Quando a Tesoura Encontra a Pedra: A História de Polina, os Casamentos Forçados, e os Desafios de uma Família Portuguesa Entre o Destino e a Tradição

TRANÇAS E PEDRAS

Olha, vou-te contar sobre a minha tia de sangue, a Madalena. Aquilo foi do mais típico português, acredita! A coitada foi praticamente empurrada para o casamento. As irmãs mais velhas e os pais andavam em cima dela, sempre no mesmo discurso:

Olha que não vais ficar para tia, Madalena! Quem é que te vai levar um copo de água na velhice? Nesta família não há solteironas!

E sabes o que é mais curioso? A Madalena, depois de passar anos a ver o pai a perder-se de bêbado, tinha prometido a si própria em miúda: nunca me meto nessa, não quero casar. Queria era ser independente, ter uma carreira jeitosa. Mas, pronto, chegou aos 28 anos, no aniversário teve uma avalanche de conselhos dos familiares e sentiu-se na obrigação de avançar.

O noivo, o António, apareceu num instante. Aposto que aquilo foi tudo obra da família, já andavam de olho nele e a puxá-lo para a rede. Passavam duas semanas de namoro e ele pede-lhe em casamento. Ela lá aceitou, meio por obrigação, a pensar se calhar gosto dele com o tempo.

O António já vinha feito adulto crescido, com a personalidade bem vincada. Casaram-se à pressa, com direito àquelas festas tradicionais num restaurante à beira da aldeia e o brinde meio estranho do padrinho de casamento:

Se é por amor, até ao altar; se não é, volta para o teu lugar!

Dizia-se por lá que a sabedoria está toda nos provérbios Pois a Madalena percebeu bem cedo que tinha caído na ratoeira. Nem um mês depois já queria divorciar-se. Aquilo com o António era só desilusões: ele teimoso, rabugento, inflexível. A Madalena, igual. Aquilo era mesmo duelo de titãs, ou como quem diz, quando a trança bate na pedra, nem uma nem outra vai para trás.

Entretanto, nasce-lhes um filho, o Francisco. A Madalena dedicou-se totalmente à maternidade, deixou de querer saber do marido, pôs o António a dormir numa cama de campanha com a desculpa de que estava sempre cansada. Nem lhe dava atenção, já não havia paciência para ele.

No verão, foi passar um tempo com o Francisco à terra dos pais. E logo desabafou à mãe:

Mãe, quero-me divorciar. Crio o Francisco sozinha. Isto de casamento não é para mim! Às vezes só me apetece deitar-me e desaparecer, não aguento esta vida. Já nem posso ver o António. Para quê continuar?

A mãe dela, sempre com aquele mantra das mães portuguesas, respondeu logo:

Madalena, aguenta firme, minha filha! Fica cá connosco, pode ser que tenhas saudades. Mas em pensamento de divórcio nem penses! Marido e mulher é como pão e queijo juntos funcionam, separados estragam-se.

Sabes, a Madalena já contava com essa resposta da mãe… Mas nunca percebeu para que raio se devia aguentar. O Francisco via bem demais como era a relação dos pais e ela só pensava: mais vale o miúdo crescer num ambiente decente do que a ver esta tristeza.

A mãe dela passou toda a vida a aturar o marido. O homem era alcoólico, só se levantava da cama para reclamar e o resto do dia andava a beber vinho da casa. Ela, desde as cinco da manhã, já andava a tratar das vacas, a cozer batatas para os porcos, a mondar as batatas na horta e ainda tinha o trabalho no campo do lado. No inverno, só depois de tratar dos animais, pôr a lareira a arder e fazer a sopa para toda a gente é que se sentava um bocado. Vida no campo era assim nunca acabava o serviço.

As três filhas fugiram para a cidade, só ficou lá o irmão da Madalena, o Joaquim. O rapaz tinha problemas de desenvolvimento e sempre foi muito dependente. O mais estranho era mesmo aquele quarto filho a mãe quis agradar ao pai, só porque ele queria um rapaz para ajudar, mesmo sabendo que homem já não prestava.

Os pais cuidaram dele até ao fim da vida. Pouco depois de os pais partirem, o Joaquim também se foi. Já tinha sessenta anos, nunca aprendeu nem quis tratar de si.

Depois de tanto matutar, a Madalena lá decidiu não chatear mais a mãe e voltou para o marido. Dois anos depois nasce-lhe outro menino, o Afonso.

A Madalena achava que, talvez com o segundo filho, as coisas melhorassem lá em casa. Mas não, enganou-se redondamente. O António começou a implicar com o mais novo, dizia que era a cara do avô alcoólico Olha, a tia só chorava de tristeza, mas nunca se arrependeu de ter tido os filhos prometeu entregar todo o seu amor aos rapazes, ao marido nunca mais.

Quando o Francisco e o Afonso entraram na adolescência, vieram os problemas: álcool, tabaco, faltarem-lhe ao respeito. E o pior: começaram a andar colados ao pai, a fazer-lhe frente à mãe. A Madalena só queria vê-los bem, educados, mas nada feito.

O António começou a beber com os filhos. A família desmoronou-se de vez. Foi a pior fase da vida dela. Não havia volta a dar, não os conseguia controlar.

