Gravação Caseira em Casa

Gravação caseira

O intercomunicador estava em cima da cómoda, mas não estava virado para o berço do meu filho. Em vez disso, apontava diretamente para a porta do quarto. Só reparei nisso quando da coluna que deixara no parapeito da cozinha, sibilando baixinho, irrompeu uma gargalhada de mulher estranha.

Fiquei uns segundos sem levantar sequer os olhos. O chá na chávena já arrefecera, o aroma da camomila era tão fraco que quase cheirava só a água, a chaleira deu um estalido e calou-se, e na casa reinava tal silêncio que qualquer som inesperado se cravava no ouvido. O meu filho dormia há uma hora. O Bernardo tinha-me mandado mensagem às oito e meia a avisar que ia demorar-se no escritório. A sexta-feira arrastava-se devagar, pegajosa como mel quente, e vivi o serão inteiro a pensar o mesmo: a casa parecia intacta, mas eu não sentia paz.

O sibilar aumentou.

Virei-me para o parapeito, aproximei-me, peguei com as duas mãos no intercomunicador. O plástico estava morno, o led verde piscava certinho. Da coluna chegou um suspiro abafado, um rumor, e depois aquela voz de homem. O Bernardo. Falava baixo, mas reconheci-o imediatamente. Fiquei imóvelporque ele não estava no quarto do nosso filho, nem no corredor, nem sequer ao pé da criança.

Estava longe. E não estava sozinho.

Reduzi o volume, como se isso pudesse alterar o que ouvira. Não resultou. Uma mulher disse qualquer coisa, em tom de gozo, as palavras vieram indistintas, mas a resposta do Bernardo foi nítida:

Espera. Ela deve estar agora na cozinha. Costuma beber chá a estas horas.

Passei o polegar pela tecla, falhei, tentei outra vez e só então o som baixou ainda mais, mas não se calou. Aquilo não era uma interferência, nem falha, era a vida de outras pessoas invadindo o meu serão, a minha casa, o meu ritual do chá enquanto o filho dormia.

Olhei devagar para o corredor. Da cozinha via-se a porta do quarto, e depois, por entre a fresta meio aberta, a penumbra do quarto do nosso filho. Fui até lá descalço, sentindo o frio do chão nos pés, e parei junto à cómoda.

De facto, a câmara estava virada.

Não para o berço, nem para a janela, nem para a poltrona onde muitas vezes sento o meu filho ao colo. Estava apontada para a porta. O Bernardo instalou aquele aparelho há doze dias. Assim ficamos mais descansados, agora que o miúdo já acorda de noite, disse. Se estiveres na cozinha ou na casa de banho, ouves logo. Na altura pareceu-me sensato. Agora mal conseguia engolir seco só de pensar nas vezes em que, em vez de ver o filho, ele podia estar a espiar-me.

Oiço de novo a voz dele, mais baixa.

Já disse, não agora.

Voltei para a cozinha, coloquei o intercomunicador no mesmo sítio e de repente lembrei-me do tablet velho. O familiar, o que estava no aparador entre o livro de receitas e o pacote de toalhitas. O Bernardo é que tratou da aplicação quando trouxe o aparelho. Assim temos ambos acesso, dizia, sempre com aquele ar de que fazia grandes favores à família. Na boca dele, família tinha de ser verdadeira. Na verdadeira família tudo era transparente. Na verdadeira família não podia haver segredos.

Peguei no tablet, liguei-o e sentei-me à mesa.

Aquela luz azul demorou a surgir. Os meus dedos estavam frios, e isso era estranho num março abafado, o radiador debaixo da janela largava calor seco, e a asa da chávena estava morna. O ecrã abriu-se, a aplicação piscou, e ali estava: arquivo.

Fiquei a olhar para aquela palavra durante uns segundos, como se nunca a tivesse visto. Depois carreguei.

Muitas gravações.

