Escolhe a mãe ou eu
O telefone tocou às dez e meia da noite, quando eu, Manuel, já estava na cama com um livro. A Teresa, minha mulher, trabalhava no portátil na sala ao lado, de onde vinha baixinho a voz do pivô do noticiário económico.
O número era desconhecido, mas vinha com indicativo de Viseu, a nossa terra natal.
Estou? disse eu, sentindo logo um aperto estranho no peito.
Olhe, sou a Dona Amélia Rodrigues, a vizinha da sua mãe, do outro lado da rua. Se calhar não me conhece, mas… é uma situação grave. A Dona Rosa, sua mãe, caiu esta manhã. Só vim saber agora ao fim do dia, fui a casa dela e encontrei-a caída no chão, sem conseguir falar, com metade da cara caída…
Saltei logo da cama à procura das meias.
Ela está no hospital?
Já foi levada há uma hora para o hospital de Viseu. A ambulância veio, disseram que parece um AVC. Procurei o seu número no telemóvel dela, custou a encontrar…
Obrigado, Dona Amélia. Muito obrigado!
Desliguei e fiquei parado alguns segundos, o telemóvel apertado entre as mãos. Depois fui ter com a Teresa.
Ela estava sentada no sofá, de roupão, com um copo de água na mesa de apoio. Quarenta e oito anos, cabelo arranjado, ar de executiva bem-sucedida no nosso T3 moderno em Lisboa.
Teresa, a minha mãe está mal. Teve um AVC. Levaram-na para o hospital de Viseu.
Ela baixou o volume da televisão.
Quando foi isso?
Hoje. A vizinha encontrou-a no chão de casa, esteve o dia todo sozinha…
Teresa pousou o copo.
Sim, e agora?
Olhei para ela.
Tenho de lá ir. Amanhã de manhã saio cedo.
Vai, não te prendo.
Teresa, temos de falar a sério. A minha mãe já tem setenta e oito anos. Se foi mesmo um AVC, ela não pode ficar sozinha em casa. Temos de pensar o que fazer.
Teresa voltou a ligar a televisão, baixinho, como quem quer mostrar que já não tem pachorra para aquela conversa.
Manuel, já discutimos isto noutros jantares.
Falámos só por alto, agora aconteceu mesmo.
E o que mudou? Já sabes a minha opinião. Não a podemos trazer para cá. Não temos condições.
Sentei-me no sofá à frente dela, devagar.
Teresa, temos três quartos.
Três quartos, dois deles vão ser remodelados. Falámos disso cem vezes. Quero fazer o meu escritório, tu própria querias um closet. Vai ficar ela onde, na cozinha?
Uma divisão pode ser para a minha mãe. O resto pode esperar.
Não pode esperar. Já tenho a equipa de obras marcada para abril. O sinal já foi dado, sabes disso.
Teresa, estamos a falar da minha mãe, que está doente.
Ela olhou-me nos olhos.
Eu compreendo, juro que sim. Mas percebes o que é ter cá uma idosa, acamada, talvez sem falar, com fraldas, dependente? Não estou preparada para isso. Tenho direito a dizê-lo, não tenho?
Ela não é uma estranha. É minha mãe.
Para mim, quase que é. Vi-a meia dúzia de vezes em dez anos. E ela nunca fez questão.
Porque tu…
Não vamos agora discutir culpas. Estou a falar da vida real. Eu trabalho, tenho projetos importantes, preciso de tranquilidade. Não quero viver a rotina de um hospital em casa. Esta casa também é minha.
Fiquei calado, ouvindo ao longe Lisboa a dormir.
E se contratássemos uma cuidadora? Lá em Viseu. Uma senhora de confiança, pagamos nós.
Podemos. Então faz isso.
Mas vou lá muitas vezes. Sempre que possa.
Faz como quiseres. Ninguém te prende.
Aquela frase, “ninguém te prende”, foi dita com uma leveza tão habitual que algo em mim se deslocou, devagarinho, como o chão que começa a ceder.
Levantei-me e voltei para o quarto. Passei a noite sem pregar olho, o teto branco à minha frente.
De manhã, conduzi sozinho até Viseu.
O hospital cheirava a desinfetante e tinta nova. A minha mãe, Dona Rosa, estava num dos quartos de seis camas, encostada à janela. O lado direito do rosto caído e a mão direita imóvel sobre a colcha. Olhava para mim, mas sem conseguir dizer nada.
Mãe… Segurei-lhe na mão, fria e leve. Mãe, estou aqui. Vai correr bem.
Ela tentou pronunciar algo, mas saiu tudo enrolado.
