Arroz em vez de trufas
Eu estava em frente ao fogão, observando como, no tacho, se desmanchava lentamente aquilo em que tinha investido quase duas horas. O molho cremoso de trufa branca para o risoto de cogumelos porcini deveria estar sedoso, homogéneo, quase vibrante. Em vez disso, separara-se: a manteiga ao de cima, a base espessa em grumos no fundo.
Baixei o lume, comecei, sem pressas, a incorporar lentamente manteiga fria em pequenos cubos, mexendo em círculos a mão já fazia sozinha aquele movimento. Lá fora, a cidade escurecia, as luzes da rua acendiam-se, carros passavam pela Rua da Prata ao fundo com um rumor constante. Uma noite normal de outubro em Lisboa.
Mariana, demoras muito? Estou com fome desde as duas.
Miguel estava encostado ao portal da cozinha. Era sempre assim, não entrava, como se fosse território estranho, sempre com as mãos nos bolsos e aquela expressão no rosto que, ao fim de vinte e três anos, nunca aprendi a decifrar bem. Não era impaciência. Era outra coisa.
Vinte minutos, respondi, sem me virar. O molho está a dar luta.
Vinte minutos. Percebi.
Saiu dali. Ouvi a mola do sofá na sala e a televisão aumentar, para logo baixar quase ao mínimo. Era outro sinal. Eu conhecia todos.
O molho lá ficou aceitável. Não perfeito, mas perto. O risoto atingiu aquele ponto cremoso, quase aveludado, tão difícil de apanhar. Coloquei tudo num prato largo, finalizei com lascas finas de trufa negra que comprei, três dias antes, ao meu fornecedor habitual na feiragastei naquele pedacinho quase o mesmo que antigamente gastava num almoço inteiro com uma amiga num bom restaurante.
Pus a mesa, acendi velasnão pela romanceira, mas porque a luz das velas torna a comida mais bonita; e eu pareço menos cansado, com as rugas disfarçadas junto aos olhos.
Miguel sentou-se, agarrou no garfo, olhou longamente para o prato.
Risoto outra vez, disse por fim.
Pediste uma coisa com cogumelos.
Queria algo com cogumelos, não tinha de ser risoto. Comi risoto no restaurante do Hugo na semana passada. Ele tem chef, a sério. Difícil comparar.
Sentei-me à frente dele com o meu prato.
Prova primeiro.
Ele provou. Mastigou devagar, com ar de crítico gastronómico.
O arroz está um pouco passado demais.
Está no ponto. Al dentecomo deve ser.
Para ti talvez isso seja o certo. Está bem.
Comemos em silêncio. Eu fitava as velas. Ele mantinha aquele olhar enigmático para o prato. Lá fora, Lisboa fervilhava, sem saber de nada sobre risotos.
O molho está um bocado gorduroso, disse ele quando quase terminou.
Não respondi.
Perguntas porque digo isto? Porque sou sincero. Tu queres evoluir como cozinheira, não só palmadinha nas costas.
Eu não perguntei, retorqui.
Pois devias.
Levantei a loiça, lavei pratos, raspei os restos espessos do molho caro, trufadoque me valeu o mesmo que um bom perfume, e me obrigou a refazer tudo três vezes só para ficar bem. Estudei tudo num livro de técnicas francesas que comprei num curso em Lisboa, custou-me quase cem euros. Trouxe os ingredientes em recipientes próprios pela cidade, para não se estragarem.
Gorduroso.
Apoiei as mãos na banca e fixei o cano onde a água sumia. Sequei as mãos, apaguei a luz da cozinha, fui para o quarto.
Era só mais uma noite.
***
A Dona Amélia, minha sogra, veio no sábado às três, como sempre. Ligava uns quarenta minutos antes, dava tempo para arrumar a sala e fazer algo para o chá. Destes que reparam na desarrumação mas nunca dizem nada diretamenteapenas vagueiam o olhar sobre o parapeito.
Era já septuagenária, pequena, esguia, com um porte erecto que envergonharia qualquer mulher de metade da idade. Perdera o marido há seis anos e não aceitava sair do seu T1 em Campo de Ourique, apesar de todos os apelos do Miguel. Eu nunca insisti. Sabíamos os dois isso, mas nunca o dissemos.
