Não é não
Numa segunda-feira, o escritório de uma grande empresa em Lisboa enchia-se da já habitual azáfama matinal. Os funcionários chegavam apressados, ocupando os seus lugares e trocando cumprimentos sorridentes nos corredores. Ouvia-se falar de idas ao cinema no Colombo, piqueniques em Sintra, encontros com amigos nas esplanadas do Chiado ou apenas as clássicas frases cordiais enquanto todos seguiam para as suas secretárias.
Margarida ocupava o seu lugar num gabinete espaçoso, que partilhava com mais três colegas. Era uma mulher de estatura média, cabelo castanho claro cortado curto, enquadrando delicadamente o rosto. Os seus olhos castanhos, atentos, estavam absorvidos nos papéis que alinhava cuidadosamente em cima da mesa.
Enquanto organizava a documentação, aproximou-se do seu posto o Duarte gestor de um departamento vizinho. Encostou-se ao canto da mesa, sorrindo com confiança:
Bom dia, Margarida! O fim de semana foi bom?
Margarida levantou os olhos, devolvendo um sorriso educado. Sempre procurou manter relações cordiais com todos achava essencial num ambiente de trabalho harmonioso.
Correu bem, obrigada. Aproveitei para tratar de coisas em casa, respondeu com serenidade, inclinando levemente a cabeça. E tu?
Ah, foi espetacular! O entusiasmo de Duarte era evidente, brilhou-lhe o olhar malicioso. Fomos com uns amigos até à Arrábida, fizemos grelhados, tocámos guitarra na praia devias vir connosco um dia! Agora que estás solteira, certo? Disseste que te divorciaste há pouco.
Margarida hesitou por frações de segundo não gostava quando tocavam na sua vida pessoal no trabalho, mas, respiração funda, respondeu educada:
Sim, estou divorciada. Obrigada, mas para já não tenciono fazer nada desse género, sobretudo com um grupo que não conheço.
Ora essa, não planeias porquê? Depois de uma separação é a melhor altura para novas experiências! insistiu ele, sorrindo de modo mais persistente. E que tal um jantar, só nós os dois? Sexta-feira?
Com gestos meticulosos, Margarida alinhou os papéis. Voltou-se para Duarte, firme mas tranquila:
Duarte, agradeço, mas não estou à procura de relações. Preferia que nos concentrássemos apenas no trabalho.
Ele riu, encolhendo os ombros, minimizando as palavras dela.
Oh, não sejas assim És bonita, eu também, por que não experimentar?
Margarida conteve o aborrecimento crescente. Não tinha paciência para discussões e muito menos queria criar um ambiente pesado. Fitou-o diretamente, sem sorrir:
Estou a falar a sério, Duarte. Não me interessa. Vamos ficar só por questões profissionais, está bem?
Está bem, pronto… pensa no assunto. Estou só a tentar ser simpático, disse por fim, afastando-se, não sem antes lançar mais um olhar para Margarida.
As semanas seguintes não trouxeram melhorias. Duarte ignorava recusas discretas e claras. Arranjava constantemente desculpas para abordar Margarida: inventava tarefas urgentes, oferecia ajuda em relatórios que ela nunca solicitara, ou interrompia apenas com conversas sobre o seu estado de espírito, como se verdadeiramente se preocupasse.
Sempre que se aproximava, a conversa desviava-se inexoravelmente para o mesmo tema: um convite insistente, dito com tom de brincadeira, mas um brilho obstinado nos olhos. Como se não percebesse, ou não quisesse perceber, que o não de Margarida era definitivo.
Ela mantinha-se serena, respondendo sempre educadamente, mas de forma sólida e inequívoca. Cada vez mais cansava-a aquele jogo, aquela incapacidade de Duarte compreender limites bem definidos.
Numa dessas noites ficou sozinha no escritório para terminar um projeto urgente. A maioria já tinha ido para casa. A única luz acesa vinha da mesa dela, rodeada por dossiês e o portátil ainda aberto. Passava das oito. O silêncio reinava quando ouviu a porta abrir-se Duarte, chaves do carro na mão, o mesmo sorriso de sempre.
