Sabes que eu nunca conheci o meu pai biológico? Ele desapareceu ainda antes de eu nascer. A minha mãe estava grávida de mim quando ele simplesmente foi embora, assim, do nada como se apagasse a nossa existência de um dia para o outro.
O Joaquim apareceu na minha vida quando eu devia ter uns dois anos. Entrou em nossa casa devagarinho, sem fazer grandes promessas nem se pôr em bicos de pés. Casou-se com a minha mãe sem aquele espalhafato todo quase como quem diz: a felicidade da família guarda-se no peito, não se grita ao mundo.
Sinceramente, não tenho quase recordações de como era a vida antes dele. Nas primeiras memórias que tenho, ele já lá estava: tranquilo, seguro de si, sempre de volta de alguma coisa em casa, mas com tempo para me pegar ao colo a qualquer momento.
Quando eu tinha quatro anos a minha mãe faleceu.
Essa frase ficou-me colada à pele a vida toda, como uma sombra silenciosa. O Joaquim contava sempre a história da mesma forma: uma noite de chuva, acidente de carro, outro condutor não travou a tempo, foi tudo muito rápido. Ele nunca deu mais detalhes quase como se quisesse poupar-me de imagens duras e tristes.
Foi um acidente. Tu não tens culpa nenhuma. A tua mãe ia querer que continuasses a viver.
Nunca mudou esta versão. Nunca. E eu também nunca fiz muitas perguntas era demasiado pequena, perdida, e precisava tanto dele a meu lado.
Depois disto, o Joaquim passou a ser o meu mundo. Preparava-me os lanches para a escola, ia ver-me aos espetáculos da escola e sentava-se na primeira fila como se eu fosse a estrela do Coliseu. Ensinou-me a andar de bicicleta, a trocar um pneu, a defender-me com palavras sem magoar os outros.
Sempre arranjava tempo para me ouvir.
Fazia da casa um lugar seguro.
Ensinou-me a ser independente, mas estava sempre por perto.
Falava-me da minha mãe com um carinho enorme, sem mágoas.
Quando alguém perguntava por nós, dizia com todo o orgulho: É minha filha. Sem enteada, sem rodeios, sem hesitações. Como se a coisa mais natural do mundo fosse assim mesmo.
Nunca duvidei dele. Nunca.
Os anos foram passando. Fui crescendo e sentia que, dos dois membros daquela pequena família, ele era sempre o esteio. Quando o Joaquim começou a adoecer, fui viver mais perto. Não foi por obrigação era mesmo porque o meu coração não me deixava fazer de outra forma.
Fui ficando para lhe dar apoio em tudo o que precisava. E quando, aos 78 anos, partiu deste mundo, senti que tinha perdido o único pai verdadeiro que alguma vez tive.
O funeral foi simples. Toda a gente falou dele com respeito, lembravam a sua bondade, a forma discreta como ajudava sempre quem precisava. Ouvi várias vezes: Tiveste uma estrela a acompanhar-te, sabes? Ele escolheu-te e ficou.
Era daqueles homens em quem se podia confiar, cada vez há menos assim.
Foi depois da cerimónia que um senhor já de idade, que eu não conhecia de lado nenhum, se chegou ao pé de mim. O rosto não me era familiar não o conseguia situar em nada da minha vida.
Ao contrário do que faz quase toda a gente nestas alturas, ele não disse os meus sentimentos. Chegou-se, baixou um pouco a voz, e sussurrou-me como se tivesse medo que alguém mais lhe ouvisse as palavras:
Se queres saber a verdade sobre o que aconteceu mesmo com a tua mãe, espreita à gaveta de baixo da bancada no fundo do armazém do Joaquim.
E virou-me costas. Não se apresentou, não se explicou, não deu hipótese a perguntas.
Nem tive reflexos para o travar.
Não percebia como raio é que ele sabia aquilo.
Não sabia sequer se devia acreditar nele.
Mas as palavras ficaram a martelar-me na cabeça.
Fiquei ali, parada, com as frases a ecoar dentro de mim gaveta de baixo… verdade… mãe… Tudo o resto virou ruído: pessoas, música, conversas.
Já em casa, na casa que o Joaquim me deixou, tentei convencer-me de que era só uma daquelas coisas estranhas que se dizem nos funerais por mágoa, rancores antigos, confusões da vida…
Mas, nessa noite, soube que não ia conseguir dormir sem ir confirmar aquilo. Não porque desconfiasse do Joaquim. Só que, pela primeira vez na vida, alguém pôs uma dúvida na história em que eu sempre acreditei.
Atravessei o quintal, abri a porta do armazém e fui recebida por aquele cheiro tão português a madeira envelhecida, ferramentas antigas de ferro, tudo arrumado à maneira dele.
Às vezes, uma só frase desmonta uma história inteira mesmo murmurada.
Cheguei à bancada de trabalho. As mãos tremiam mais do que eu queria admitir. Inclinei-me, puxei a tal gaveta de baixo… e abri-a.
Aquilo que lá encontrei, fosse o que fosse, já não interessava porque depois daquela frase do desconhecido, percebi: a certeza que eu tinha até ali nunca mais ia ser absoluta.
Fiquei a olhar para a gaveta aberta e pensei: o amor do Joaquim foi a base da minha vida, aquilo onde aprendi o que é confiar. Mas há histórias que precisam de ser revisitadas. Ao puxar aquela gaveta, percebi que tinha dado o primeiro passo não só para perceber o passado, mas também quem eu verdadeiramente sou.