Nesse sábado apareceu mais pálida do que o costume. Notei logo ao abrir a porta.
Entre, Dona Amélia. Fiz um bolo de noz.
Obrigada, Mariana. O Miguel está?
Foi ter com o Hugo. Só à noite.
Ela acenou e, desta vez, seguiu para a cozinhanunca acontecia: normalmente ia para a sala, para a poltrona favorita junto à janela.
Deitei chá, cortei o bolo. Sentámo-nos frente a frente.
Como se sente? perguntei.
Bem. A tensão um bocadinho alta. Nada de grave.
Agarrou um pedaço de bolo, mordeu um nadinha.
Está bom, disse ela, tão simples e caloroso que senti um nó na garganta.
Ficámos em silêncio. A Dona Amélia bebia o chá em golinhos, olhava a rua, as árvores já quase nuas no fim de outubro.
Mariana, posso perguntar-te uma coisa? disse, por fim. Não te zangas?
Vou tentar não me zangar.
Fitou-me. Longamente.
Ainda te lembras que eras designer?
Não esperava.
Lembro.
Boa designer?
Diziam que sim.
Eu sei que sim. Eu vi os teus trabalhos. Tens presente aquele projeto no Príncipe Real, para os médicos? Fui lá uma vez. Lindo. Pensei: eis quem sabe ver espaço.
Olhei-a, confuso.
Onde quer chegar, Dona Amélia?
Pousou a chávena com aquele cuidado de quem sempre teve de evitar fazer ruído, evitar qualquer movimento em falso.
Para dizer que me envergonho, soltou num sussurro.
Não soube responder. Nunca a ouvira dizer tal coisa. Vinha de um tempo em que não se falava estas coisas.
Devia ter dito isto antes. Muito antes. Talvez quando largaste o emprego. Mas fiquei calada. Achei que não era da minha conta. Que talvez tu quisesses assim. Que fosse o destino.
Olhou as mãos apoiadas na mesa. Lindas mãos, mesmo envelhecidas.
O Miguel não gosta de comida complicada.
Pensei que tinha ouvido mal.
Perdão?
Não gosta. Nunca gostou. Desde novo, tem o estômago sensível, Mariana. O gastroenterologista recomendou-lhe há trinta anos comer simples: arrozes, sopas, carne cozida. Arroz com frangoé o favorito desde criança. Simples arroz branquinho, frango com manteiga. Podia comer todos os dias.
O silêncio tomou conta da cozinha. Só o frigorífico zumbia, distante.
Então porque é que, comecei eu, com voz estranha, que não me reconhecia,
Porque pedia foie gras, trufas e reclamava dos molhos concluiu por mim. Sim.
A Dona Amélia levantou o olhar. Havia qualquer coisa ali que me gelou por dentro. Não era raiva. Nem pena. Era algo mais velho e pesado.
Porque gostava do processo. De te ver a empenhar-te. A consumir tempo, dinheiro, energia, para depois ficar à espera da palavra dele. Gostava de dizer que não era suficiente. Isso dava-lhe uma sensação de importância.
Pousei a chávena devagar.
Sabe o que está a dizer?
Sei. Pensei muito antes de me sentar contigo. Sei exatamente.
E calou-se dez anos.
Estive calada trinta e oito anos, Mariana. Desde que o António começou a fazer igual comigo.
O António, marido dela e pai do Miguel, mal o conheci; morreu pouco depois de eu casar. Era um homem volumoso, falador, sempre com boas maneiras em público.
Era um gourmet, disse ela, e o tom guardava certa amargura embrulhada num véu de paz. Eu também cozinhava, esforçava-me. Ele queixava-se sempre: molho gorduroso, carne seca. Um dia vi-o comer arroz e frango na casa da mãe, na aldeia: três pratos cheios. Com manteiga. E pão caseiro. Nem uma crítica. Só silencio e alegria.
Fiquei ali, ouvindo. Ao fundo, a chuva começou miudinha.
Só aí percebi, mas não saí. Outros tempos. O Miguel cresceu a ver. Viu que se podia controlar assim. E fez igual.
Foi de propósito disse eu. Não era pergunta.
