Certa manhã, trouxe para o trabalho um cãozinho abandonado… Foi totalmente ao acaso. Encontrei o p…

Hoje foi um daqueles dias inesperados e curiosos. Nunca imaginei começar o expediente trazendo comigo um cachorro abandonado, mas foi exatamente isso que aconteceu. Faltavam uns cinco minutos para o início do meu trabalho, quando me deparei com um pequeno cãozinho, magro e sujo, filho de alguma rafeira qualquer. Tomei a decisão de trazê-lo para o escritório, pensando que conseguiria escondê-lo discretamente num canto. Pura ilusão o bicho, teimoso e manhoso, não parava quieto: saía do esconderijo, gania baixinho, abanava a cauda, chamando a atenção de toda a gente.

Foi o suficiente para que todos os meus colegas se apercebessem da sua presença, e, de repente, aquilo que eram máscaras sociais começaram a cair à minha volta.

Veja-se a Dona Mafalda Rodrigues, a secretária do departamento. Sempre me pareceu uma senhora simpática, atenciosa, com aquela jovialidade própria dos que sabem cativar todos à sua volta. Mas, ao ver o cãozinho, fez uma careta esquisita, meio desconcertada, pintada de repulsa: Ó Eduardo Carvalho! Como é que tem coragem?! Olhe a porcaria que anda a espalhar… Aquela máscara colorida, de simpatia e boa disposição, desfez-se no chão, próxima do cachorrinho que, inocente, continuava a abanar o rabo, sujo mas feliz.

Depois veio a Dona Lourdes Ferreira, a empregada de limpeza, que costumo encontrar sempre com um ar cansado, resmungão, como quem carrega as dores do mundo. Mas, ao ver o cão, os seus olhos brilharam, e de repente sorriu, um sorriso sincero, quase de menina: Ai, quem é este fofinho de quatro patas? Seu Eduardo, isto é visita de trabalho ou está a pensar em adotar? No chão, a sua máscara de azedume ficou amarrotada, e ali estava ela, a mostrar a ternura de uma alma boa.

O meu colega Henrique Soares, por sua vez, surpreendeu-me de outro modo. Sempre dado a todos, prestável, capaz de arrancar risadas até nas segundas-feiras mais cinzentas, foi o único que nem entrou direito no meu gabinete. Franziu o nariz, olhou-me de esguelha e largou: Animais assim são um perigo, só trazem pulgas e doenças… A máscara sorridente que usava caiu junto à ombreira da porta, revelando uma frieza inesperada.

Mas foi o senhor diretor, o doutor Jorge Matos, que mais me deixou perplexo. Sempre rígido, quase nunca sorria, parecia feito de pedra. Aproximou-se, olhou o cão, olhou para mim e, sem rodeios, sentenciou: Ó Eduardo, deve estar a precisar de um dia de folga. Leve o cachorro, vá para casa descansar. O trabalho pode esperar, há coisas mais importantes. Mas faça-me um favor: não deixe o bicho ao abandono, está bem? No fundo, também sente E, num raro gesto de humanidade, sorriu-me de forma tímida, despindo cuidadosamente a armadura do chefe intransigente, antes de se afastar.

No final desse dia, ao olhar para o chão, via as máscaras dos que me rodeiam todos os dias: algumas bem arrumadas, outras partidas, todas inúteis perante a simplicidade de um pequeno cão perdido. Fiquei a pensar: afinal, quanto pouco conhecemos aqueles com quem convivemos a vida inteira?