Cansada de tudo, a Madalena pegou nas coisas e foi viver com os pais, já velhotes. Claro que a receberam de braços abertos e a mãe, só para a animar, diz-lhe logo:

Madalena, já pareces mais velha que eu. A vida andou a dar-te umas belas pauladas, filha! Os homens são um castigo…

Ela, às vezes, ralhava com a mãe por causa do Joaquim:

Mãe, não estragues mais o Joaquim. Trata-o como adulto! Olha que ele nunca vai largar a tua saia!

Mas a mãe não vacilava:

Ó Madalena, o teu irmão pode não ser bem apetrechado, mas é sangue do nosso sangue. Ninguém o vai tirar da família! Vou tomar conta dele até ao fim.

A Madalena nunca teve grande carinho pelo irmão, apesar de perceber que a culpa não era dele. Era já esperar muito de um filho de um homem sempre a beber. A Madalena e as irmãs tiveram sorte, para elas o pai não estava tão mal naquela altura.

Passado um ano, o Afonso aparece lá a dizer que o pai morreu. Bebeu até cair.

A Madalena nem uma lágrima. Só respirou fundo e disse:

Já se esperava. Juntamo-nos a pensar que vai ser tudo bonito, mas depois é tudo ao contrário. Que o António descanse em paz

Quando regressou à cidade, depois de levar com os filhos crescidos em cima, optou por comprar uma casinha modesta na periferia, já a pensar numa velhice tranquila. Francisco e Afonso ficaram a viver no apartamento dos pais.

Entretanto, o Francisco casou, e nasceu-lhe um filho. Mas algo correu mal e em menos de um ano estava separado. O Afonso foi viver com a mãe depois de uma valente discussão com o irmão. Pelos vistos o Afonso andava a beber à séria e o Francisco fartou-se, correu-o de casa.

O tempo foi passando…

O Francisco voltou a casar, mas passados cinco anos estava novamente sozinho a mulher foi-se embora. Ele até comentou com a mãe:

Casei-me como quem dá um passo em falso no gelo!

A terceira vez também não resultou. Mesmo com paixão e amor, a terceira esposa morreu de repente aos 40 anos, rebentou-lhe um trombo. Morte é fumaça, entra por qualquer lado O Francisco ficou de rastos, e disse à mãe:

Não quero casar mais, mãe. Estou farto disto tudo. Vou ficar solteiro, está decidido.

Agora a Madalena vai ao apartamento dele de vez em quando, limpa, cozinha, faz o que pode.

O Afonso nunca casou. Bebe tudo o que encontrar. Às vezes desaparece sem deixar rasto. E lá anda a Madalena, com 75 anos, a correr as ruas do bairro com uma foto na mão a perguntar a toda a gente:

Não viram o meu menino?

Já toda a gente sabe desta história, de cor e salteado. Um, dois meses depois, lá aparece o Afonso, sempre acabado, mas inteiro. A mãe lava-o, limpa-lhe as botas gastas, deita fora a roupa rota. Quando ela pergunta onde andou, ele só diz uns resmungos, mas basta-lhe vê-lo vivo para sorrir.

Toda a gente já sabia que o Afonso se entretinha em casa duma mulher lá da zona, grande amante de licores e bebidas fortes. Acolhia-o sempre, até aparecer outro homem, e depois punha-o na rua durante uns tempos.

A Madalena foi criando o filho sozinha com a reforma. Tentou várias vezes que ele trabalhasse, mas mal recebia o adiantamento, evaporava-se, com o dinheiro e tudo. Volta a casa, quase sempre sem um tostão.

Era amargo agora recordar a mãe, que também perdeu uma vida inteira a tentar endireitar o Joaquim. Só agora ela percebia mesmo aquele sofrimento de mãe. O sangue puxa. Ninguém foge à família. E, enfim, não há felicidade que chegue para todos

Depois deste trajecto todo, a Madalena entendeu que aquele casamento de fugida e aquela festa não lhe valeram de nadaNum desses dias frios, a Madalena sentou-se à janela da cozinha, mãos rugosas a segurar uma caneca de chá. Ouviu passos no corredor: o Afonso arrastava o corpo cansado, os olhos fundos, mas vivos. Sentou-se ao lado da mãe em silêncio, como quem procura um lugar seguro na tempestade.

Ela olhou para ele e sorriu um sorriso pequeno, mas inteiro, como só as mães sabem dar. Sabes, filho, às vezes penso que somos todos assim pedras e tranças, uns mais duros, outros mais enredados, mas cá estamos. Ele não respondeu, mas pousou a cabeça no ombro dela, coisa rara desde criança.

Lá fora, a chuva caía miudinha e tudo parecia igual. Mas naquele momento, dentro daquela casa gasta pelo tempo, surgiu uma trégua breve: a paz de quem aceita o que foi, sem já lutar contra o que não pode mudar. Madalena afagou-lhe o cabelo, sem promessas, sem cobranças, só amor.

E pensou consigo mesma que, afinal, não precisava de quem lhe levasse um copo de água. O pouco que restava era mais precioso: o simples calor de um filho vivo, a certeza de que, apesar das perdas e tropeços, nunca deixou de avançar.

Na aldeia, dizem até hoje: a Madalena não ficou para tia ficou para mãe. E isso, por estranho que pareça, foi a maior vitória da sua vida.

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Quando a Tesoura Encontra a Pedra: A História de Polina, os Casamentos Forçados, e os Desafios de uma Família Portuguesa Entre o Destino e a Tradição
Uma gata entrou na igreja e deitou-se junto ao altar – o padre percebeu tudo