Ainda aqui? sentou-se informalmente na beira da mesa, descontraído. O trabalho não foge… E que tal relaxarmos um pouco? Conheço um café aqui perto com música ao vivo hoje.
Margarida fechou o computador devagar e enfrentou-o com calma, mas firmeza:
Duarte, já te disse várias vezes que não quero. Peço que respeites os meus limites.
Desta vez, a expressão dele mudou: o sorriso desapareceu, as sobrancelhas franziram-se, e a voz ganhou outro tom.
Mas afinal o que há contigo? Estás sozinha! Qualquer uma no teu lugar agradeceria… Só estou a propor um jantar, não um casamento! Ou achas que não sou suficientemente bom para ti?
Margarida respirou fundo, medindo palavras, mantendo a compostura:
Não tem a ver contigo. Simplesmente não quero sair com ninguém neste momento. Já fui clara.
Ele ergueu-se bruscamente, corado e de punhos cerrados.
Pois, olha que depois não estranhes que fiques sozinha. Mulheres como tu são sempre assim depois arrependem-se!
Virou costas e desapareceu atrás da porta, batendo-a com força. Margarida ficou sozinha a olhar o vazio. Sentiu-se aliviada por o confronto ter acabado, mas incomodada por precisar de se justificar tanto.
No dia seguinte, no escritório, tudo parecia normal. Duarte, como se nada tivesse acontecido, aparecia frequentemente perto da secretária de Margarida, tentava meter conversa com comentários banais ou pedir opinião sobre fichas de excel sem assunto relevante.
Margarida respondia de forma curta, objectiva. Recusava piadinhas, ignorava qualquer tentativa de desviar para o terreno pessoal, limitando-se ao profissionalismo.
Numa quinta-feira de manhã, Margarida foi à copa tirar café. Era cedo, poucos colegas estavam já no escritório. Duarte estava junto da máquina, mexia o açúcar na chávena e, ao ver Margarida, virou-se logo:
Olá novamente tentou ele, mas a voz denunciava tensão. Olha, pensei melhor… Se calhar estás a perceber mal. Só queria conversar, mais nada…
Margarida serviu café fingindo distração, os gestos metódicos. Só depois respondeu:
Duarte, já disse tudo o que tinha a dizer. Não voltemos ao assunto.
Mas porquê?! Só te proponho um café, uma conversa! Tens medo de quê? exclamou ele, agitando a mão, entornando café na bancada sem reparar.
Margarida pousou a chávena calmamente, enfrentou-o nos olhos e falou baixo, mas com toda a clareza:
Não tenho medo de nada. Só não quero. E não admito que continues a insistir depois de eu recusar. Isso é reprovável.
Deixou-o plantado na copa, incrédulo, a olhar para o café derramado.
Em casa, nessa noite, Margarida não conseguia tirar o episódio da cabeça. Pensou em como poderia ter sido mais branda, mas sabia ter sido clara e digna. Pegou no telefone e abriu o gravador: lá estava a gravação de uma das conversas insistentes de Duarte uma precaução tomada depois do desconforto acumulado. Pensou durante alguns minutos e, por fim, abriu o Facebook da esposa de Duarte para lhe enviar mensagem:
Boa tarde. Desculpe incomodar. Acho importante saber como o seu marido se comporta no escritório. Em anexo encontra a gravação.
Leu e releu, certificando-se que era factual e sem dramatismos, anexou o ficheiro e enviou.
No dia seguinte, assim que se sentou ao computador, Duarte apareceu exaltado:
Tu és doida?! Mandaste aquilo à minha mulher?!
Margarida olhou para ele com calma:
Disse-te várias vezes que não queria lidar contigo fora do estritamente profissional. Não me ouviste, por isso tratei de me proteger.
Traíste-me! Estava só a tentar ser amigo, e tu…
Amigo? agora Margarida elevou um pouco a voz, olhos nos olhos. Achas que é amizade esta pressão constante, esta arrogância de achares que alguém te deve atenção só porque está divorciada? Não, Duarte. Isso não é normal.
À volta, alguns colegas erguiam os olhos dos ecrãs, sentindo o ambiente pesar. Duarte baixou o tom, ciente dos olhares.
Arruinaste a minha vida. Agora tenho problemas em casa, só porque te achei interessante. Como sou casado, atacaste assim!
