Tudo acabou entre nós, Ana! Eu quero uma verdadeira família, filhos. Tu não podes dar-me isso. Esperei e aguentei durante muito tempo

Pronto, Leonor, entre nós acabou tudo! Eu quero uma família de verdade, filhos. Tu não és capaz de me dar isso. Esperei muito tempo, fui paciente. Preciso de um filho. Já avancei com o processo de divórcio! Tens três dias para arrumares as tuas coisas. Quando fores embora, liga-me. Por agora vou ficar em casa da minha mãe. Despacha-te, preciso preparar o apartamento para a criança e para a mãe dela. Ah! Não te surpreendas, a minha futura esposa está grávida! Três dias, só tens três dias!

Fiquei calada. O que é que eu podia responder? Nunca consegui engravidar. O Miguel já esperou cinco anos cinco longos anos Neste tempo, foram três tentativas dolorosas que acabaram mal.

Passei por tantos médicos e todos me disseram que estava saudável. Então, porque é que nunca resultava?

Sempre tive uma vida regrada, preocupava-me com tudo. Mas, desta vez, desmaiei no trabalho, chamaram logo uma ambulância mas tudo aconteceu demasiado depressa.

A porta bateu forte depois de Miguel sair. Eu sentei-me esgotada no sofá. Não tinha nem vontade, nem forças para arrumar coisa alguma. E afinal, para onde é que eu havia de ir com malas atrás?

Antes do casamento, enquanto estudava, vivi com a minha tia. Entretanto ela já cá não estava, e o filho tinha vendido o apartamento. Regressar à casa velha da avó numa aldeia? Arrendar um apartamento? E o trabalho, como ficava?

As perguntas eram muitas e urgentes

De manhã cedo, a porta abriu e entrou a minha sogra.

Ainda acordada? Pois fazes bem. Vim verificar que não levas nada que não seja teu.

Olhe que não faço questão de levar as cuecas velhas do seu filho. Quer que faça uma lista das minhas?

Atrevida! E pensar que parecias tão educada, tão recatada Bem dizia eu ao Miguel, já no primeiro aborto, que não eras mulher para dar-lhe um filho.

Só veio dizer-me isso? Era melhor estar calada.

E o serviço de chá, para onde vai?

É meu. Ficou da minha tia, é recordação dela.

Pois agora vai ficar vazio.

Se assim é, pelo menos vão ganhar um neto.

Leva só o que é teu!

O portátil é meu! Máquina de café, micro-ondas também, foram prendas dos meus colegas de trabalho. O meu carro, comprei antes do casamento. O seu filho tem o dele.

Tens tudo, menos capacidade para ter filhos!

Não é da sua conta. Comigo está tudo bem, talvez Deus quisesse assim.

Vejo que nem pena tens disto tudo! Não fizeste de propósito para acabar assim?

Está a dizer disparates. Até custa pensar nisso.

Olhei à volta. Já não me restava praticamente nada uma escova, uns sapatos, uns cremes

Senti que faltava algo importante. A sogra nem me deixava raciocinar. Lembrei-me a minha velha gata de porcelana. Tinha lá dentro um segredo: um par de brincos e um anel. Não tinham valor material, mas eram a única lembrança da minha avó. O Miguel dizia sempre que era tralha. Será que deitou fora? Ele enfiava tudo no balcão. Fui ver.

O que vais lá fazer agora? Já arrumaste, sai! ouvi a voz dela. Queres despedir-te da casa? Despede-te, porque coisa assim não vais ter mais.

Encontrei finalmente a gata intacta. Agora, podia ir embora.

Aqui ficam as chaves. Adeus. Espero não a voltar a ver.

Passei pelo escritório. Ainda estava de baixa médica mas pedi para transformar em férias.

Temos muita pena, Leonor, mas como é que vamos fazer sem ti? Três semanas chegam? Só te peço para ficares contactável. Metade dos projetos depende de ti.

Está bem. Assim também me distraio. Obrigada.

Precisas de ajuda?

Não, obrigada.

Vou tratar do extra nas férias e do prémio de desempenho.

Muito obrigada, vai dar muito jeito agora.

Nem pensei em procurar casa. Peguei no carro e fui para a aldeia. Ninguém me esperava lá, a avó já tinha partido fazia três anos e à minha mãe nunca conheci. Faleceu comigo no parto.

E agora eu própria não conseguia engravidar.

