Tenho 70 anos e tornei-me mãe muito antes de aprender a pensar em mim própria. Casei cedo, e desde a primeira gravidez, a minha vida girou sempre à volta dos outros. Nunca trabalhei fora de casa, não por falta de vontade, mas porque havia sempre alguém que precisava de mim alguém tinha de ficar. O meu marido, o Manuel, saía cedo e só voltava depois de anoitecer. O lar era meu. Os filhos eram meus. O cansaço também era só meu.
Lembro-me das noites em claro. Uma filha com febre, outra a vomitar, um terceiro a chorar. Eu sozinha, sempre. Ninguém me perguntava se estava bem. No dia seguinte, lá estava eu, a levantar-me, a preparar torradas e leite, a continuar como se nada fosse. Jamais disse não consigo. Nunca pedi ajuda. Achava que era isso que fazia de mim uma boa mãe.
Quando os filhos cresceram, sonhei em aprender algo novo talvez um curso de costura, ou um atelier de escrita na biblioteca municipal. O Manuel disse-me: Para quê agora? Já fizeste tudo o que tinhas a fazer. Acreditei nele. Fiquei na retaguarda, sempre a apoiar. Quando uma das filhas perdeu um ano na faculdade, fui eu quem falou com o pai para acalmar os ânimos. Quando outra engravidou cedo demais, fui eu quem a acompanhou às consultas, a quem ficou a tomar conta do neto enquanto ela se organizava. Sempre que alguma coisa se desmoronava, todos vinham ter comigo.
Depois vieram os netos, e a casa encheu-se de novo. Mochilas, brinquedos, choros, gargalhadas. Durante anos, fui creche, cantina e enfermeira. Nunca esperei recompensa. Jamais me queixei. Quando ficava completamente exausta, diziam-me: Ó mãe, só tu sabes cuidar deles como deve ser. Era isso que me mantinha de pé.
Depois, o Manuel adoeceu. Cuidei dele até ao último dia. E, de repente, começaram as desculpas: Esta semana não dá, para a semana combinamos, depois ligo-te. Agora passam-se semanas sem ver ninguém. Sem exagero, semanas inteiras. Houve aniversários em que só recebi uma mensagem no WhatsApp. Às vezes ainda ponho dois pratos na mesa, por hábito. Só dou conta quando já está a comida feita e não há quem chamar.
Uma vez caí na casa de banho. Não foi grave, mas assustei-me. Sentei-me no chão, com o telemóvel na mão, à espera que alguém atendesse. Ninguém atendeu. Levantei-me sozinha. Nunca contei a ninguém, para não preocupá-los. Aprendi o silêncio.
Os meus filhos dizem que me amam, e sei que é sincero. Mas amor sem presença também dói. Falam comigo a correr, sempre aflitos. Mal começo a contar-lhes alguma coisa do meu dia no rossio, lá vem: Oh mãe, depois falamos. E o depois nunca chega.
O que mais custa não é a solidão. O mais difícil é sentir que deixei de ser necessária e passei a ser um incómodo um agendamento apertado no calendário de alguém. Fui o pilar de tudo, agora sou um compromisso de que já não precisam. Ninguém me trata mal, mas também ninguém precisa de mim.
E eu pergunto: o que fariam no meu lugar?