Convencido. Sempre te disse que não fazia o meu género. Pedi sempre que me deixasses em paz. Agora lida com as consequências.
Duarte saiu em passo apressado, batendo com os sapatos no chão, enquanto Margarida lutava contra o tremor das mãos, sentando-se e respirando fundo.
Nos dias que se seguiram, não houve mais tentativas de conversa a hostilidade dele era palpável no ar, mas mantinha distância. Quando se cruzavam no corredor ou nas reuniões, uma barreira invisível separava-os, notada até pelos outros.
Duas manhãs depois, a chefe chamou Duarte ao gabinete. Margarida não ouviu o que se disse, mas reconheceu o tom ríspido da chefe, as respostas confusas do colega e sentiu um certo alívio ao vê-lo regressar pálido e cabisbaixo. Os rumores espalharam-se: que a esposa de Duarte tinha feito um escândalo à porta, que ele fora formalmente repreendido e avisado.
Pouco depois, Joana colega do marketing foi falar com Margarida, sussurrando:
Margarida, obrigada. Eu também passei pelo mesmo. Ele era demasiado insistente, mas sempre temi falar. Fizeste o que era preciso.
Margarida ficou genuinamente surpresa nunca imaginou não ser a única visada. E sentiu-se reconhecida por ter dado o exemplo.
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Uma semana mais tarde, numa reunião geral, o diretor geral, António Silva, abordou a questão da conduta profissional. Falou sob o olhar atento de todos:
Caros colegas, aqui somos, acima de tudo, profissionais! O respeito mútuo é a base da nossa cultura. Se alguém se sentir prejudicado por atitudes ou palavras de colegas, venha falar comigo em privado. Não toleramos desrespeito por ninguém. Isto é um princípio fundamental.
Enquanto todos escutavam, Duarte, no fundo da sala, evitava olhares, mordendo a tampa da esferográfica. A mensagem foi recebida.
A partir desse dia, Duarte cortou qualquer contacto desnecessário com Margarida. Quando ocasionalmente cruzavam nos corredores a comunicação resumia-se ao essencial, profissional, e Margarida notou que finalmente recuperava um ambiente saudável de trabalho.
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Um mês depois, num elevador repleto do aroma familiar de Lisboa por entre gabinetes e pastéis de nata de pequeno-almoço, calhou cruzarem-se: apenas eles dois. Ficaram de lados opostos, mergulhados no silêncio, até que Duarte, antes de sair, falou baixinho:
Margarida… Quero pedir desculpa. Percebo agora que ultrapassei todos os limites.
Ela olhou para ele com serenidade:
Obrigada por reconheceres.
Pensei até aqui que estava a ser simpático, que talvez estavas só a ser tímida, mas entendi que não é assim. Ficou claro agora.
É importante que tenhas percebido. Obrigada.
O elevador fechou as portas entre eles. Margarida, ao chegar à sua secretária, sentiu um alívio inesperado. Durante as semanas seguintes, as interações ficaram apenas no essencial: cinco estrelas, sem sobras nem subentendidos.
Certo dia, já o escritório vazio, Margarida preparava-se para sair quando encontrou um pequeno postal sobre a mesa. Discreto, com linhas abstratas em tons suaves. No interior, uma breve mensagem: Obrigado por mostrares como não se deve agir. Espero que um dia encontres quem respeite os teus limites à primeira palavra.
Sem assinatura, mas Margarida percebeu imediatamente de quem era. Sorriu, guardando o postal no bolso do casaco antes de apagar as luzes e sair. Sentiu nas costas o aconchego da noite lisboeta e uma tranquilidade há muito ausente.
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A rotina laboral regressou à normalidade. Margarida mergulhou nos projetos com renovada serenidade. Após o trabalho, encontrava-se por vezes com amigas em cafés sossegados do Príncipe Real ou caminhava junto ao Tejo, sentindo que finalmente o divórcio era apenas uma etapa encerrada e não o fim de tudo.
Não perdia tempo em arrependimentos ou dúvidas sobre o passado. Aprendeu a valorizar pequenas felicidades: o aroma do café pela manhã, o brilho suave do sol nas janelas do escritório, as gargalhadas partilhadas entre amigas. Olhando-se ao espelho do átrio, via-se sorridente sinceramente, do fundo de si, e não por obrigação.
