O meu ex-namorado escondia-me dos amigos dele, porque alegava que eu “não estava ao nível dele”.

O meu ex-namorado escondia-me dos amigos dele, porque achava que eu não estava ao nível dele. Sempre soube, desde o princípio, mas mesmo assim fiquei. Ele vinha de uma família rica, numa pequena cidade do interior o pai era um empresário reconhecido, a mãe nunca trabalhou, viviam numa grande moradia com um carro novo na garagem. Eu morava num bairro humilde de Lisboa, trabalhava como caixa num supermercado e ajudava a minha mãe com as despesas lá de casa.
Conhecemos-nos numa pastelaria, quando eu comprava café antes do meu turno. Ele começou a telefonar-me, a enviar mensagens, a convidar-me para sair. No início, tudo parecia perfeito, mas algo era estranho. Nunca me levava aos sítios onde se encontrava com os amigos dele escolhia sempre locais afastados, discretos, onde ninguém nos conhecia. Se passeávamos pelo Chiado e eu encontrava alguma cara conhecida, ele largava a minha mão rapidamente e murmurava: Vamos por aqui. Perguntei-lhe porque é que fazia aquilo, e ouvi: Os meus amigos são muito exigentes, não quero que se fale. Engoli aquela explicação.
A primeira vez que percebi o que realmente estava a acontecer foi numa festa. Ele convidou-me, vesti um vestido simples mas bonito. Ao chegarmos, sussurrou: Fica aqui ao pé do balcão, vou cumprimentar alguns amigos. Passaram vinte, depois quarenta minutos. Vi-o ao longe, a rir, a tirar fotografias, a abraçar pessoas. Não me apresentou a ninguém. Quando me aproximei, ele pôs a mão à frente e disse: Espera lá fora um bocadinho. Lá fora, explicou: Há gente importante aqui, não quero constrangimentos.
Com o tempo, começou a fazer comentários cada vez mais dolorosos. Dizia que eu falava demasiado à portuguesa, que devia mudar o meu estilo, que não publicava fotos comigo nas redes porque a família era reservada. Nunca me levou à casa dele. Nunca conheci os pais. Quando o convidei para o aniversário da minha mãe, arranjou desculpas trabalho, o carro, cansaço. Mas nos eventos do círculo dele, desaparecia o fim de semana inteiro.
Um dia perguntei-lhe diretamente: Tens vergonha de estar comigo? Ele ficou calado alguns segundos e disse: Não é vergonha apenas viemos de mundos diferentes. És uma boa pessoa, mas os meus amigos têm outro estatuto. Não quero ser julgado. Aquela frase partiu-me por dentro. Perguntei: E tu? Podes julgar-me? Ele apenas encolheu os ombros.
O pior foi, quando vi no perfil dele fotografias com uma colega filha de um advogado famoso de Cascais. Restaurantes luxuosos, eventos caros, sorrisos e elogios públicos. Com ela, posava orgulhoso. Por mim, nem uma palavra. Quando perguntei, disse que era apenas uma amiga. Discutimos seriamente. Afirmei que não ia ser um segredo. Ele respondeu: Se não gostas, acabamos.
E foi o que aconteceu. Acabámos ali mesmo. Caminhei sozinha várias ruas, a chorar. Uma semana depois, já estava oficialmente com aquela mulher. Continuei a ir trabalhar, a ver fotos dele em roupas caras, viagens e jantares. Nunca pediu desculpa. Nunca reconheceu que me magoou.
Hoje sei que durante um ano fui a rapariga que ninguém devia ver. Aquela que existia só entre quatro paredes. Aquela que não era suficiente para estar numa fotografia. E isso, não se apaga facilmente.

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RebeldeO rebelde finalmente encontrou a força para enfrentar o silêncio que oprimia a sua aldeia.