Não uma, nem duas. Seis dias seguidos. Trechos curtos, pedaços longos, sombras da noite, ecos do dia, sons, movimentos, o quarto vazio, eu a passar no corredortudo. Abri o primeiro ficheiro ao calhas. Lá estava eu de costas. Cardigã cinzento, cabelo apanhado à pressa, biberão na mão. Entrei, ajeitei o cobertor ao meu filho, curvei-me sobre ele, saí. Quarenta segundos. O vídeo seguinte era a cozinha, filmada pelas rachas da porta aberta. Vídeo cortado, interrompido, mas suficiente para perceber que a câmara estava ali para me ver.

Percorri mais abaixo.

Em todos os vídeos, era eu. Não o filho. Não o sono do menino. Sempre eu.

Carreguei numa gravação de quarta-feira, às nove e vinte e dois da noite. Do ecrã saiu a voz do Bernardo. Não aqui perto, mas ao longe, como quem fala noutro quarto.

Estás a ver? Eu disse-te. Ela a esta hora tem sempre chá e está ao telemóvel.

A mulher soltou uma risada.

Andas a espiar a tua mulher pelo intercomunicador?

Não sejas dramática. Só quero saber como ela anda.

O silêncio na cozinha era tão fundo que se ouvia quase o respirar do cobertor no quarto do filho. Fiz pausa. O polegar gelou. Sentei-me direito, duro, olhar parado no azulejo rachado junto à mesaaquela fissura foi por causa de uma panela que o Bernardo partiu, e queixou-se o serão inteiro de um dia que não correra bem.

Carreguei play outra vez.

Isso interessa-te assim tanto? perguntou a mulher.

Interessa-me o que se passa em casa.

Em tua casa, ou na cabeça dela?

O Bernardo deu um meio sorriso.

É a mesma coisa.

Desliguei o som.

Demorei um minuto a levantar-me. Não chorei, não agarrei a cabeça, não atirei com o tablet, embora parecesse que tudo à minha volta esperava por um gesto desses. Apenas levantei-me, fui até ao lava-loiça, abri a torneira e deixei a água correr pelas mãos. Observei as pingas rebentar no inox e pensei que, se não mantivesse as mãos ocupadas, talvez cravasse as unhas na borda da banca até ficarem brancas.

Quando o Bernardo chegou quase às onze, já eu tinha fechado o tablet na gaveta do aparador e lavado a chávena.

Não estás a dormir? perguntou ele do corredor.

Estava à tua espera.

Entrou na cozinha, alto, camisa azul-escura com as mangas arregaçadas, telemóvel na mão direita e sacos do supermercado na esquerda. Já com alguns cabelos brancos nas têmporas, o que até costumava achar ternurento, como se a idade o tornasse mais seguro. Mas agora só via o telefone. O mesmo por onde ouvia a minha casa e partilhava com outra mulher.

Trouxe iogurtes para ele, disse, pousando os sacos. E queijo fresco para ti. O teu acabou.

Falava normalíssimo. Talvez até demasiado normal. Essa era a pior parte. O homem que horas antes discutia com outra mulher sobre a hora exata a que a esposa tomava chá estava ali a tirar pão do saco.

Obrigado, disse eu.

Fitou-me com mais atenção.

Estás pálida. Dói-te a cabeça?

Não.

Então?

Enxuguei as mãos na toalha, dobrei-a, desdobrei de novo.

Só estou cansada.

Acenou com a cabeça. Sem desconfiar de nada. Ou então fingiu. Era-lhe fácil. Tinha o dom de explicar tudo quando apanhado, mas também de calar exatamente quando o silêncio lhe era mais útil. Lembrei-me de quando, há um ano, me convenceu a aderir a um cartão bancário para despesas de família. É melhor assim. Mais prático. Tudo se vê. Família de verdade, repisava ele. Nunca me passou pela cabeça que a tal transparência só servia se mostrasse a vida dos outros.

Nessa noite não dormi.

O bebé chorou baixo duas vezes, tossiu, e sempre que ameaçava precisar de mim, eu já estava de pé ao lado do berço. O Bernardo dormia tranquilo, respirando aquele assobio leve, braços largados, como quem não tem motivos para despertar a meio da noite. Fiquei a olhar a escuridão e, centímetro a centímetro, revia os últimos meses. As perguntas estranhas dele. As respostas certeiras. O hoje estiveste muito tempo ao telefone com a tua mãe, o não comeste nada ao almoço, ou o estás cansada, não?. Ninguém podia saber tanto sem ser avisado. Ou sem espiar.