Não acho que ele pensasse: agora vou humilhar a mulher. Só vivia como aprendeu. Só sabia sentir-se certo e necessário à custa do outro.
Levantei-me. Não ia sair dali; apenas não dava para continuar sentado. Fui até à janela, olhei a rua molhada de Campo de Ourique, as pessoas com guarda-chuva.
Dez anos.
Dez anos a frequentar cursos de culinária primeiro básicos, depois avançados, depois os franceses e italianos. Lia livros, via vídeos, trocava mensagens com chefs. Ia à Feira da Ladra por ingredientes específicos. Escolhia vinhos. Pensava em combinações. Às vezes acordava no meio da noite com uma ideia para um molho.
Achava que era a minha nova profissão. Novo talento. Que se largara o design, encontrara outra paixão.
E ele só queria arroz, no fundo.
Porque me diz isso agora? perguntei, sem virar.
Porque sou velha, respondeu ela, muito calmo. E tu ainda és nova. Tens cinquenta e dois. Isso, Mariana… acredita, é quase início de vida.
Virei-me. Olhou-me de frente. Sem pena. E isso era o importante.
E porque, murmurou, sou culpada. Não de propósito. Criei-o assim. Não ensinei outro caminho. Limitei-me a viver de acordo com o que sabia, e ele achou que era normal. Culpa minha. Mas posso dizer a verdade.
Voltei à mesa, sentei-me, peguei no chá já frio.
Ele não muda, avisou ela. Não digo o que deves fazer. Mas tens de saber.
Acabámos o chá, quase sem palavras. Depois ela vestiu o casaco, ajudei com os botõesjá lhe tremeram às vezes os dedos.
O bolo de noz estava mesmo bom, disse-me ao sair.
Obrigada.
Simples. Caseiro. O melhor bolo que me fizeste.
Saiu. Fiquei um tempo à entrada, a contemplar o cabide com os casacos do Miguel.
***
Duas semanas seguintes, cozinhei o mesmo de sempre. Inércia, puro automatismo. Fiz terrina de pato, sopa de lagosta para a qual fui ao Mercado da Ribeira de propósito. Sobremesa com técnica japonesa que aprendi esta primavera.
Miguel comia. Criticava. Eu escutava em silêncio.
Mas alguma coisa se partira. Era como um vidro entre mim e os acontecimentos. Via-me de fora: eu em frente ao fogão, a raspar limão, a deitar açafrão, a levar o prato e a esperar. Esperava. Miguel ainda não tinha dito nada, só olhava o prato. Percebi finalmente o prazer: não o da comida, mas o de criar aquela tensão antes da crítica. Aquela expressão quase infantil, de quem brinca ao puxar um fiozinho.
Lembrei-me dos projetos de design: chegava ao espaço, via logo tudo feito, era só executar. Conversava com clientes, ouvia o dito e o não dito. Adorava quando eles entravam na sala acabada e se detinham, admirados.
Tinha um pequeno ateliê na Rua do Alecrim, alugava com outros dois designers. Café mau da máquina barata, discussões sobre tons de parede até à meia noite.
Miguel dizia que não era profissão a sério. Que era hora de escolher: família ou obras. Que ele ganhava bem, eu não precisava de trabalhar, os clientes eram difíceis e que em casa também devia estar alguém.
Escolhi a família. Tinha quarenta e dois anos. Achei que ainda voltaria, mais tarde.
Passaram-se dez anos.
Peguei no telemóvel, escrevi à Inês Matos. Trabalhámos juntos, ela agora tem o escritório próprio de design. Ia-lhe mandando mensagens de parabéns, ela respondia, pouco mais.
Inês, tudo bem? Queres combinar um café?
Respondeu meia hora depois.
Mariana! Claro, adorava ver-te. Amanhã podes?
***
Sentámo-nos num café da Rua Garrett. A Inês quase igual, só agora um corte de cabelo mais curto, alguns fios prateados que ela nem disfarçava e que lhe assentavam bem.
Estás bem! disse ela.
Mentes mal ripostei.
Riu.
Ok, tens ar cansado. Mas bom.
Pedimos café. Fiquei calado, olhando para a rua.
