As melhores amantes? São as esposas que todos já deram como carta fora do baralho.
O Fábio sempre achou que foi azar no amor. Calhou-lhe uma mulher fria. Fria, não: no início era gente, depois virou outra coisa. Não havia mais aquele fogo que fazia o homem correr para casa, ansioso para ver se sobrava tempo de agarrar uns beijos antes do jantar.
Não era mau, vá: casa limpa, sopa feita, o filho já estava naquela fase “entrei na faculdade e fui morar longe”. Mas tudo funcionava no piloto automático, longe dos tempos das cuecas vermelhas de tule. A esposa dele passou silenciosamente da liga das “mulheres fatais” para a liga dos “hipopótamos domésticos fofos” e o Fábio resignou-se.
Ele já não tinha ciúmes. E de quê, afinal? Das colegas de trabalho? Ia ter ciúmes dos 75 quilos de estabilidade da dona da caixa do Pingo Doce?
Por isso tudo o que antes era feito às escondidas agora já acontecia quase descaradamente. Site de encontros, só para ver o que há no mercado. Conversas só para inflar o ego. Saídas com amigos “tu sabes, um homem também precisa relaxar”.
A esposa, a Vera, desconfiou algumas vezes, discutiu, fez umas cenas, depois calou-se. O Fábio interpretou aquilo como rendição: ela percebeu o seu lugar.
E eis que aparece a oportunidade perfeita para viver a vida de solteiro: a Vera ia em viagem de trabalho! O Fábio rejubilou. Finalmente podia relaxar como gente grande.
Fez logo planos mentais: ia conversar, conhecer gente, convidar alguém para “um cafezinho”, ou até para mais do que café. A vida parecia uma novela da noite.
A realidade, claro, foi bem menos glamorosa. Enviou uns cem mensagens no site. Recebeu respostas de dez, começou conversa com quatro. Uma veio logo falar de criptomoedas e “sucesso garantido”, outra era um bot de IA, as outras duas evaporaram-se depois de uns emojis. O Fábio percebeu com algum desconforto que um homem quase divorciado, com apartamento próprio e salário certinho, não era assim tão apetecível como pensava.
Numa noite, enquanto limpava o histórico no browser para não deixar provas digitais da sua vida agitada, tropeçou em informações suspeitas sobre a viagem da Vera. Quanto mais cavava, mais vontade tinha de fugir.
A viagem era real, sim senhor. Mas havia um “pequeno” detalhe: além da Vera, ia um colega de trabalho, bem bonito, 27 anos, amante dela. E não só ia: ia tudo pago pela Vera! Bilhetes, hotel, jantar caprichado tudo saía dela, aquela mulher calada, monótona, “fria”.
Fábio primeiro não acreditou. Depois caiu-lhe a ficha. A fúria tomou conta. Descobriu que enquanto ele andava a passear nos sites de encontros, a sua “hipopótama caseira” vivia uma vida bem mais incendiária, repleta dos excessos que ele só sonhava.
Claro que houve escândalo: acusações para cá, gritos para lá, choradeira e horas a discutir o passado. Agora, os homens nos cafés vão logo gritar que deviam pôr essas mulheres no frio. Mas no frio não ficou ninguém. Gritaram, choraram, falaram e descobriram que afinal é mais fácil, mais prático, ficar juntos do que meter cada um na sua esquina.
Fábio, curioso, olhou para a Vera de outro modo. Não a viu mais como móvel, mas como mulher de verdade. Aquela que, vejam lá, tem fantasias e desejos. E que, entre nós, sabe ser desejada só não era por ele.
Olha, eu nunca recomendaria estes testes como receita para felicidade conjugal. Geralmente, acabam em divórcios, lágrimas e muita comichosa no sistema nervoso. Mas gosto desta história por uma razão simples: aquelas “mulheres frias”, no fundo, não são frias. São só cansadas. Da rotina, da indiferença, de ninguém olhar para elas como mulher há anos.
Às vezes basta um empurrãozinho e, pumba: afinal o hipopótamo doméstico é bem ardente, só está quente para quem sabe acender a chama.