Ao amanhecer percebi: não podia confrontá-lo de imediato.

Vivi anos ao lado de alguém que, ao menor problema, tentava sufocar tudo em palavras. Ia começar a explicar-se, a baralhar-me, transformar-me na esposa dramática. Já ouvia as frases dele na minha cabeça. Estás a ver mal. Isto não tem a ver contigo. A Lara é só uma colega. Fiquei preocupado com o miúdo. Tu agora vês tudo mais negro. Ele era ótimo nisso. Pegar num facto simples e dobrá-lo até que a culpa acabasse por ser da reação dos outros.

No sábado de manhã, foi gentil.

Demasiado. Levantou-se primeiro, trocou a fralda ao filho, fez papa, até lavou o prato do pequeno-almoço, coisa rara. Observei-o a brincar com o nosso filho na carpete, a atirar-lhe as meias para o ar, apanhava a colher que o miúdo deixava cair, e pensava como é fácil para um homem ser ao mesmo tempo pai dedicado e observador alheio na sua própria casa.

O que se passa? Estás tão calada disse ele, só nós os dois na cozinha.

Costumo ser barulhenta?

Às vezes és. Hoje não dizes nada.

Abri o frigorífico, tirei um iogurte para o menino, fechei.

Dormi mal.

Por causa dele?

Não. Só por isso.

Aproximou-se, pousou a mão no meu ombro. Antes, esse gesto acalmava-me. Agora, senti um arrepio a subir-me a espinha e fechei os dentes.

Vá, Leonor, tudo está bem, não está?

E foi aí que se tornou quase insuportável. Não pela mentira em si. Mas pelo ar de rotina. Como se a mentira tivesse lugar marcado no pequeno-almoço.

Nem me virei.

Claro.

Nem me olhas nos olhos.

Estou a olhar.

Não, não olhas.

Levantei os olhos por fim. O Bernardo sorria com aquele sorriso que antes interpretei como paciência. Agora, via outro significado. A certeza de que podia segurar uma conversa, não a deixar escapar.

Inventaste alguma coisa na tua cabeça? perguntou.

Não.

Ainda bem.

E saiu para o quarto do filho sem notar como os meus dedos se agarravam à madeira da mesa.

O dia arrastou-se. Vivemos como quem sabe que há um buraco por baixo do chão, mas tem de continuar a andar, a lavar loiça, a cuidar das meias do filho, a abrir janelas, fazer sopa. Cada objeto parecia ter ganho outro valor. O tablet já não era só um aparelho velho. O intercomunicador não era do bebé. O telefone do Bernardo já não era só um telefone.

Mais tarde, quando ele saiu para comprar fraldas, voltei ao arquivo.

A luz azul do ecrã tremia. Na cozinha cheirava a sopa deixada pela metade e pó húmido do parapeito. Passei os vídeos, não à procura de traiçãoembora fosse essa a primeira palavra que a vida atirava na caramas sim para perceber quando tudo se tornara estranho. Em que dia. Em que minuto.

A resposta veio numa gravação de quinta-feira.

Ali, o Bernardo falava com a Lara noutro tom, mais frio, quase sem fingimento.

Achas que ela desconfia? perguntou a Lara.

Por agora não.

E se começa a investigar?

Que investigue. Tenho tudo guardado.

Mesmo?

Mesmo.

Uns segundos de pausa. Mordi o maxilar.

Estás a exagerar, disse ela.

Estou a ser prevenido.

Também pensas no teu filho a longo prazo?

Claro.

Fiz pausa. Endireitei-me. O quarto do nosso filho estava silencioso, na rua bateram as portas de um carro, em cima riam adolescentes. O mundo continuava igual, e eu ali com um tablet que guardava outra versão da minha família. Uma em que o marido já preparava provas. Para quê? Para discutir? Para justificar-se? Para um futuro em que precisava provar que ela, a esposa, era cansada, calada, incapaz de dormir ou comer bem, a que passava demasiadas horas na cozinha?

