ligar na véspera do Ano Novo, percebia o incómodo.

Dia dois, respondi.

Deixa-te disso, pode ser depois do Dia de Reis. Agora é feriado, Maria.

Dois de janeiro, repeti.

Inês não discutiu. Sabia que era teimosia perdida.

Vais passar aí a noite sozinha, outra vez?

A Júlia faz-me companhia.

Maria

Inês

Ela riu-se e despediu-se. Eu voltei ao manuscrito, relendo o parágrafo da página cento e dezassete que há três dias me inquietava: o terceiro do topo. A frase pesava ao texto podia jurar que não era o lugar dela. Não era o sentido, era o ritmo: demasiado longa, afundava a leitura. Tentei cinco substituições; apaguei todas. À sexta tentativa, ficou bem.

Anotei, reli, fiquei satisfeita e fechei o computador. Faltavam duas horas até ouvirmos a campainha.

O som chegou por volta das nove e meia.

Não era na janela era à porta.

Pensei primeiro que era o vento. Mas o vento não bate empurra, geme. Ali era diferente: três pancadas, depois duas.

A Júlia abriu meio olho e tornou a fechar.

Levantei-me. Espreitei pela cortina: lá fora, uma figura. Sozinho, sem carro só ele no meio da noite, coberto de chuva, o casaco comprido já encharcado. O candeeiro do portão abanava com o vento, mas via-se que não era ameaça apenas alguém perdido e gelado no escuro.

Nas aldeias, não se deixa ninguém à porta. Muito menos na chuva.

Vesti o casaco e fui abrir.

Boa noite, disse ele, ainda do lado de fora. A voz baixa, rouca. Desculpe aparecer a estas horas. Fiquei sem bateria, o carro deslizou para a valeta, vi a luz em sua casa.

Olhei-o bem. Alto, quase batia com a cabeça no topo da porta. Casaco aos quadrados, ensopado. Trazia os óculos numa mão, nada na outra: sem mala, sem mochila. As lentes embaciadas, nem valia a pena tentar pô-las.

Entre, disse.

Entrou devagar, sem pressas, como quem sabe que está a invadir o espaço de alguém e tenta ocupar o mínimo de lugar.

O carro ficou longe? perguntei, enquanto ele desembrulhava o cachecol.

Uns duzentos metros ao longo da estrada. Siga a roda errada, nem me apercebi. Pausa. O carregador ficou em casa, o GPS drenou tudo.

Pois.

Enquanto tirava o casaco, pus água ao lume. Depois vi que continuava com os óculos na mão. Só os pôs quando aqueceu as lentes nas palmas.

Pode pô-los naquele cabide. Apontei ao lado do espelho.

Obrigado. Pendura o casaco, encaixa os óculos. Rui.

Maria. Apontei à cozinha. Entre, por favor.

Aqui, todos se conhecem. A aldeia mais próxima é Soutelinho, seis quilómetros pelo prado fora. Poucas casas habitadas, mais veraneantes do que residentes no inverno. Fica isolada pela velha linha de eucaliptos e por uma estrada quase intransitável.

Vem de Soutelinho? perguntei, enquanto ele se sentava.

Sim. Comprei uma casa lá no outono, só vim agora, no inverno. Sorriso curto. Não imaginava que fosse tão diferente.

Não olhou para a meteorologia?

Olhei. Dizia chuvisco moderado.

Pois, mas na autoestrada ou aqui há muita diferença.

Agora já sei.

Dei-lhe uma chávena quente, sem perguntas. Ele agarrou-a com ambas as mãos, calado.

O carro resolve-se, disse ele. Amanhã trato disso. Só preciso de carregar o telemóvel.

Tenho um carregador ali ao pé do frigorífico. Apontei. Use à vontade.

Levantou-se, ligou o telefone e voltou ao assento, agarrado ao chá, ainda a aquecer-se.

Moras aqui há muito? perguntou.

Cinco anos de vez. Antes só vinha aos fins de semana.

Não tens saudades da cidade?

Nenhuma.

Não insistiu. Agradeci-lhe por isso.

O telemóvel era antigo igual ao meu, já nem se fabricam há anos. Ia demorar uma eternidade a carregar uns míseros cinco por cento.

Não ia embora tão cedo.

Peguei na minha chávena e perguntei:

Já jantaste?

De manhã.

Logo de manhã?

Achei que viria só por umas horas.

No frigorífico havia sopa de ontem, sopa de feijão. Aqueci. Ele não disse não se incomode, nem obrigado, não é preciso simplesmente esperou. Certo.

Ficámos em silêncio até à sopa aquecer. Não era constrangedor só era silêncio. A chuva tamborilava sem parar lá fora, a Júlia roncava junto ao radiador, e a luz da cozinha acolhia tudo. Achei estranho: um estranho em nossa casa, silêncio que não atrapalha. Raro.