Inês, tens trabalho para mim? A sério.
Observou-me.
A sério?
Muito.
Não trabalhaste estes dez anos, Mariana.
Eu sei. Mas não esqueci. Acho.
Inês ficou um tempo a mexer a chávena.
Tenho três projetos. Um grande, numa vivenda em Cascais. Preciso de mais duas mãos e cabeça. Só te digovais começar tipo estagiária. Não por seres pior, mas porque os softwares mudaram, o mercado mudou, os clientes são outros. Pronta para isso?
Pronta.
E salário?
Ao início, o que puderes.
Fitou-me mais uns segundos. Decidiu.
Vem na segunda. Logo vemos.
Na segunda-feira arranquei. Três semanas de nove às sete, todos os dias. Aprendi programas novos. Reaprendi o resto. Por vezes errava estupidamente e tinha ganas de desistir. Mas recuperava. Como regressar à natação: o corpo lembra, ainda que a cabeça não.
Em casa, comecei a fazer arroz.
Da primeira vez foi por acaso, até achei graça. Cheguei tarde, exausto. Só pensava em dormir. Abri o frigoríficoingredientes caros para algum prato complicado da semana passada. Fechei. No armário: arroz. Uma lata de grão. Manteiga.
Fiz arroz branco, misturei com atum e manteiga. Pus o prato na mesa. Chamei o Miguel.
Olhou incrédulo para o prato.
O que é isto?
Arroz com atum.
Vejo que é arroz. Está tudo bem?
Estou cansado. Amanhã faço algo diferente.
Sentou, pegou na colher. Esperei.
Comeu sem palavra. Até ao fim.
Olhei para ele, a lembrar-me do que Dona Amélia dissera. A aldeia, as três travessas, a manteiga. Um homem, finalmente em casa.
Miguel levantou-se, saiu. Não disse nada. Nem bem, nem mal.
Talvez a primeira resposta verdadeira.
***
O diálogo aconteceu duas semanas depois. Voltava do trabalho, pensava nas cores para o projeto de Cascais enquanto subia o elevador. Entrei, tirei os sapatos. Da sala, a televisão.
Onde tens andado? Miguel, nem olhando.
No escritório.
Outra vez aquela Matos.
É o meu trabalho, Miguel.
Desligou a televisão, fitou-me.
Mariana. Não foi isto que combinámos.
Que não combinámos?
Que andasses todo o dia fora não se sabe onde. Temos família. Casa. Não há nada para comer. O frigorífico está vazio.
Há ovos, batatas, fiambre. Podes fritar.
Olhou-me como se falasse russo.
Estás a gozar?
Não, só te digo o que há.
E as tuas trufas? Os molhos? Disseste que sabias cozinhar.
Tirei o casaco, pendurei, larguei a mala.
Miguel, quero falar com calma. Podes?
Sobre?
Nós. Os últimos anos. O que se passa nesta casa.
Ficou tenso. Ombros, olhos.
O que se passa? Trabalho, tu estás em casa.
Agora não estou só em casa. Não vou voltar a estar.
Decidiste. Sem falar comigo.
Estou a tentar falar agora.
Levantou-se, foi à janela, voltou.
Mariana. Não percebo o que se passa. Eras normal. Família normal. Tu cozinhavas, eu comentava. Era a nossa vida, percebes? Nossa.
Tua vida, Miguel. Não minha.
Pronto, lá está! Falaste com a minha mãe, não foi? Sabia. Veio cá, encheu-te de coisas.
Olhei-o bem vinte e três anos juntos. A casa que herdou dos pais, onde eu nunca me senti dona. Tudo era dele: tetos altos, paredes, mobília escolhida ainda antes de eu entrar na vida dele. Nunca mexi em nada, apesar de ver tudo de outra maneira. Eu era designer.
A tua mãe disse-me a verdade, declarei. Só a verdade.
Que verdade? Que é uma velhota dada a dramas?
Que gostas de comida simples. Que tens o estômago fraco. Que sempre preferiste arroz com frango.
Pausa.
Pequena, mas houve.
Isso não é verdade, murmurou.
Comeste sem uma queixa há duas semanas.
Porque tinha fome!
Miguel, pedi. Pára. Só por um segundo.