Faltava-me o ar. Não sufocava, mas o ar parecia colar-se-me às costelas.

Deixei correr a gravação.

Tu ouves o que dizes? perguntou Lara.

Oiço, sim. É o certo.

Bernardo, isso já não é cuidado, é controlo.

Ele riu baixo.

Palavras fortes.

Apropriadas.

Fechei o ficheiro.

Aí estava. Até ali, talvez pudesse resumir tudo a um caso, a um erro, ao típico marido convencido que jamais será apanhado. Mas o raciocínio do controlo, metódico, antecipado, batia tudo ao lado. Não era fraqueza. Nem um deslize isolado. Era um plano.

À noite, Bernardo apareceu com o mesmo ar calmo. Trazia compras, sentou-se no chão com o menino, lia-lhe um livro de tratores, e entre uma página e outra perguntou:

Ligaste à tua mãe hoje?

Soou descuidado, quase automático. Mas senti nas costas.

Não.

Estranho. Costumas ligar ao sábado.

Esqueci-me.

Hmm.

Virou a página, o papel estalava-lhe entre os dedos. Pronto, mais uma vez. Aquela precisão, disfarçada de rotina, de quem aprendeu a contar os hábitos dos outros.

Ao jantar falou pouco. Eu ainda menos. O nosso filho quase adormecia, batia com a colher na mesa, deixava cair pão, e só ele é que vivia verdadeiramente o serão; sem duplos sentidos, sem sons roubados. Quando Bernardo o levou para lavar, fui rapidamente ao tablet e abri o ficheiro mais recente.

Tinha sido gravado há pouco.

De sábado para domingo. Provavelmente ele usara a app depois de eu já deitada. Nos primeiros segundos só vi o corredor. Depois, passos, murmúrios, barulho de automóvel, e a voz da Lara, mais próxima:

Continuas convencido de que isto não é exagero?

Convencido.

Mesmo que vá dar a separação?

Gelei. A palavra saiu normal, como quem fala do tempo.

Se chegar a isso, respondeu o Bernardo, pelo menos tenho provas de que o filho está melhor comigo.

A Lara calou-se.

Ele continuou sem hesitar:

Já viste como ela não dorme? Anda à flor da pele. Fica meia-noite na cozinha. Esquece de comer. Está tudo lá.

Bernardo

O que foi? Tenho de pensar no meu filho.

Fala aí como se já tivesses decidido tudo.

Não decidi nada. Só me preparo..

Não ouvi mais. Pousei o tablet, tapei a boca com a mão para não gritar, apesar de ninguém estar por perto. Estava ali o fundo real. Não era a conversa ao acaso, nem só uma ligação vulgar com outra mulher. Ele andava a colecionar a minha vida, pedaço a pedaço, mas não para entender; para conveniência futura. Para ter a sua versão. Para o dia de mostrar a pasta: Vejam, não vigiei em vão.

O relógio da parede fazia-se soar demasiado. Ou era imaginação minha.

Fiquei até ao nascer do dia. Não chorei, não vagueei pela casa, não mandei mensagens à minha mãe, apesar do impulso. Fiquei a olhar o ecrã escuro, a sentir, dentro de mim, qualquer coisa a alinhar-se direito. Não era leve. Não era quente. Era só direito. Como uma fila de frascos numa prateleira. Um facto. Depois outro. E assim até a verdade ganhar peso.

De manhã, o menino acordou cedo, como sempre. Queria tudo. A papa, a caneca, a bola, o sofá, a mãe, o pai. O Bernardo pegou-lhe ao colo e até se riu quando o miúdo lhe puxou o colarinho. Olhei para eles e ouvi outra voz do Bernardoseca, calculada. Pensar à frente.

Às dez da manhã o filho dormiu outra vez.

Aí percebi que não ia esperar mais.

A cozinha estava banhada numa luz clara. Duas chávenas em cima da mesa, uma delas intocada. O Bernardo a folhear notícias no telemóvel. Entrei, coloquei o intercomunicador na mesa e o tablet ao lado.

