Fui buscar a minha filha de cinco anos ao jardim de infância quando ela perguntou: “Pai, por que é q…

Fui buscar a minha filha de cinco anos ao infantário quando, de repente, ela saiu-se com esta: “Pai, porque é que o novo pai não me veio buscar hoje como costuma?” Juro-te, fiquei sem chão.

Sempre achei que conhecia a Marta. Dez anos de casamento, uma filha linda, uma vida que fomos construindo do zero. E de repente, no meio de uma tarde banal, a minha filha fala de alguém que chama de “novo pai” e eu, a olhar para a minha mulher, dei por mim a pensar há quanto tempo andava a ser enganado.

Conheci a Marta há dez anos numa festa de aniversário dum amigo. Nunca me esqueço do momento em que a vi, encostada à janela, um copo de vinho na mão, a rir-se de uma piada qualquer ali soube logo que a minha vida ia mudar.

Ela tinha uma energia… sabes aquele tipo de mulher confiante, aquela presença que enche um quarto sem esforço? E eu, um informático um bocadinho desengonçado, quase que gaguejava quando falava. Mas, não sei como, ela reparou em mim.

Falámos nessa noite horas a fio sobre música, sobre viagens, sobre disparates da infância. Apaixonei-me, assim, intensamente e sem medo, pela primeira vez. E senti-me realmente visto. Casámos passado um ano, numa cerimónia pequena junto à barragem do Alqueva achava mesmo que tinha ganho o Euromilhões.

Quando a Leonor nasceu, há cinco anos, tudo mudou. Passámos a viver em função daquela pequenina, dependente de nós para tudo. E nunca me senti tão assustado, nem tão completo.

Lembro-me da Marta a sussurrar promessas à Leonor no colo, do cansaço das noites sem dormir, das trocas de turnos para a embalar. Éramos uma equipa, cansados mas felizes.

Ela voltou ao trabalho passado meio ano é diretora de marketing numa empresa no centro de Lisboa uma daquelas pessoas que não se atrapalha com nada: prazos, apresentações, desafios impossíveis… eu apoiava-a completamente.

O meu trabalho era daqueles horários meio estranhos, acabávamos sempre por ir buscar e deixar a Leonor a diferentes horas, mas tínhamos uma rotina. Era quase sempre a Marta a ir buscá-la, jantávamos todos juntos, davam-se banhos, histórias aquela normalidade boa.

Discutíamos como qualquer casal. Coisas pequeninas: quem esqueceu de comprar o leite, se já devíamos trocar o carro, porque é que os pratos estão sempre na pia… Mas nunca nada que me fizesse duvidar que éramos sólidos.

E depois, aconteceu isto.

Numa quinta-feira, estou no escritório quando a Marta liga:

“Amor, consegues fazer-me um grande favor? Não vou conseguir buscar a Leonor hoje, tenho uma reunião com a administração, é impossível faltar. Podes ir buscá-la tu?”

Olhei para o relógio: 15h15. Se saísse logo, dava na boa.

“Está feito, amor. Vai correr tudo bem!”

“Obrigada, a sério. Salvaste-me.”

Lá fui, inventei uma desculpa ao chefe e dirigi-me direto ao infantário. Ao entrar, vi aquele sorriso da Leonor, tão aberto, tão luminoso tinha saudades daqueles momentos.

“Paaaaiii!” Ela correu para mim com os ténis a chiar no chão.

Baixei-me e apertei-a com força. “Pronta para irmos para casa, meu amor?”

“Sim!”

Ajudei-a a vestir o casaquinho cor-de-rosa, aquele com ursos nas mangas, e ela começou a contar coisas da amiga Maria. Eu só sorria, a absorver tudo.

Mas, de repente, faz-me a pergunta: “Pai, porque é que o novo pai não me foi buscar hoje como costuma?”

Fiquei ali, parado com o fecho da mala na mão.

“Como assim, Leonor? Que novo pai?”

Ela olha para mim como se eu fosse o maior tanso à face da Terra.

“O novo pai, ora. Ele costuma ir buscar-me ao jardim, depois leva-me ao escritório da mãe e vamos juntos para casa. Às vezes vamos passear, já fomos ao Jardim Zoológico ver os elefantes! Vai lá quando tu não estás. Ele é muito querido, às vezes traz-me bolachas.”