Ele estacou. Olhou para mim.
Não quero discutir, disse. Quero apenas uma conversa sincera. Quero perguntar-te: estás pronto? Para viver de outra forma? Não como nos últimos dez anos?
Hesitou. Algo nos olhos, quase real.
De outra forma? Como?
Como iguais. Os dois trabalham. A comida pode ser simples ou elaborada, mas não há humilhação. Falamos de verdade, sem jogos.
Silêncio comprido.
Nunca te humilhei, disse ele, baixinho. Só fui honesto.
Miguel.
O quê?
Um homem honesto que fingiu que não gostava de arroz enquanto eu gastava tempo e dinheiro em trufas.
Silêncio.
Isso não foi honesto, acrescentei. Não por maldade. Apenas factual.
Não respondeu. Foi para o quarto. Fechou a porta sem estardalhaço. Só fechou, manso.
Cozinhei batatas fritas. Comi sozinho, na mesa da cozinha. Fiquei depois algum tempo com uma chávena de chá, ouvindo-o andar no quarto.
***
Os meses seguintes foram como o degelo lento. Nada de dramático, cinematográfico. Apenas, dia a dia, um pedaço do passado ia-se libertando.
Miguel tentou de tudo.
Primeiro, ficar ofendido. Dias de cara de cão, à espera que eu pedisse desculpa. Não pedi. Cozinhei sopas, bifes, batatas. Arrumava a casa, ia trabalhar. Voltava.
Depois, ternura. Um dia trouxe florestúlipas em novembro, compradas no metro, visivelmente. Disse que sentia saudades, sugeriu irmos juntos a um restaurante. Aceitei. Jantámos, foi simpático, interessado, conversador. E pensei: talvez haja esperança.
No dia seguinte, perguntou porque não fiz algo especial para receber os amigos. Como quem pergunta a hora.
Faço massa com salada, disse eu.
Massa?
Sim, massa.
A sério?
Completamente.
Vi a expressão dele. Aquela, agora via claramente. E nem percebia que já percebia.
Depois vieram as discussões. Verdadeiras, com gritos, a lista de tudo o que fez por mima casa, o dinheiro, o permitir que eu fizesse culinária. Tudo como investimento não retribuído.
Investiste, disse-lhe serenamente. Mas eu não sou uma fábrica. Sou pessoa. Investimentos em pessoas funcionam diferente.
Ele não percebeu. Ou não quis.
A Dona Amélia ligava-me toda semana. Discreta. Às vezes dizia só força, és uma mulher de coragem. Um dia:
Ele está zangado comigo, não está?
Um pouco.
Que fique. Tem direito. Mas lembra: estou do teu lado. Pela primeira vez na vida estou do lado de alguém. Nunca tive isso antes.
Eu entendi.
Em dezembro, a Inês deu-me o primeiro projeto só meu. Pequeno, num T2 em Campo de Ourique, casal jovem. Eu tinha de criar conceito e acompanhar até ao fim. Andei noites sem dormir, não de medo, mas de pensar que talvez tivesse desaprendido.
Não tinha.
A cliente, uma mulher de trinta, entrou na sala acabada, ficou imóvel trinta segundos. Depois:
É magia.
Eu reconhecia aquela sensação.
***
Em fevereiro percebi que não sairíamos disto. Não por falta de vontade. Eu tentei. Falei. Não fugi para casa de amigas nem liguei ao advogado, mas lia, cada vez mais, artigos sobre relações tóxicas, reconhecendo recantos. Fui ficando, tentando construir algo novo sobre escombros.
Mas Miguel não queria o novo.
Queria que eu voltasse. Não a mim, mas àquela mulher da cozinha, à espera do veredito. Não queria uma esposa. Queria um espelho.
Como perceber que alguém manipula? Isso. Quando o que desejam não é a tua felicidade, sucesso, alegria, mas a tua espera do aplauso. Sem isso, não sabem quem são.
Miguel não era mau. Não bebia, não batia, dava dinheiro, não traía (que eu soubesse). Amava à sua maneira. Mas viver com ele era impossível. Não pela dor, mas pelo encolhimento constanteperder forma, esquecer quem se era.
Pedi o divórcio em março.