Ergueu os olhos.

Então isso?

Precisamos de falar.

Agora?

Agora.

No meu tom não havia nem pedido, nem ternura antiga. Ele sentiu. Largou o telefone com o ecrã para baixo.

O que aconteceu?

Sentei-me de frente. As minhas mãos encontraram a beirada do banco, agarrando com mais força do que qualquer palavra.

Só quero uma resposta, disse. Uma. Sem rodeios.

Ele riu, apesar de notar o desconforto na cara.

Vai, tenta.

Toquei no ecrã do tablet.

Porque é que a câmara estava virada para mim e não para o nosso filho?

Não respondeu logo. E esse silêncio foi a sua primeira resposta verdadeira. Nem protestos, nem surpresa fingida, nem contra-ataque. Pausa. Curta, mas demasiado pesada.

Do que estás a falar? disse por fim.

Carreguei play.

Do altifalante saiu aquele murmúrio, um sibilo, a risada de outra mulher. Depois a voz dele, calma, segura, como se não fosse o homem sentado à minha frente.

Só quero saber como ela vive.

O Bernardo estremeceu tanto que o banco chiou. Levantou a mão para o tablet, mas fui mais rápido e coloquei a minha em cima.

Não toques.

Afastou-se.

Onde arranjaste isso?

No arquivo. No mesmo que tu configuraste.

A expressão mudou devagar. Num instante estava a armar-se em normalidade. Mas a gravação seguia. A Lara falava de investigar. Ele de ter tudo guardado. Ela de controlo. Ele achava exagero. Cada palavra arrancava-lhe outra fatia de poder naquela cozinha.

Desliga, disse ele.

Não.

Leonor, pára com isso.

Não.

Passou as mãos pelo rosto. Levantou-se. Sentou-se de novo.

Não percebes o contexto.

Então explica. Breve.

Preocupava-me com o miúdo.

Fui para a frase em que defendia mãos mais estáveis.

Quando acabou de ouvir, fechou os olhos.

Por um instante breve. Mas eu vi.

Outra vez, pedi. Só uma. Porque é que me espiavas?

Não espiava.

E isto?

Só controlava a situação em casa.

Com outra mulher?

Uma contração de maxilar.

A Lara não tem nada a ver.

Não digas isso. Tem.

Estás a misturar tudo.

Não. Eu separei. O caso com a Lara é uma coisa. A câmara, outra. As conversas sobre o menino, outra. E em todas tu mentes.

Bernardo, de pé de novo, foi para a janela, não abriu. No vidro via-se o seu reflexo, ficava mais vazio.

Estás tão nervosa que já

Diz.

Virou-se.

Que não dá para falar contigo.

Com ela era fácil?

O que é que isso interessa?

Interessa porque partilhaste comigo com ela. O meu chá, o meu sono, as chamadas, o cansaço. O nosso filho, que já andavas a preparar para alguém decidir.

É meu filho também.

Então porque usaste a câmara para me controlar e não para ajudar?

Aí sim, perdeu-se de vez. Não com o nome da Lara, mas com o termo material. Porque era preciso. Exato. Sem gritos, sem floreios, sem esconder atrás de preocupação.

Nem imaginas o que custa segurar tudo sozinho, balbuciou.

Olhei firme.

Sozinho?

Desviou o rosto.

Trabalho, sustento, chego a casa e tu já não aguentas.

E a solução foi montar-me uma câmara?

Não faças drama.

Ainda?

Queria compreender.

Quiseste comandar tudo.

Riu-se, nervoso.

Foste falar com a tua mãe, foi ela que te meteu isto na cabeça?

Abanei a cabeça, devagar.

Ninguém. Foste só tu. Porque gravaste tudo.

Silêncio. O som do filho a mover-se no quarto acentuou tudo. Casa na mesma. O chá arrefecia. E, no fundo disto, decidiu-se algo impensável uns dias antes.

Vais sair hoje. disse.

O quê?

Hoje.

Ficou doida?

Não.

Esta casa é minha também.