A minha cabeça parecia um tambor de tanto que o coração batia. Forcei um sorriso e tentei manter a calma.

“Pois, olha, hoje o novo pai não pôde vir e vim eu. Não ficaste contente por eu vir?”

“Óbvio!” ri-se “Mas não gosto de o chamar pai, sabes? Ele pede, mas eu acho estranho. Por isso chamo-lhe ‘novo pai’.”

Engoli em seco. “Está bem, meu amor…”

O caminho até casa foi um reboliço de histórias sobre a educadora, a Carolina que a empurrou no parque mas depois se desculpou, sobre o desenho duma girafa cheio de cores. Eu ia só fazendo “ah, pois, que giro, que fixe!” mas não estava ali. O meu cérebro só pensava: “quem diabo é este novo pai?”

Desde quando é que a Marta a leva para o trabalho? Nunca me falou disso. Nunca!

À noite, fiz-lhe o jantar favorito: douradinhos com esparguete. Ajudámos a montar puzzles. Mas a minha cabeça era um vendaval.

Na cama, deitei-me ao lado da Marta; ela a dormir pacífica e eu a olhar para o teto, com vontade de a acordar e perguntar tudo. Faltou-me a coragem. Talvez o medo da resposta. Ou aquela necessidade teimosa de ter certezas antes de acusar alguém.

Mal dormi.

No dia seguinte, decidi ficar em casa, disse ao chefe que estava mal disposto do estômago. Pelas 12h fui para junto do infantário, desta vez estacionei do outro lado da rua, só a vigiar. A Marta, teoricamente, iria buscar a Leonor às três.

Quando os miúdos começaram a sair, não foi a Marta que apareceu.

Agarrei-me ao volante.

O quê? Não pode ser…

A pessoa que pegou na mão da minha filha… era o João, o assistente da Marta.

Mais novo, uns cinco a sete anos mais novo, dos tempos recentes da faculdade. Sempre com a camisa bem passada, sorriso largo nas fotos que a Marta por vezes me mostrava, mas nunca me tinha dito grande coisa sobre ele.

E agora, nisto.

Saquei do telemóvel e comecei a tirar fotos as mãos a tremer. Tive vontade de saltar do carro e agarrar-lhe no braço, mas aguentei-me. Precisava de provas, precisava de saber antes de fazer um disparate do qual me pudesse arrepender.

Entraram para o Clio prata dele. Segui-os a uma distância segura, coração ao rubro. Tentava convencer-me que podia haver uma explicação razoável, mas a verdade é que já não acreditava.

Foram diretos ao edifício de escritórios da Marta, na zona das Amoreiras. Estacionaram lá em baixo, entraram de mão dada.

Esperei alguns minutos, depois não consegui mais.

Entrei na recepção do edifício. Já estava quase tudo vazio; final de dia, só meia dúzia de funcionários e a senhora da limpeza. E lá estava a Leonor, sentada, abraçada ao seu ursinho de peluche.

Viu-me e sorriu, “Papá!”

Aproximei-me, tentei mostrar calma. “Filha, onde está a mãe? E o senhor que te foi buscar?”

Apontou para uma porta no fundo do corredor. “Estão ali. Disseram-me para esperar sossegadinha.”

Beijei-a na testa. “Fica aqui, já volto. Não saias daqui, está bem?”

“Está bem, papá.”

Fui até à porta, com as pernas a pesar toneladas. Parte de mim queria fugir, levar a Leonor para casa, fingir que nada tinha acontecido.

Respirei fundo, empurrei a porta. Entrei devagar e fechei com cuidado.

A Marta e o João estavam a beijar-se.

Durante um segundo ninguém se mexeu. Olharam para mim como dois veados apanhados nos faróis. Depois, aperto os punhos, a voz mais fria que alguma vez me ouviu sair da boca.

“O que pensas que estás a fazer com a minha mulher? E com que direito achas que tens para dizer à Leonor que te chame pai?”

O João baixou o olhar, não disse uma palavra.

A Marta ficou branca como a cal.

“João… o que é que lhe disseste?”