Ao princípio não acreditou. Depois tentou convencer-me. Ficou furioso. Depois voltou a tentar convencer. A Dona Amélia foi falar com ele, não sei o que disse, mas saiu dali apagado. Não resignado. Só frio e distante.
A casa era dele sempre foi. Mudei-me para casa da Sofia, amiga com um quarto disponível. Três meses depois consegui alugar um pequeno apartamento na Graça. Dois quartos, janela para uma rua antiga de Lisboa, menos glamourosa que a Prata, mas viva, autêntica.
Fiz eu próprio as obras. Simples, só pinturas e detalhes, mas escolhi tudo com tanta alegria que até estranhei. Afinal, eu sabia o que queria. Só nunca me perguntara.
***
Passou um ano.
Agora é abril. Tenho cinquenta e três. Da janela da minha casa na Graça vejo flores brancas nas árvores da rua, não sei o nome, mas todos os dias olho, enquanto faço café.
Café simples, na cafeteira. Bom grão, sem rituais.
A Inês tornou-me sócio do estúdio em janeiro. Temos quatro projetos, dois a meu cargo. Voltei a dormir descansado. Acordo, às vezes, a pensar em luz, em espaços, mas são bons pensamentos. É o cérebro a funcionar, não a ansiedade.
A Dona Amélia liga todas as semanas. Há pouco fui a casa dela, levei-lhe um bolo. Ficámos horas à conversa, ela falou do marido, dos tempos em que calou tudo. Eu pensava em traumas de geração, como vidas amargas ensinam as outras a ser iguaisaté alguém dizer basta.
Ela não conseguiu parar. Mas ajudou-me a parar a mim. Já é muito.
Miguel ficou na antiga casa. Às vezes trocamos mensagens práticas, pouco mais. Ouvi que agora frequenta aulas de culinária. Não sei se será verdade. Talvez. As pessoas mudam quando não há mais ninguém para manipular.
Não penso muito nele. Às vezes lembro. No supermercado, vejo uma trufa negra num pote, fico um instante a meio caminho entre o riso e o amargo. Dez anos, não se esquecem assim.
Mas não fico preso.
Conheci o Manuel em setembro passado. Veio como cliente, quis renovar a casa depois da morte da esposa. Ela falecera há dois anos, cancro, rápido. Casa antiga, carregada de retratos. Ele pediu para não retirar nenhum, só queria tornar o espaço mais luminoso, arejado.
Compreendi. Tinha cinquenta e quatro anos. Engenheiro de pontes. Pensei nisto algumas vezes: ele constrói pontes, eu espaços. Tem algo de bonito.
É sereno. Não é calado, é sereno. Fala francamente, olha nos olhos. Ri quando tem graça. Não tenta parecer mais do que é.
Na segunda reunião convidou-me para um café.
Fomos ao café. Depois a passear. Depois outro café. Fomos ao cinema, um filme francês, riu-se baixo algumas vezes. Senti como era bom ter alguém vivo ao lado.
Andamos há uns meses. Sem pressas. Já vivemos bastante para saber.
Às sextas, vem cá.
***
Hoje é sexta-feira.
Cheguei às seis, desfiz sacos das compras. Comprei coxas de frango, batata, cebola, cenoura. Salsa. Nata.
Das coxas de frango e legumes faz-se um belo assado. Não é propriamente uma empada. São camadas de batata, frango, cebola, cenoura, por cima natas, forno durante uma hora. Depois salsa.
Faço isto quando quero preparar algo caseiro. Não sofisticado. Só caseiro.
Enquanto assava, fui-me vestir e o cheiro enchia o apartamento. Cebola a alourar, frango, um toque de alho. Aroma igualzinho ao da casa da minha avó na infância. Não havia pensado nisso há décadas.
Sete em ponto, tocou o intercomunicador.
Abri a porta. O Manuel entrou, colocou um saco no chão. Vi uma garrafa de vinho.
Olá, disse ele.
Olá. Que cheiro é este?
Farejou o ar.
Cheiro bom. Batata?
Assado. Mais uma horinha.
Ótimo, sorriu. Tirou o casaco. Trouxe vinho. E isto, vasculhou, vejam.