Pois. Mas hoje sais tu.

Com base em quê?

Em que não fico mais aqui com alguém que ouvia a minha vida em gravação e discutia com a Lara se o nosso filho ficava melhor nas tuas mãos.

Bateu com a mão na mesa. Baixo, mas a chávena tremeu.

Pára de dizer disparates.

Nem pisquei.

Já disseste tudo. Não tenho mais nada a somar.

Vais fazer o quê? Correr para tua mãe?

Vou desligar a câmara. Tu arrumas as tuas coisas.

Não tens o direito.

Já tomei a decisão.

Ficou a olhar. Muito tempo. E nesse silêncio percebi: não era fúria, nem dor, nem remorso. Era só aborrecimento de quem planeava outro desfecho. Essa foi a última gota.

Bernardo desviou o olhar.

Está bem, atirou. Arrefece, logo falamos.

Não. Agora.

Não saio sem o meu filho.

Vais sozinho.

Não me dês ordens.

Arruma as tuas coisas, Bernardo.

Ia responder, mas soou do quarto a voz sonolenta do pequeno. Levantei-me logo. Ele também, mas ergui a mão e ele parou.

Não vale a pena. Eu vou.

Entrei no quarto, peguei no filho, abracei-o, inspirei o cheiro do creme infantil, da pele morna, do sono. O menino encostou-se ao meu pescoço, e bastou-me aquilo para não me desfazer. Fiquei de pé ao lado do berço, embalei-o quieto, e olhei para o intercomunicador ainda com a luz verde na mesa da cozinha. Quantas vezes ele me vira assim? Quantas vezes ouvira este barulho caseiro, que devia ser só nosso?

Perto do meio-dia, Bernardo arrumou uma mala.

Não levou a vida todanão teve coragem. Umas camisas, carregador, lâmina de barbear, documentos. Antes de sair, tentou ocupar o espaço com palavras.

Vais destruir a família por uma conversa.

Olhei para ele sem responder.

Por uma conversa, repetiu, como se o eco desse força. Nem tentas perceber.

Percebi tudo o que precisava.

Não tudo.

Basta.

E o que vais dizer aos outros?

A verdade.

Sorriso de canto.

Que o marido pôs um intercomunicador?

Sim.

E depois?

Que a câmara não vigiava o filho.

Apertou a alça do saco.

Um dia vais arrepender-te desta atitude.

Pode ser. Mas não do que ouvi.

Caiu no silêncio.

A porta fechou-se sem estardalhaço, sem final de novela. Só o barulho do trinco, o elevador a fechar; alguém tossiu nas escadas e, de súbito, a casa voltou a parecer casa. Só que tudo estava de outro modo. Como mobília após mudança. As mesmas paredes, as mesmas chávenas, a mesma mesa. Mas já não era igual.

Naquele dia, pouco fiz.

Alimentei o meu filho, troquei-lhe as meias, separei umas roupas para levar, telefonei à minha mãe e disse: O Bernardo vai ficar noutra casa uns tempos. Ela calou-se ao inspirar, depois perguntou se íamos jantar. Disse que sim, talvez mais tarde. Não expliquei mais. Não tinha forças. Primeiro vem o silêncio, em que só precisamos ir de um lado da casa ao outro sem esquecer o fervedor ao lume.

Ao fim do dia entrei novamente no quarto do meu filho.

Tudo estava como antes. O bodys azul com foguetes secava estendido. Na cadeira o cobertor cinzento. Em cima da cómoda, a câmara. Caixa preta, objetiva minúscula, led verde. Aproximei-me, observei-a tempo sem fim, como se não fosse plástico, mas um resto de olhar estranho, que ainda não se fora.

Peguei nela.

As mãos já não tremiam. Isso surpreendeu-me mais do que tudo. Dois dias de frio por dentro, insónias, trabalho mudo a digerir a realidade, e os dedos estavam só cansados de tremer. Virei a câmara, encontrei o fio, desliguei da tomada.

A luz verde apagou-se.

E no quarto só ficou o silêncio. Daquele que só existe onde já ninguém escuta ninguém.

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