Uma hora de caminho e estava junto à casa. A macieira e as tulipas Da última vez que ali estive com o Miguel, foi no outono fizemos churrasco no quintal, foi um ótimo dia.

Entrei com o carro no pátio, a chave do anexo estava dentro de casa. Abri a porta e entrei. Silêncio. Só restavam chávenas e pratos sujos em cima da mesa. Porque não limpei tudo da última vez?

Espera eu limpei! Mas alguém tinha estado ali depois

Duas canecas, pratos, embalagens de sumo, garrafas de espumante favorito do Miguel, e isso não era do outono.

Ou seja, Miguel esteve aqui mas com quem?

Agora, já não importa

A única cópia da chave era minha, mas ele provavelmente fez uma cópia. Hora de trocar as fechaduras.

Nova vida! Primeiro arrumar, depois um banho bem quente.

Quis mesmo lavar tudo de mim o passado, os desgostos.

Quando estava quase a sair do banho, bateram à porta e logo a seguir na janela.

Quem está aí?!

Está tudo bem consigo?

Sim respondi, sem reconhecer a voz.

Peço desculpa.

Abri a porta. Um homem desconhecido estava ali.

Desculpe, talvez a tenha assustado. Sou seu vizinho temporário, tenho estado aqui estes dias. Vi que o fumo saía da lareira, depois desapareceu, e pensei que algo se tivesse passado

Obrigada, está tudo bem.

É família do Miguel? Ele esteve cá há pouco com a esposa És irmã?

Não, sou a ex-mulher. Ou quase ex, está tudo a decorrer.

A casa é tua?

É.

Eu só cá estou por uns tempos, um amigo emprestou. Em processo de divórcio também, amanhã mesmo fico livre. Bom, se está tudo bem vou andando. Se precisares de alguma coisa, chama-me. Sou o Igor.

Leonor. Espere pode ajudar-me a mudar o canhão da porta?

Claro. Diga quando, eu trato disso.

Quanto antes. Amanhã compro um.

Se quiser, eu vou ver e trago logo o certo. Assim não corre riscos de comprar o errado.

Agradeço muito.

Passaram duas semanas. Faltava uma para terminar as férias, e já estava na hora de voltar à cidade. Começava a habituar-me ali, não tinha vontade de procurar outro sítio. Miguel não ligou nem escreveu apenas chegou a notificação com a data do divórcio. Honestamente, foi melhor assim. Não o queria ver.

Era sábado. Costumava levantar-me cedo. Nesse dia, o Igor convidou-me a dar um passeio até ao lago.

Não queria grandes laços, mas um passeio nunca compromete ninguém. Correu tudo leve, conversámos, voltámos para almoçar. Quando chegámos a casa, um carro estava parado à porta o do Miguel. Devia ter chegado mesmo então. Saiu do carro, abriu a porta do lado e ajudou uma mulher grávida a sair.

Eu e o Igor já estávamos junto ao portão. O Miguel tentou abrir a porta de casa, mas nada feito.

O que se passa aqui?

Pois, então e isto? Invadir casa alheia?

O Miguel ficou sem reação.

Esta é nossa casa! declarou a mulher grávida.

É? Quem disse, foi o Manel? Esta casa é minha, podem sair já.

Manel, o que ela está a dizer?! É tua ex?! Expulsa-a! gritava a grávida.

Eu e Igor rimo-nos. O Miguel, calado, levou a mulher para o carro e foram-se embora.

Vai ter uma bela vida…

Pelo menos ela vai dar-lhe um filho. Eu não consegui. Três tentativas falhadas. Desculpa.

O meu casamento acabou porque a minha ex não quis sequer tentar ter filhos

Quatro anos passaram desde o divórcio. Um dia, encontrei por acaso a antiga sogra num supermercado.

Leonor, nem te reconhecia. Andei a olhar e a duvidar: és mesmo tu? Estás grávida?

Sim respondi, acariciando a barriga já bem visível.

O Manel está mal. O neto nasceu muito fraco, afinal parece que o problema era do lado dele. A mulher fugiu, deixou-nos a criança. E tu, estás sozinha? Vais ter filho sem ninguém?

Não, não estou sozinha. Tenho uma família. Agora tenho de ir, estão à minha espera.

É assim perdoa-me por tudo.

Que tenha paciência

Fiquei a ouvi-la a olhar para mim de longe, enquanto avançava ao lado do Igor que me dava apoio e de mão dada ia uma menina igualzinha à mãe, dizem todos

Se quiserem, deixem gosto ou comentem. O que acham disto tudo?

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