Tornei a pôr água a ferver passado meia hora.

Lá fora, continuava a chover. Jantámos sem pressas, quase sem conversa não por falta de assunto, mas porque não era preciso.

Vive-se em sossego aqui, disse ele.

Sempre. Quando não é o vento, é o silêncio.

Refiro-me ao sossego interior. Acenou à sala. Não tens televisão, rádio só às vezes.

Há um rádio pequeno, está no peitoril da janela. Às vezes ligo.

Em Lisboa não consigo trabalhar sem auscultadores. Sempre barulho atrás das paredes. Não ajuda.

Trabalhar escreves?

Sim.

O quê?

Prosa. Nos últimos anos, um romance. Demorou.

Isso acontece.

Entreguei-o no outono. Agora sinto-me vazio, não sei o que fazer.

Conhecia aquela sensação. Não minha, de observar muitos autores: quando acabam um manuscrito, fica um vazio para o qual não encontram destino. Uns começam logo outra coisa, outros andam à deriva, outros desistem. Varia.

Passa, disse-lhe.

Sei. Mas para já, não.

A Júlia desceu do radiador, foi cheirar-lhe a mão e retirou-se. Rui seguiu-a com o olhar.

Isso é bom, não é? Se ela tivesse ficado, era melhor?

Era. Assim, mais ou menos.

Tenho de trabalhar nisso. Disse sério.

Ri-me.

Posso perguntar? disse ele.

Claro.

Porque escolheste dia dois?

Demorei a perceber.

O prazo. Disseste ao telefone: entrego a dois de janeiro. Mas hoje é trinta e um, podias estar a celebrar. Tens mais dois dias. Porquê hoje?

Era uma pergunta demasiado certeira, para um estranho. Mas veio sem malícia.

Hábito, respondi.

Que hábito?

Não deixar para depois aquilo que já quase está feito.

Olhou para mim. Não acreditou não que achasse mentira, mas percebeu que não era tudo.

E é porque este lugar também não convida a esperar. Ano Novo não me diz muito. Prefiro trabalhar do que olhar para o relógio.

Entendo, disse ele, sem pena, só a aceitar.

Outra pausa. A chuva batia nas persianas da casa dos vizinhos, que tinham partido antes do Natal e só voltariam na primavera. Fazia barulho, mas já estava habituada.

Estavas mesmo a trabalhar quando cheguei? perguntou Rui.

Sim.

O que fazes?

Revisora literária.

Deve ser interessante.

Às vezes muito.

Olhou-me, pensativo.

Trabalhar o texto dos outros não cansa?

Ponderei.

Quando é mau texto, pesa. Mas quando é bom, é o contrário: quer-se limpar, cuidar. Como restaurar um azulejo a estrutura já está, só se tira o supérfluo.

Ele aquiesceu, pensativo, consigo.

E não te importas, se mexem no que escreves?

Só quando tiram o essencial.

E como se sabe?

Se custa, era essencial. Se vai embora sem doer, estava a mais.

Olhei para ele. Formulação certeira, de quem passou por isto mais do que uma vez.

Já te aconteceu má revisão?

De todo. Tive uma revisora que me transformou a primeira novela: de uma história sobre o mar e a solidão, fez uma aventura empresarial. Exagero, claro.

Aceitaste?

Tinha vinte e nove. Achava que eles sabiam melhor.

E depois?

Depois entendi que saber melhor e ter razão não são o mesmo.

Acenei. Editor pode conhecer o ofício todo e não ouvir a voz do autor. O segundo sempre vale mais.

***

A noite fechara de vez nem luz lá fora. Só o candeeiro filtrava na chuva, fantasmagórico.

Rui tomou o segundo chá. A Júlia tornou a dar uma volta e agora passou, mas não parou. Notei que ele não a chamou. Fez bem nunca gostou que lhe dessem atenção à força.

Posso? fez sinal à estante.

Claro.

Leu os títulos em silêncio. As prateleiras misturavam policiais, prosa, literatura do mundo aos magotes. Regressou à mesa.

Muitos policiais.

Para descansar o pensamento. Lá tudo se resolve sempre.

E na vida?

Quase nunca.

Pegou na chávena.

Fala-me do romance, pediu.

Demorei a entender o que queria.

O que revisas.

Para quê?

Por curiosidade. Disseste que é restauração, quero perceber como sentes isso.

Era uma estranha conversa. Um estranho à mesa, a chávena aquecendo as mãos, pergunta-me como penso o meu trabalho. Talvez nunca ninguém tenha perguntado assim não por cortesia, mas para saber mesmo.

É a história de alguém que passou a vida a fazer o que lhe diziam certo. Descobre, tarde, que só fazia assim por medo de tentar diferente. É sobre diferença entre hábito e escolha.