Não diga nada. Eu estou aqui, não vou a lado nenhum.
O médico explicou tudo, com poucas palavras. AVC isquémico extenso. Paralisia direita, fala afetada. O prognóstico era reservado. Recuperação parcial, talvez, mas ninguém sabe quanto tempo ou como ficará. No mínimo, meio ano de cuidados intensivos e reabilitação.
Ela não pode ficar sozinha, nem pensar, disse a médica. É filho único?
Sim.
O olhar da médica não era de pena nem censura. Só conhecimento de quem já viu muitos filhos na mesma situação.
Passei o dia inteiro no hospital. Alimentei a minha mãe à colher, sempre devagar, falando-lhe de tudo e de nada, só para ela me ouvir; respondia apenas com o olhar, mas com uma lucidez intacta.
Ao final do dia liguei à Teresa.
Novidades? perguntou.
É grave. Paralisada do lado direito, não fala. Não pode ficar sozinha.
Silêncio.
Estou a perceber.
Teresa, vou ficar aqui.
Quanto tempo?
O que for preciso. Não posso sair neste estado.
A voz dela mudou, mais fria.
Tens trabalho aí. E a tua vida cá.
Vou arranjar solução no emprego, fico a trabalhar à distância. A minha mãe precisa de mim.
Mas disseste que contratavas uma cuidadora.
Nada substitui um filho, Teresa. Sabes disso.
Outro silêncio.
Estás consciente do que isso implica?
Estou. E aceito.
E ficas naquela… naquela casa?
Fico.
A pausa foi longa.
Está bem, disse enfim, mas aquilo foi só uma constatação, não um consentimento. Liga se precisares de algo.
Desliguei. Fui para a rua escura do bairro, com candeeiros acesos de dois em dois. Uma senhora idosa passava, sacos do Pingo Doce carregados a custo. Cheirava a lenha queimada.
Abri a porta da casa da minha mãe, de madeira, à beira de cair, no fim da Rua das Oliveiras. O cheiro a mofo misturava-se ao do inverno beirão.
Estava fria. Tinha as mãos doridas ao acender a lareira, mas um instinto antigo guiava-me. Vivi ali os primeiros vinte anos da minha vida.
Revirei os espaços: cozinha pequenina, corredor estreito, dois quartos, um com a cama da minha mãe, outro com a minha velha cama. Simples, limpo, tudo no mesmo sítio de sempre. Fotografias antigas nas paredes: o meu pai, a minha mãe, eu miúdo, tias e avós a preto e branco. Aquela pobreza digna, da casa portuguesa tradicional.
Mandei mensagem à Teresa: “Vou ficar a viver aqui. Não sei quando volto. Passo aí buscar roupa.”
Resposta ao fim de vinte minutos: “Percebido. Faz como quiseres.”
E foi isto. Talvez o fim do nosso casamento.
Os primeiros dias fundiram-se num só: do hospital de manhã à noite, aprendendo a cuidar dela mudá-la de posição, ginástica passiva para o braço, alimentar devagar, nunca mostrar cansaço. Ouvir os progressos e as quebras, ver quem foi professora de matemática a vida inteira a lutar por palavras simples era um sofrimento sem nome.
Dois dias depois, pela manhã, minha mãe falou melhor.
Manuel… A voz fraca, mas clara. Vai para casa. Para Lisboa.
Mãe, já estou em casa.
Não, querido. Vai… para ela. Tua mulher.
Não penses nisso agora.
Teresa… não gosta?
Gosta. Está tudo bem, mãe.
Ela ficou calada, um olhar longamente triste. E eu desviei a cara para a janela.
Recebemos alta dali a três semanas e meia. Voltei com ela para a Rua das Oliveiras. O Tiago, rapaz do prédio ao lado, ajudou a subir as escadas. Instalei-a na cama, com cobertores, sopa feita, aquecimento a carvão.
Começou uma vida diferente.
Cuidar de um acamado é trabalho não dito: mudar posições, trocar fraldas, exercícios de braços e pernas, sopas, maçã cozida, comprimidos contados, visitas do terapeuta da fala três vezes por semana, e sempre aquele orgulho resistente da minha mãe.
Trabalhei online, contabilista numa PME. O patrão foi compreensivo, passou-me para part-time. O salário baixou. A Teresa enviava-me algum dinheiro de vez em quando, transferências de duzentos, trezentos euros, sem frases, só notificações do MBWay. Eu agradecia apenas.
Quase não falávamos.
Em Novembro, numa manhã húmida, tentei arranjar a escada do alpendre a minha mãe tinha de começar a pôr-se de pé, precisava de apoio sólido. Aproximou-se o senhor Joaquim, vizinho de vinte passos.