Num evento informal da empresa, conheceu o Rafael. Trabalhava em análise de dados numa outra equipa. Nunca lhe tinham falado a sério antes, e não era o tipo de homem que impressiona por fogo de artifício: não fazia elogios vazios nem forçava conversas fora de lugar. Limitava-se a perguntar, escutar, admitir desconhecimento, nunca tentando transformar um diálogo profissional num assunto privado sem convite.
Numa dessas saídas após almoço, já à porta do metro, Rafael comentou de forma simples:
Gosto de conversar contigo. Gostava de continuar a ver-te, se não te importares.
Margarida demorou apenas um segundo. Sorrindo, respondeu:
Não me importo nada.
Sem pressas, começaram a encontrar-se todas as semanas. Não havia pressão, nem perguntas incómodas sobre o passado só partilha, respeito, e, devagar, confiança. Não sentia necessidade de se defender, nem de analisar cada palavra. Com o Rafael, tudo era leve.
Os meses passaram. Uma tarde outonal, entre folhas secas no Jardim da Estrela, Rafael disse:
Admiro a forma como sabes proteger o teu espaço. Não é comum, nem fácil. Isso faz de ti uma mulher forte.
Margarida sorriu, agradecendo aquele elogio franco e rarefeito.
A confiança sentida na vida pessoal foi-se estendendo ao trabalho. Participava mais, sugeria ideias, trazia soluções, e colegas e chefia passaram a procurá-la como referência, tanto para aconselhamento profissional como para questões de convivência.
O diretor geral, numa altura de novos desafios, propôs-lhe coordenar um projeto importante. Margarida aceitou decidida, sentindo que já não tinha medo só a convicção de que estava à altura.
À noite, contou a novidade a Rafael, numa esplanada mansa de Campo de Ourique.
Parabéns, Margarida. Tu mereces. Tenho orgulho em ti disse Rafael, sincero, sem resquício de ego.
No sorriso de Rafael, Margarida viu-se finalmente tranquila, sem sombras. Percebeu que estava exatamente onde queria e podia estar.
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Ano e meio depois, Margarida e Rafael celebraram o casamento. Quiseram algo singelo, rodeados de familiares e amigos num pequeno restaurante do Bairro Alto, decorado com flores do campo e aquelas luzes amareladas que lembram festas de aldeia.
Margarida usava um vestido leve e elegante, sem acessórios vistosos, apenas uns brincos discretos e a aliança que Rafael escolhera com muito cuidado. Os cabelos apanhados de forma descontraída, algumas madeixas soltas caíam-lhe suavemente no rosto.
Duarte apareceu acompanhado da esposa. Margarida soube, através de conhecidos, que ele se tinha dedicado a melhorar o seu casamento procurou apoio, mudou atitudes, conseguiu reconquistar alguma harmonia. Antes do jantar, abordou Margarida, já sem máscara, sem superioridade:
Muitos parabéns. Estás realmente feliz, percebe-se.
Obrigada, Duarte. E obrigada pelo postal teve muito significado para mim.
Ele sorriu, genuinamente.
Fico contente. Tudo de bom para vocês.
Voltou para junto da mulher. Margarida, observando-os juntos, sentiu-se agradecida: não pelo passado, não por ele, mas por saber que as pessoas podem mudar e acertar o passo.
Quando a festa terminou, e os últimos convidados saíram para a rua fresca da noite lisboeta, Margarida ficou um instante junto à janela, vendo o casario iluminado pela luz dos candeeiros e as estrelas ténues no céu.
Rafael aproximou-se, abraçou-a ternamente pelos ombros:
Em que pensas? murmurou-lhe ao ouvido.
Que as decisões difíceis muitas vezes são as que nos levam onde precisamos de estar, respondeu Margarida com serenidade, debruçando-se nele. E que faria tudo de novo, sem hesitações.
Ficaram assim, no aconchego discreto da celebração, aprendendo que a felicidade raramente vem de caminhos fáceis, mas sim de escolhas firmes. Saíram juntos para o ar da noite, de mãos entrelaçadas, prontos para o que viesse.