E ao fim?

Vai-se embora. Não foge dos outros, mas de si mesmo. O melhor fim possível para esta história.

Rui reflecte.

Gostas desse final?

Sim. O autor queria outro, no início.

Qual?

Regresso. Que voltasse ao que deixou.

E tu convenceste-o?

Comentei no texto, só. Ele decidiu. É sempre assim. A última palavra é do autor.

Ele baixa o olhar. Senti-o a digerir a resposta.

Porquê melhor partir do que regressar?

Porque voltar responde ao “onde”. Partir responde ao “quem”.

Olhou-me, curioso.

Frase tua ou do romance?

Dos comentários ao manuscrito.

Silêncio.

Há quanto tempo revisas literatura?

Oito anos.

Pensas sempre assim nos finais?

Só quando a história é honesta. Se não é, qualquer fim serve que não convence. Se é, só há um possível e o desafio é não estragar.

Rui olhou continuadamente a janela, como a pesar alguma coisa.

Deve ser duro lidar com o texto dos outros desse modo.

Pensei.

Às vezes, sim, quando o autor luta sem perceber o que faz. Mas este não. Este ouvia.

Este que revisas agora?

Sim.

Onde ouvia?

Fiquei um momento, escolhendo palavras. Não do enredo, mas das camadas.

Há uma frase. Corrigi, ele aceitou. Mas ainda assim revejo mentalmente se fiz bem.

O que dizia antes?

Era sobre a tempestade. Ele escreveu comprido, pesava ao ritmo. Resumi, ficou mais nítido, mas sem o mesmo sabor.

Faltou o quê?

Não sei. Vida, talvez.

Lê o teu resultado.

Estranha sugestão, mas acedi.

A tempestade não escolhe. Só fica quando tudo o resto parte.

Rui ficou calado.

Vários segundos. Notei algo mudar nele, não no ambiente. Olhava para a mesa, a segurar a chávena demasiado quieta. Não pensava apenas na frase; reconhecia-a.

Algum problema? perguntei.

Não. Pausa. Eu escrevi diferente. A tempestade não decide para onde vai só sabe ficar quando o frio não amedronta aquilo que resiste.

Pousei a chávena.

Devagar. Porque era preciso.

Aquela frase estava naquela página, no manuscrito na outra sala. Página cento e dezassete, terceiro parágrafo. Lutei com ela três dias, dei aquela volta, mostrei à editora. Só nós vimos a mudança: eu, ele.

O manuscrito não estava publicado. Ninguém conhecia aquelas linhas.

Tu és o R. Carvalho, disse. Não era uma pergunta.

Olhou-me.

Rui Carvalho, confirmou.

Fiquei sem resposta. Estranhamente familiar. Senti, desde o início, algo mais, sem saber o quê. Dois desconhecidos à mesa, discutindo finais e vazio, quando na verdade trabalhávamos juntos sem saber há oito meses, cada um na sua solidão.

Fui eu que revi o teu romance. Oito meses disto.

Sei. A editora falou de uma revisora M. Ribeiro. Pausa. Não sabia o teu nome, só a inicial.

M. Ribeiro.

Maria Ribeiro. Eu.

Conhecíamos-nos já: pelo texto, pelas notas de margem, pelos aceite e recusado, pelos argumentos. Tínhamos discutido cada decisão, sem nunca nos ver.

Percebi que sabia muito sobre ele, mas ele quase nada de mim.

Meio injusto.

E, no entanto, veio bater-me à porta numa noite de tempestade.

***

Porque não disseste de início? perguntei.

O quê? Pareceu surpreso. Não sabia que eras minha revisora. Só disse que escrevia.

E eu só disse revisora.

Pois. Ambos calámos metade.

Tinha razão. Nenhum de nós se anunciara, nenhum se esticou. E foi assim.

A frase que mudaste, retomei. Alterei-a, porque fazia tropeçar a leitura.

Eu concordei.

Mas a tua era mais verdadeira.

Olhou-me.

Achas mesmo?

Sim. A minha é exata. A tua, honesta. Por vezes, é mais importante ser honesto do que exato.

Demorou antes de responder.

Posso pedir que volte ao original?

Já está na editora. Mas se pedires, eles mandam-me e eu mudo.

Não. Abanou a cabeça. Fica a tua. Se achaste certo, confio.

Não discuti, mas fiquei contente por se importar.

O telemóvel apitou baixinho quinze por cento. Já podia ligar para a assistência. Mas Rui não saiu.

Leste o romance todo?

Três vezes. O revisor lê três: para entender; para sentir; para trabalhar.

O que sentiste?

Olhei-o firme.

Que o autor passou muito tempo a perceber alguma coisa. E, finalmente, percebeu.

Baixou os olhos.

É isso.