Já o conhecia de vista: homem baixo, robusto, cara aberta. Cinquenta e cinco, talvez, igual a mim.
Não é assim, disse ele, os pregos cravam-se de lado, senão saem logo.
Apresentei-me: Manuel. Ele também.
Arranjou a escada em cinco minutos, onde eu andava à meia hora.
Se precisar de alguma coisa, diga, ofereceu. Vivemos todos perto, é ajudar e pronto.
Fico agradecido, mas não quero incomodar.
Não incomoda nada. A Dona Rosa ajudou muito a minha mãe, já faz anos. Não esqueci.
E seguiu.
Fiquei ali a olhar para ele. A palavra “incomodar” que antes fazia parte da minha vida já não me pesava. Incómodo era ter uma mãe caída longe sem ninguém.
Com o frio de Novembro, a lareira deitou fumo na sala, o cheiro intenso espalhou-se por tudo. Não sabia o que fazer, pedi ajuda.
Bati à porta do Joaquim à hora de jantar, com receio de abusar.
Veio logo ajudar, subiu ao telhado, limpou a chaminé e explicou: convém fazê-lo no outono, todos os anos. Recusou dinheiro, com naturalidade.
Aceita um chá? perguntei.
Se faz questão…
Ficou sentado na cozinha, chá de limão, bolachas de pacote. A minha mãe dormia.
Sempre viveu cá? perguntei.
Sempre. Só fui ao Porto uns anos, fábrica, mas voltei.
Porquê?
Porque é diferente. Cá é casa, lá é trabalho. Gosto do que é meu.
Eu disse-lhe que nunca dava valor ao que é nosso, só agora me arrependo de não ter vindo mais.
Não me consolou, só disse: “Está cá agora, é o que conta.”
Em Dezembro, a minha mãe começou a sentar-se na cama. Pequenas vitórias que nos aqueciam. A Terapeuta da Fala, Dona Gertrudes, era uma senhora animada, quarenta e cinco anos, e fez questão de elogiar em voz alta o progresso.
A fala foi voltando, lenta, nunca plena. Muitas frases saíam truncadas. Mas já perguntava:
Estás mais magro, Manuel.
Devo estar, mãe.
E a Teresa telefona?
Raramente.
E ela vem cá?
Não sei, mãe.
Longo silêncio.
Não vem, disse ela, sem mágoa.
Teresa não veio. Telefonava de tempos a tempos, perguntava “Como está a tua mãe?” e pouco mais. Uma vez disse que as obras iam a bom ritmo. Outra vez falou do jantar de Natal da empresa, restaurante ótimo.
A distância crescia. Vidas paralelas, apenas contacto por hábito.
Em Janeiro, a minha amiga Mafalda veio de Lisboa, de propósito, de autocarro, com um bolo e promessas de ajuda. Mas aquela conversa não morreu nas primeiras palavras.
Ó Manuel, não achas que já chega? disse ela. Já passaram dois, três meses. Vais acabar contigo.
Queres que faça então?
Uma cuidadora a tempo inteiro, profissional. Ou um lar, existem tão bons lá para cima…
A minha mãe sempre temeu lares.
Teve, temeu, mas agora não compreende…
Compreende, sim. Só está fisicamente presa.
Mafalda calou-se.
E a Teresa não te ajuda?
Não.
Vais deixar assim? Vais largar o teu casamento?
Não sei.
Manuel, não se larga um casamento por isto. Vocês têm casa em Lisboa, estabilidade…
Olhei para ela a sério.
Mafalda, a minha mãe esteve um dia inteiro caída, sozinha. Se não fosse a vizinha, morria ali.
Eu compreendo…
Não, não compreendes. Por favor, não me peças para escolher entre minha mãe e outra coisa qualquer.
Mafalda foi embora no próprio dia, sentido. Depois falámos por mensagens, mas algo mudou.
As vizinhas mais velhas passaram a respeitar-me de forma contida, nunca com pena. Dona Amélia por vezes trazia legumes ou broa de milho até à porta, sem palavras. Dona Idalina, outra velha amiga da minha mãe, ficou duas horas com ela enquanto fui à farmácia.
As minhas colegas de escola de antigamente, a quem eu era o “Manuel engenheiro de Lisboa”, encontravam-me no supermercado e faziam perguntas: como está a Teresa, quando volta, como vivem agora? O tom era de curiosidade, mas também de malícia, como quem vê uma queda de status.
Cá me vou aguentando, respondia, sem dar conversa.