Virei-me para ela, incrédulo.

“Não finjas que não sabes. Tens-no a ir buscar a Leonor, deixas ele andar com ela… levou-a ao zoo, leva-a a casa. E ainda me vens dizer que estão só a trabalhar?”

“Rui, por favor…” começa ela a chorar. “Eu não sabia que ele lhe pedia para lhe chamar pai. Juro-te!”

“Não te atires para o chão. Não me insultes ainda mais. Tens um caso com o teu assistente e estavas a envolver a nossa filha ao barulho. A sério?”

Ela lançou aquelas frases feitas: “Perdi-me um bocado”, “foi um erro”, “tu estás sempre ausente”, “sinto-me sozinha” eu já nem ouvia. O João parecia um extra a assistir à novela.

Olhei-lhe nos olhos. “Sabes o que mais me dói? Teres envolvido a Leonor nisto tudo. Como é que um adulto usa uma criança de cinco anos para cobrir uma traição?”

A Marta tentou tocar-me no braço. “Rui, por favor, nós conseguimos ultrapassar isto…”

Afastei-me. “Não conseguimos. Acabou. Acabou mesmo.”

“Não digas isso…”

“Estou mais sério do que alguma vez estive na vida.”

Saí, fechei a porta, fui buscar a Leonor. Perguntou porque é que eu tinha a cara triste disse-lhe que íamos ter uma noite de pai e filha, só nós.

Senti-me arrasado. No dia seguinte, fui direto a um advogado. Pedi o divórcio e a guarda total da Leonor. Os meses seguintes foram um pesadelo. As câmaras do prédio das Amoreiras e do próprio infantário confirmaram tudo o João ia buscar a Leonor, conhecia os detalhes todos, ninguém desconfiava. No escritório captaram-nos juntos vezes sem conta.

O tribunal deu-me razão. A Marta perdeu a guarda principal, só pode ver a Leonor em visitas supervisionadas, fins-de-semana alternados.

Quando o escândalo se espalhou pela empresa (sabemos que nestas coisas o boato anda mais depressa que o comboio Alfa), tanto ela como o João foram despedidos. Havia uma cláusula sobre relações entre superiores e subordinados. Não pedi nada disso, mas também não perco o sono por terem tido consequências.

Traição tem preço. Chorei muitas noites, depois de deitar a Leonor, sozinho. Gostava mesmo da Marta, via o meu futuro com ela. Mas despediu-se de tudo de mim, da filha, por um tipo qualquer que achou que podia fazer de conta que era o pai da minha criança.

Agora foco-me só na Leonor. Quero que cresça forte, gentil, que nunca duvide de que é amada profundamente.

A Marta, às vezes, ainda vê a Leonor na escola, em festas de anos, nas visitas supervisionadas. Passa dificuldades financeiras desde que ficou sem emprego. Já me pediu perdão, envia mensagens imensas a altas horas.

Não consigo perdoar. Pelo menos, ainda não. Talvez nunca.

Pela Leonor, às vezes sentamo-nos todos à mesa quando há visitas. Conversamos cortêsmente, fingimos, por momentos, que continuamos uma família. Ela merece sentir-se amada pelos dois pais, mesmo não sendo perfeita a nossa história. Mesmo que tudo tenha corrido mal.

Não faço ideia do que vem aí. Não sei se algum dia vou conseguir confiar noutra pessoa, voltar a apaixonar-me. Só de pensar nisso, sinto-me exausto.

Mas uma coisa sei: vou proteger a Leonor com tudo o que tenho. Nunca vai duvidar do seu valor, nunca!

E se estás a ouvir isto e achas que nunca te podia acontecer? Que o teu casamento é à prova de bala? Olha que não há garantias de nada. Presta atenção aos sinais, pergunta, confia no teu instinto. Porque às vezes, as pessoas em quem mais confiamos são as que escondem os maiores segredos.

O que farias tu se o teu filho te falasse de alguém completamente desconhecido? Ignoravas como imaginação de criança, ou vasculhavas um bocadinho mais? Seguias o coração ou convencias-te que era paranoia?

Ainda bem que ouvi o meu. Salvei a minha filha de crescer numa mentira.

E isso, nunca vou lamentar.

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