O romance está muito bom, acrescentei. Digo pouco isto. É verdadeiro.

Não respondeu, assentiu apenas, e percebi que isso lhe chegava. Talvez nunca tivesse ouvido, talvez nunca o dissesse em voz alta.

Outra vez silêncio, mas agora entre pessoas que se entendem de verdade: o silêncio maduro, aquele que respeita.

Sempre estiveste só? perguntou, muito baixinho.

Não. O Manuel morreu há cinco anos.

Sinto muito.

Não é preciso. Já dói menos. Só é diferente.

Não tentou o compreendo. As pessoas dizem isso demasiado. Ele ficou mudo e mudou de assunto.

Porquê São Martinho?

Era aqui que era possível respirar. E aqui fiquei com ele o tempo suficiente para ele, de algum modo, ainda cá estar.

Acenou levemente.

E tu, Soutelinho?

Divorciei-me há dois anos. O apartamento em Lisboa ficou vazio. Por isso comprei a casa: para que o vazio fosse diferente.

Soltei uma gargalhada inesperada. Expressou o que nunca consegui traduzir quando perguntavam por que quis viver assim.

Exatamente, disse.

Entendes?

Perfeitamente.

Sorriu discreto, para si. Mas já se via melhor.

Tiraste um monólogo na quarta parte, referiu.

Tirei.

Porquê?

O leitor já sabia tudo. Era excesso.

Custou-me perdê-lo.

Sei. Disseste nas notas.

E respondeste: percebo, mas não.

Porque perceber não chega. Pena pelo texto não é argumento.

Silenciou.

Tens razão, disse por fim. Melhora sem monólogo. Só soube depois.

Só sabemos depois.

Não te incomoda que só agradeçam depois?

Não. O importante é o texto sair bom. Quando sair, digo a mim mesma aceite, e chego-me.

Olhou-me por uns instantes. Não como a alguém desconhecido como quem começa a reconhecer.

Achava que os revisores não tinham rosto, confessou.

Devia ser assim. O texto não é sobre nós.

Mas tu tens rosto.

Às vezes é problema.

Não, corrigiu. Nunca é.

***

Vinte e três e quarenta e cinco.

Faltam quinze minutos para o Ano Novo, disse Rui.

Sei.

Lá fora, a tempestade abrandava; restava a música subtil da chuva, o candeeiro imóvel. Caía ainda, suavemente, quase cansada.

Há mais que chá? perguntou.

Há vinho. Branco, dos festejos de Natal.

Acha que estará bom?

Creio que sim.

Levantei-me para ir buscar. Dois copos normais cá não há necessidade de cerimónia. Servi poucochinho a cada.

Brindamos a quê? perguntou.

Ao Ano Novo, sugeri.

Vago.

Então à honestidade, que dá sentido à precisão.

Olhou-me, senti-me olhar de volta pela primeira vez na noite.

Concordo.

O som do relógio ouviu-se do rádio antigo, deixado pelo Manuel naquele verão nunca o tirei, só troquei pilhas. À meia-noite, transmitia festas de outras casas, e eu já me acostumei.

Agora era outra coisa.

Tocámos os copos. Bebemos. A Júlia alongou-se no radiador, bocejou de leve. Do outro lado, a chuva já quase não se ouvia.

O telefone apitou trinta por cento.

Rui olhou para ele, para a janela, para mim.

O reboque não aparece esta noite.

Hoje não, só de manhã.

Tens onde me deixar dormir?

Divã no escritório. Só preciso de arrumar os papéis.

Não mexas. Não incomodo.

Não incomodar. Não era o mesmo que não perturbar percebia o espaço e queria respeitá-lo.

Como queiras.

Pus água ao lume de novo, pelo gesto.

Maria, chamou Rui.

Virei-me.

Ainda bem que o carro ficou preso.

Olhei-o. Estava ali, à mesa, copo nas mãos, a dizer o que sentia, sem rodeios.

Ainda não tenho a certeza disso, disse honestamente.

Sei. É normal.

A água levantou fervura.

Enchi as duas chávenas. Ele agradeceu, pegou na dele.

Lá fora, só se via o cair lento das gotas. A tempestade acabou.

Mas ele não saiu.

E eu não perguntei quando sairia.

O manuscrito estava na sala ao lado: página cento e dezassete, parágrafo três. A frase dele, na minha revisão, e na cabeça dele, à maneira original. Ambas diziam o mesmo: o que permanece quando tudo o resto se vai.

Talvez seja essa a verdade.

Sentei-me à mesa, a chávena entre as mãos. Ele em frente. Lá fora, só chuva mansa e o Ano Novo, já a começar.

Às vezes, basta simplesmente acolher. É nessas noites improváveis que, entre honestidade e precisão, aprendemos a reconhecer o que nos une aos outros mesmo quando pensamos que já perdemos tudo.

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