RebeldeO rebelde finalmente encontrou a força para enfrentar o silêncio que oprimia a sua aldeia.

Estendi a mão para acariciar o animal ameaçador, mas a gata encolheu-se e, de forma estranha, rastejou para longe, fugindo da minha mão.

— Olhem para ele! — quase gritava a diretora da escola. — Os pais foram chamados, e ele nem tem vergonha!

O Tiago olhou nos olhos da diretora enfurecida. No rosto do rapaz de dez anos não havia qualquer sinal de arrependimento pelo que fizera. Com ar aborrecido, ele ouvia em silêncio as acusações da Dona Ana Eduarda.

— Queimar o livro de turma! — a voz da diretora tornou-se um guincho.

— Espera lá fora! — ordenou o pai, com voz severa.

O miúdo saiu do gabinete da diretora, batendo com a porta. Não lhe importava ser castigado outra vez. Não podia ter agido de outra forma — tinha dado a palavra.

Quanto aos pais, depressa se esqueceriam dele, a caminho de mais uma expedição.

Naquela mesma noite, em conselho de família, decidiram mandar o Tiago para a aldeia, para casa do avô, durante todo o verão. Talvez ele conseguisse domar o jovem rebelde.

***

— Este é o teu horário — disse o Jorge Sá, antigo militar, apontando para uma folha de papel escrita com letra firme. — Na aldeia não há tempo para tolices; todos precisam de comer e beber.

— Sou escravo? — exclamou o Tiago, depois de ler a longa lista de tarefas.

O Jorge Sá sorriu, apreciando o olhar guerreiro que o neto lhe lançou. Na véspera, o filho trouxera o Tiago, queixando-se ao pai de como era difícil lidar com ele. Brigas constantes na escola, queixas dos professores e da diretora — tudo isso lhe roubava tempo às investigações científicas. Os pais do Tiago partiram para a expedição, aliviados por deixar o filho rebelde com o avô.

Os dias passaram devagar, cheios de tarefas estranhas.

O Tiago levantava-se com os galos, ajudava o avô a dar de comer à Malhada, a vaca malhada, aos quatro leitões e ao Arquimedes, o cavalo baio. Trazer água, empilhar a lenha cortada, mondar os canteiros.

As tarefas não acabavam, mas o Tiago dera a palavra de que não se queixaria.

— Ele está a vigiar-me? — perguntou um dia o Tiago, de olhar desconfiado, apontando para o grande cão do avô, o Ermes, que o seguia como uma sombra sempre que saía do quintal.

— Sente que não és daqui, tem medo que te percas — respondeu o avô, com um leve tom irónico.

O que o Tiago mais gostava era de ir à pesca. O rapaz aprendeu depressa a manejar o caniço, e passadas duas semanas o Jorge Sá deixava-o ir sozinho para o rio.

A melhor pesca era ao amanhecer, quando ainda estava fresco. O Tiago adorava sentar-se com o caniço na margem e ver o sol nascer, iluminando tudo à volta. Na cidade, nunca se via algo assim!

Numa dessas madrugadas, enquanto se instalava com os caniços na margem de um riacho pitoresco, o Tiago notou um movimento na erva alta.

Ao lado, uma rã coaxava ruidosamente; um cão ladrou. Sons familiares, mas…

A erva mexeu-se outra vez, e o rapaz decidiu verificar.

Caminhando com cuidado pela erva alta, o Tiago espreitava na penumbra da manhã, mas não viu nada. Pensando que era imaginação, ia voltar para os caniços, quando ouviu um gemido fraco e lastimoso.

Curvou-se, afastou a erva com as mãos, e uma gata sibilou ameaçadoramente, com as orelhas coladas à cabeça. Os olhos do animal avisavam para manter distância, e o silvo era uma clara ameaça.

— Ai… — exclamou o Tiago, surpreendido. — Porque é que silvas?

Estendeu a mão para acariciar o animal feroz, mas a gata encolheu-se e, de forma estranha, rastejou para longe da mão estendida.

Nesse momento, a luz aumentou, e o Tiago viu manchas de sangue no pelo claro do animal. Veio-lhe à memória uma cena recente: quatro adolescentes a atormentar um gato malhado com uma orelha queimada.

O Tiago estremeceu, afastando a recordação dolorosa. A gata estava ferida; precisava de ajuda.

Não a podia pegar com as mãos nuas — ela estava zangada e com dores. Olhou em volta, mas não encontrou nada adequado. Trazia um casaco leve para se proteger do frio da manhã.

Tirou o casaco e aproximou-se da gata sibilante:

— Bichano, bichano! Só quero ajudar-te… Bichano, bichano!

Com as últimas forças, a gata lançou-se para o lado, mas o Tiago foi mais rápido. Cobriu-a com o casaco, enrolou-a com cuidado e apertou-a contra o peito. Depois, correu a toda a velocidade para casa, esquecendo os caniços.

— Avô, a gata vai ficar bem? — perguntou o neto pela centésima vez, com o olhar ansioso na porta da cozinha de verão.

— Não te preocupes, a Dona Angelina Miguel é veterinária e percebe de feridas — o Jorge Sá acariciou a cabeça do neto. — Vai buscar os caniços, e quando voltares, há novidades.

O Tiago acenou e correu ao rio para buscar os caniços. Voltou tão depressa que mal conseguia respirar.

Nesse momento, a figura magra da Dona Angelina Miguel apareceu à porta da cozinha. A idosa disse algo ao Jorge Sá, que sorriu satisfeito.

