Ontem estava eu sentada num banco de jardim com a minha vizinha, a Dona Lurdes, que chorava baixinho. Dizia que era um desperdício acabar num lar de idosos. Que desistir assim, de livre vontade, não era digno. E tudo isto, segundo ela, por causa das palavras da filha.
Criou a filha sozinha, sem marido. Ficou viúva cedo e teve de carregar o mundo às costas. A filha, a Fabiana, cresceu mimada até dizer chega.
Logo pequenita, já estava habituada a que a mãe resolvesse tudo por ela. A Dona Lurdes dava-lhe até o último cêntimo, comprava-lhe tudo o que queria vestia-a como se fosse uma boneca. Para poder dar estes mimos à filha e não passar necessidades, trabalhava dia e noite, às vezes dobrava turnos na fábrica. Felizmente, nessa altura não tinha de se preocupar com casa: o prédio veio da fábrica. Outros tempos! Agora ninguém oferece apartamentos. Hoje temos de trabalhar, juntar tostões, e rezar para conseguir comprar um cantinho.
Fabiana cresceu, foi para a universidade e casou-se.
Os pais do marido têm uma vivenda grande em Sintra, mas eles nem pensam em viver lá.
A Dona Lurdes também tem um apartamento, mas não se dá muito com o genro e convenhamos, quem é que quer jovens a viver com sogros? Os rapazes querem fazer as suas regras, os mais velhos já têm rituais sagrados. Não vale a pena meter toda a gente na mesma casa a chatear-se.
Agora, felizmente, há crédito à habitação. O segredo é juntar o suficiente para a entrada e depois ir pagando devagarinho. Mais vale isso do que andar de malas feitas, de aluguer em aluguer.
Antigamente até dava para sonhar com um apartamento oferecido, mas acabou-se o tempo dos brindes. Agora há que dar ao pedal, por muito custoso que seja.
A Fabiana e o marido têm bons empregos, ganham direitinho. Têm amigos que já conseguiram a casa própria assim.
Mas, claro, eles não juntam nada. Primeiro foi uma gravidez, depois outra. Os euros voam em fraldas e leite em pó. Agora os jovens querem tudo prático: não perdem tempo a ferver fraldas de pano ou a fazer papas em casa.
É tudo tão fácil: abre-se o pacote de leite, mistura-se, dá-se ao bebé. Troca-se a fralda, vai para o lixo e venha outra sequinha. Limpo, rápido e sem dramas de esfreganços. Uma maravilha!
Para quê ter pressa com filhos? Podiam ter estabilizado, comprar casa, e depois pensar nos miúdos. Mas não, foi logo um e depois o outro.
A Fabiana quer mais filhos. Ela e o marido, ambos filhos únicos, acham importante.
Se calhar até têm razão. Mais vale terem irmãos para não ficarem sozinhos na vida e ajudarem os pais. Ao menos assim não crescem tanto mimados. Criançada é uma alegria, mas
Mesmo assim, às vezes dá ideia que quem tem filhos gosta é de se queixar. E depois dizem que não conseguem poupar. Não percebo. Se não têm casa própria, podiam juntar uns trocos, ficar uns invernos com o mesmo casaco, e guardar cada cêntimo para a entrada da casa. Antes era isso que fazíamos! Mas agora os jovens querem tudo à mão. Não sabem o que é guardar para um sonho.
Também estão habituados a ir ao restaurante todos os fins de semana. Compram montes de guloseimas para os miúdos. Só gastam dinheiro! A casa está cheia de brinquedos. Antigamente bastava um carrinho de lata e uma boneca para o ano inteiro, hoje aparecem coleções novas todos os meses.
E lá vão eles comprar tudo.
A Fabiana é cheia de gostos modernos só gosta de cremes importados, adora roupa de marca. Não vive nada conforme o orçamento. Vai-se a ver, e está sempre a comprar peças novas, nem tem tempo de as usar! Mal passa um mês, quer logo outra camisola, e aquela vai para doação. E o dinheiro que ali se deita fora?
E nas férias? Todos os anos vão para o Algarve ou então para Palma de Maiorca. As crianças precisam do mar, dizem eles. E os pais, claro, precisam de férias do trabalho.
Tudo bem, não sou contra férias, mas porque não tirar uns dias na aldeia? Sempre poupavam um bom bocado.
Com o que gastam em viagens, já compravam pelo menos um T1 em Benfica. Nem precisa ser grande! Mas não, preferem andar a saltar de sítio em sítio sem pensar no futuro. No fim de contas, não têm nada com o nome deles.
E nisto, Dona Lurdes está aqui a chorar.
A filha apareceu cá um dia destes. Voltaram a falar do assunto da casa. E a Fabiana explicou: Agora já nem precisamos comprar, estamos ótimos a alugar. Vivemos, comemos e vestimo-nos bem. Depois, mais tarde ou mais cedo, vai calhar-nos algum apartamento. Daqui e dali somos filhos únicos!
A pobre Dona Lurdes ficou mesmo magoada. Disse que parecia que estavam só à espera que ela batesse a bota. Claro que a Fabiana pediu logo desculpa, tentou remediar, mas no fundo já se sabe.
Eu até percebo a rapariga, não disse nada de errado, mas ficou aquele sabor amargo no ar. Agora, sempre que a filha liga para saber como está, a Dona Lurdes já pensa logo: Deve ser para ver se já me despachei ou se já estou pronta para ir para um lar
Olha, as voltas que a vida dá! É ou não é de rir? (Pronto, rir para não chorar.)Fiquei ali sentada, a ouvir o desabafo, numa tarde de sol que parecia não ter pressa. Dei-lhe a mão, como quem segura um ramo de flores já meio murchas, mas ainda assim bonitas à sua maneira.
Dona Lurdes, a senhora vale muito mais do que uma escritura, digo suavemente. Ela sorri de lado, enxuga uma lágrima e olha para mim de esguelha.
E se vendesse tudo e fosse tirar férias? Pode ser na aldeia, ou no Algarve, e só para si. A Fabiana que espere: a vida não se resume a heranças, nem a esperar pelo que sobra. A senhora ainda tem é que ensinar-lhe que o tempo também é nosso. Enquanto houver sol, há caminho. E esse não se escreve em testamento.
Ela soltou uma gargalhada inesperada uma daquelas que sacodem as mágoas e deixam o peito leve. Depois ajeitou a blusa, levantou-se e olhou em frente, como quem vê uma porta aberta no fim do corredor.
Pois… Se calhar é isso mesmo, murmurou, com uma coragem miúda, mas decidida. Chega de viver em saldos. Ainda tenho mundo para gastar.
Enquanto a Dona Lurdes se afastava com passos mais firmes, percebi que, às vezes, herança maior que se deixa não cabe numa casa é feita de presença, de gargalhadas, de um pouco de ousadia, de um jardim florido em pleno outono. E, naquele fim de tarde, vi uma velhinha a recomeçar e foi como assistir a um pôr-do-sol que ainda promete mais um verão.