O Joaquim continuava a ajudar. Consertou a vedação derrubada pelo vento. Trouxe lenha num carrinho de mão. Quando estive de cama com uma gripe, foi ele a acender a lareira e a cuidar da minha mãe.
Não sei como agradecer, disse-lhe um dia.
Não se agradece, somos vizinhos.
Podia não ser assim.
Podia, mas não é, respondeu.
Fiquei a cismar na diferença.
Tem família? perguntei.
Já tive. Esposa faleceu há uns anos. Tenho uma filha em Lisboa, raramente liga.
Disse-o sem rancor.
Fiquei a pensar se a Teresa, com o nosso apartamento novinho, estaria sozinha ou acompanhada… Estaria bem?
Nesse dia telefonei-lhe.
Teresa, podemos falar?
Passou-se algo?
Não. Só queria conversar a sério.
Pausa.
Fala.
Estás bem?
Estou. As obras estão quase terminadas. Trabalhos entusiasmantes.
Teresa, acho que não volto para Lisboa.
Longo silêncio.
Definitivamente?
Definitivamente.
Ela não apareceu exaltada, nem se ofendeu. Só perguntou:
É por causa da tua mãe ou por mim?
Pensei poucos segundos.
Acho que é por mim.
Ela suspirou.
Pronto… Queres divórcio?
Quero.
Muito bem. Isto resolve-se.
E isso dito num tom tão prático como quem fala de empreitadas. Uma clareza sem paixão.
Na Primavera, a minha mãe começou a andar no interior do quarto, primeiro com um andarilho, depois até à cozinha, finalmente à rua. Teve quedas de ânimo, chorou uma vez, mas ergueu-se.
A terapeuta via nisto “motivação” é preciso ter para lutar, dizia.
Não sei se era por mim. Talvez sim.
As noites tornaram-se mais leves, já discutia reformas na casa: o chão, o telhado, a eletricidade velha. Vendi o carro novo que tinha em Lisboa; o apartamento ficou para a Teresa, com a compensação que me passou. Usei o dinheiro todo na casa da mãe.
O Joaquim ajudou-me nas obras; chamou uns amigos para trocar o chão e o telhado em três fins de semana. Só aceitei pagar os materiais.
Porquê? perguntei.
Porque sim, respondeu, já sabe a resposta.
E eu soube.
A minha mãe já via tudo daquele banco à sombra do limoeiro. O rosto não se recompôs totalmente, a voz era setenta por cento da antiga Dona Rosa, mas os olhos nunca perderam vivacidade.
Uma vez disse:
O Joaquim trabalha bem. Bom homem.
É sim, mãe.
Tu vês isso?
Vejo.
Ela assentiu e mais não disse nada.
A Teresa ligou em Julho, meses depois dos papéis do divórcio assinados.
Como vão as coisas por aí?, a voz estava diferente, menos distante.
Bem. A minha mãe já se mexe sozinha, a casa está arranjada.
Fico contente. Pausa. Eu, sabes, acho que não agi da melhor maneira no Outono.
Não lhe disse “está tudo bem”. Não estava. Só disse:
Pois.
Não guardas rancor?
Não. Já não.
Fazes bem. E és feliz aí?
Olhava pela janela. A minha mãe lia no banquinho do quintal, rodeada de vasos de manjericão e tomates verdes. Um melro picava as ameixas.
Não sei se é felicidade. Mas aqui estou bem.
Pronto. Fico mais descansada.
Despediu-se.
Fui pôr a mesa na cozinha. O velho bule do meu pai ainda resistia, a chaleira enferrujada ainda aquecia o chá. A minha mãe arrastou-se até à porta, cheirava a verão de província.
Ao final da tarde, o Joaquim chegou à porta.
Dona Rosa, trago morangos do quintal, estão doces este ano.
Obrigada, Joaquim, venha cá dentro tomar um chá.
Na cozinha ouvi-os falar, vozes baixas, o cheiro do bolo e do manjericão.
Segurei nas chávenas e dei-me conta que, do outro lado, numa casa moderna, a Teresa escolhera a decoração certa, mas talvez não tivesse escolhido a vida certa.
Eu tinha escolhido aquilo que devia ter escolhido desde o princípio.
A escolha faz-se todos os dias, acho eu.
Fui ter com eles.
Fique a lanchar, Joaquim.
Não digo que não, Manuel.
A minha mãe sorriu, o pouco que o rosto permitia.
Sentem-se, meninos.
Sentámo-nos, e o crepúsculo entrou pelas janelas do berço onde sempre pertenci.
E não era preciso dizer mais nada.