— Como está ela? — perguntou o Tiago.

— Vai ficar bem — respondeu a Dona Angelina. — Parece que foi mordida por um cão… Tratei das feridas; agora tens de cuidar dela.

— Faço tudo! — exclamou o Tiago, e os olhos encheram-se de lágrimas de alegria e alívio.

Naquela noite, o rapaz não se afastou da gata adormecida, improvisando-lhe um leito com uma caixa e uma manta velha. Colocou taças de comida e água ao lado e ficou apenas a observar enquanto ela dormia.

— Vais dormir aqui? — perguntou o Jorge Sá.

— Posso? — perguntou o Tiago, esperançoso.

— Melhor levá-la para casa — sugeriu o avô.

Levaram a gata para o quarto onde o Tiago dormia e puseram a caixa ao lado da cama.

Olhando melhor, a gata tinha o pelo dum tom bege claro, com listas quase imperceptíveis.

O Tiago sentou-se na borda da cama, continuando a observar a sua protegida.

— Olho para ti, neto, e fico admirado — disse o Jorge Sá, pensativo, sentado numa cadeira ao canto. — Não és preguiçoso, és inteligente, responsável e tens bondade. Então porque armas revoltas?

O Tiago olhou para o avô, encolhendo os ombros em resposta.

— A tua última façanha, com o livro de turma… — insistiu o avô. — Não o queimaste sem razão, pois não?

— Dei a minha palavra, e quem a dá tem de a cumprir — resmungou o Tiago.

Estendeu a mão e acariciou suavemente a cabeça da gata adormecida.

— A quem deste a palavra? — as suspeitas do Jorge Sá confirmaram-se; não acreditava na culpa do neto.

— Na cave do prédio ao lado da escola vive um gato vadio que eu alimentava, e falava com ele, tal como tu falas com o Ermes — contou o Tiago, fungando. — Sonhava levá-lo para casa, mas os meus pais não queriam ouvir falar disso… Dei a palavra ao Listrado de que o protegeria sempre.

— E o que aconteceu a esse gato? — perguntou o avô, em voz baixa, com a respiração suspensa.

— Rapazes mais velhos estavam a atormentá-lo — a voz do Tiago tremeu. — Pedi-lhes que parassem, e eles aceitaram, com a condição de eu queimar o livro de turma…

— Canalhas! — exclamou o idoso. — Onde está esse gato agora?

— Uma senhora levou-o, segundo me disse o zelador — o Tiago acariciou novamente a gata. — Gostava tanto de saber como está o Listrado…

— Foste um herói! — o avô acariciou a cabeça do neto. — Cumpriste a palavra, isso é certo, mas porque não contaste aos teus pais?

— Eles não perguntaram — respondeu simplesmente o Tiago.

Os dias passaram… As feridas na Suspiro — assim o Tiago chamou à gata — sararam. A gata deixou de silvar e de olhar desconfiada para as pessoas.

A Suspiro aceitava os cuidados do homem que lhe salvara a vida. Em breve, a gata, já mais bonita e com peso ganho, veio dormir na cama do Tiago.

O sonho do rapaz realizara-se, mas muitas vezes sonhava com o Listrado, o gato malhado de orelha queimada. O gato esfregava-se nas suas pernas e ronronava alto quando o Tiago o pegava ao colo.

— Onde estás? — perguntava o Tiago durante o sono, mas não obtinha resposta.

Passou Julho, e depois Agosto…

O Tiago esperava que os pais viessem buscá-lo, mas em vez disso o avô anunciou que precisava de ir à cidade tratar de assuntos. Depois de tratar das tarefas da manhã, o Jorge Sá deixou a quinta aos cuidados do neto e foi apanhar o comboio.

Regressou ao fim da tarde, cansado mas satisfeito. Elogiou o neto pela ordem e, com um sorriso misterioso, chamou-o para dentro de casa, onde antes colocara uma grande caixa.

— Vem cá, neto — disse o Jorge Sá, apontando para o sofá. — Olha quem veio comigo da cidade.

O Tiago entrou no quarto e olhou para o sofá. Pestanejou várias vezes, com medo de estar a ver coisas.

— Listrado! — exclamou o rapaz, pegando com cuidado no gato malhado de orelha queimada. — Avô, és o melhor!

O gato parecia saudável e bem alimentado. Mais tarde, o Jorge Sá contou ao neto como ficara impressionado com o seu gesto e resolvera procurar o gato malhado, pedindo ajuda à escola do Tiago.

Descobrira que o zelador tinha contactado um abrigo para levar o gato vadio, receando pela sua vida.

No início de Setembro, os pais do Tiago chegaram com a notícia de que precisavam de partir para uma longa expedição, e que o rapaz teria de ficar com o avô mais algum tempo.

Os pais mal reconheciam no filho alegre e bem-disposto o antigo rebelde.

— Pai, fizeste um milagre! — exclamou o pai do Tiago.

— Aprendam a ouvir o vosso filho — disse o Jorge Sá, com tom de ensinamento.

Quanto ao Tiago, ficou contente por continuar a viver com o avô e não ter de se separar do Listrado e da Suspiro.

O rebelde tornou-se no dono mais cuidadoso e responsável para os seus animais.

Aprendi naquela altura que uma palavra dada pesa mais do que qualquer castigo, e que ouvir quem amamos é o verdadeiro remédio para a rebeldia.

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RebeldeO rebelde finalmente encontrou a força para enfrentar o silêncio que oprimia a sua aldeia.
Мястото за срещи не може да се промени – забранено е!