Tirou uma caixinha de bombons simples, chocolate de leite com avelãs. Daqueles de supermercado.
Gostas com avelã, disse ele.
Peguei na caixa.
Como sabes?
Disseste uma vez. Em setembro, acho que foi, ao passarmos numa pastelaria.
Fiquei a olhar para a caixa, a pensar em coisas demasiado grandes para palavras.
Tu lembras-te dessas coisas, disse.
Tento, respondeu, sincero. Só isso.
Fomos para a cozinha. Abri o forno, verifiquei o assado. Mais um pouco. Ele abriu o vinho, encheu dois copos, sentou-se à mesa.
O projeto vai bem? perguntou. Aquela casa do Chiado?
Cliente exigente, confessei. Quer tudo e barato.
Já me aconteceu.
Mesmo assim, vai sair bonito. Tectos tão altos merecem um bom projeto.
Ele assentiu. Viu-me mexer algo no fogão.
Mariana, disse ele.
Sim?
És feliz? Neste momento. Não em geral, agora.
Levantei o olhar. Falava sério, sem máscaras.
Agora… fui ouvir-me. Agora sou.
Ainda bem, respondeu. E ficou por aí.
O assado ficou pronto. Descansei cinco minutos, deitei salsa por cima. Pus na mesa. Nada de velas, só a luz da cozinha.
O Manuel olhou o prato.
Está bonito, disse.
É só um assado.
Cheira muito bem. E está bonito. Não sabes cozinhar mal?
Sorri.
Nunca tentei.
Comemos. Ele pediu mais, só estendeu o prato, sem comentários. Enchi. Falámos de tudo: trabalho dele, os planos de visitar a filha em Braga, eu com vontade de ver o Gerês no verão. Sugeriu irmos à Galiza, é calmo.
No fim, chá. Bombons de leite.
Lisboa, pela janela, tremia de vida: cheiro a asfalto húmido, árvores brancas a balançar.
E pensei: é isto. Não festa. Nem feito. Só um serão comum. Uma pessoa viva ao lado, comida que sabe à infância, e nenhum momento de espera por palavras.
Penso por vezes nos anos passados. Nas trufas, no bisque de lavagante. Nos tachos com molhos separados. Quanto me esforcei para ouvir: “gorduroso”. Dá pena. Do tempo, de mim, daquela mulher que não percebia. Mas nem a pena é coisa que me detenha agora.
Autoestima feminina li assim numa frase qualquer. Como se fosse coisa de nascer: ou se tem, ou não, como altura ou cor dos olhos. Mas não; constrói-se. Às vezes desaba. Às vezes começa-se de novo aos cinquenta e dois, numa mesa de ateliê, sem dominar o novo software mas sem desistir. E de repente vês o espaço outra vez.
Limites pessoais expressão na moda. Não sou de modas, mas agora entendo: é saber onde acabamos, onde começa o outro. Não é muro. É simplesmente saber: isto sou eu. Isto é meu.
Receita da felicidade é provavelmente simples. Fazer o que se sabe, estar com quem vê, cozinhar o que se gosta. Não esperar o veredito.
Em que pensas? perguntou o Manuel.
Olhei-o rosto sereno, chá quente nas mãos.
No assado, sorri.
Riu:
Ótimo tema.
O melhor, disse eu. Queres mais chá?
Quero, sim.
Servi-lhe. Servi-me. Pousei o bule. Olhei a rua com árvores brancas.
Manuel.
Sim?
Nunca vais dizer que pus sal a mais, pois não?
Ele levantou os olhos.
Não puseste. Estava ótimo.
E se um dia puser?
Pensou um pouco.
Digo: da próxima pões menos” e como tudo.
Assenti.
Boa resposta.
Tento, replicou, pegando o último bombom. Posso?
É teu.
As árvores balanceavam lá fora, Lisboa murmurava cidade imensa, indiferente aos pratos, molhos, trufas, arrozes; ao tempo perdido ou ao que resta. Só continuava a viver. E eu também. O chá estava quente, o cheiro do assado pairava na cozinha pequena, a planta nova no parapeito fora comprada porque gostei da cor.
Só por isso.
Comprei-a.
É assim que vivo agora.