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Certa manhã, trouxe para o trabalho um cãozinho abandonado… Foi totalmente ao acaso. Encontrei o p…
Estás a Transformar o Teu Filho num Fraco – Porquê pô-lo nas aulas de música? Dona Lurdes passou pela nora tirando as luvas. – Olá, Dona Lurdes. Entre, por favor, é um prazer vê-la. O sarcasmo não tocou a sogra, que atirou as luvas para a cómoda e virou-se para Maria. – O Rui contou-me ao telefone. Está radiante, disse — vou tocar piano! Isso é coisa de rapaz? Queres fazer dele menina? Maria fechou a porta devagar, a conter-se para não gritar. – Significa que o seu neto vai estudar música. Ele gosta muito. – Gosta! – Dona Lurdes bufou como se Maria dissesse um disparate. – Tem seis anos, não sabe do que gosta. És tu quem deve guiar. Rapaz, herdeiro, meu neto – o que estás a criar dele? A sogra foi para a cozinha, ligando a chaleira. Maria seguiu, maxilares cerrados. – Quero criar um filho feliz. – Estás a criar um molengão! Devia ser futebol! Judo! Para ser homem, não… Piano! Maria encostou ao ombral e contou até cinco. Não adiantou. – O Rui pediu. Pessoalmente. Ele adora música. – Adora! – a sogra desdenhou. – O Sérgio com a idade dele jogava à bola na rua! E o teu só as suas escalas? Que vergonha! Algo partiu dentro de Maria. Aproximou-se da sogra. – Já acabou? – Não acabei! Já queria te dizer… – Eu também queria dizer, – Maria baixou a voz – O Rui é MEU filho. E é a mim que cabe decidir como criá-lo. Não admito intromissão. Dona Lurdes corou de fúria. – Tu… como é que falas comigo?! – Saia. – O quê?! Maria pegou no casaco da sogra e deu-lho. – Saia da minha casa. – Estás a pôr-me na rua?! Eu?! Maria abriu a porta, agarrou o braço da sogra e levou-a até à saída. Dona Lurdes resistiu, mas Maria foi mais firme. Empurrou-a para fora. – Hei de conseguir! – Dona Lurdes gritou, furiosa. – Não deixo que estragues o meu neto! – Adeus, Dona Lurdes. – O Sérgio vai saber de tudo! Maria fechou a porta, recostou-se, expirou devagar. Continuaram a ouvir-se gritos abafados, depois passos na escada. Silêncio. A sogra esgotou-lhe a paciência – sempre a criticar, a dar conselhos, a ditar regras. O Sérgio desculpava: “A minha mãe só quer o melhor”, “Tem experiência”, “O que custa ouvi-la?”. Ele idolatrava-a. Maria aguentava, dia após dia, visita após visita. Mas não hoje. Sérgio chegou perto das oito. Maria ouviu a fechadura, soube que a sogra já lhe telefonara: o gesto brusco com as chaves, o andar pesado até à cozinha, sem olhar para o filho Rui que via desenhos animados. – Rui, querido, senta-te aqui – Maria pôs os auscultadores e ligou o desenho favorito. – Vou falar com o pai. Rui acenou, Maria fechou a porta do quarto e foi à cozinha. Sérgio estava à janela, braços cruzados. Nem se virou. – Expulsaste a minha mãe. Nem perguntou. Constatou. – Pedi que fosse embora. – Atiraste-a pela porta! – Sérgio soltou, tenso. – Chorou duas horas ao telefone! Duas horas, Maria! Maria sentou-se, exausta. – Não te preocupa que ela me tenha ofendido? Sérgio hesitou. Depois encolheu os ombros. – Ela só se preocupa com o neto. Qual o mal? – Chamou o nosso filho de molengão. Um menino de seis anos. – Exagerou, mas a minha mãe tem razão. O Rui precisa de desporto. Espírito de equipa… Maria olhou-o longamente, até ele baixar o olhar. – Obrigaram-me a fazer ginástica na infância. Cinco anos, Sérgio. Cinco anos a chorar antes dos treinos. Sofria, magoava-me, implorava para sair. Sérgio calou-se. – Até hoje não posso entrar num ginásio. Não desejo isso para o meu filho. Se ele quiser futebol, ótimo. Mas só se ELE quiser. Sou contra obrigar. – A minha mãe só quer o melhor… – Então que tenha outro filho e o crie como quiser – Maria levantou-se. – Não admito intromissões, nem dela nem tu, se estiveres do lado dela. Sérgio ia responder mas Maria já saíra. Não falaram o resto da noite. Maria adormeceu Rui e ficou tempo a ouvi-lo respirar. Dois dias em silêncio. Sérgio fez uma graça ao jantar, Maria sorriu — o gelo começou a quebrar. Na sexta-feira já conversavam, mas evitavam falar da sogra. No sábado Maria despertou cedo — oito horas, cedo de mais para o fim de semana. O que a acordara? Depois ouviu o clique metálico na porta. Alguém a abrir. Maria foi ao corredor, coração a saltar — ladrões? Em pleno dia? A porta abriu. Era Dona Lurdes, com um molho de chaves, a sorrir vitoriosa. – Bom dia, minha querida. Maria descalça, de pijama, viu a sogra a entrar como dona da casa. – Onde arranjou essas chaves? Dona Lurdes acenou com elas. – O Sérgio deu-mas. Veio cá, pediu desculpa e deu. Para eu poder ver o neto, já que me barraste a entrada. Maria piscou, tentando processar. – O que faz aqui? A esta hora? – Vim buscar o Rui. Inscrevi-o no futebol, hoje é dia de treino! A raiva fez Maria disparar para o quarto. Sérgio fingia dormir — Maria viu os ombros tensos. – Levanta-te! – Maria, não agora… Arrancou-lhe o lençol e levou-o pela mão até à sala. Dona Lurdes já se sentara no sofá, folheando uma revista. – Deste-lhe uma chave – Maria parou no meio da sala, segurando o pulso do marido – Da MINHA casa. Sérgio calou-se, embaraçado. – Esta casa é minha, Sérgio. Comprei antes de casar, com o meu dinheiro. Como pôde dar uma chave à sua mãe? – Muito mesquinha! – Dona Lurdes lançou a revista. – Só pensas em ti! O Sérgio pensou no filho, por isso deu. Para eu estar com o neto, já que me proíbes de entrar. – Cale-se! A sogra engasgou de choque. Maria só olhou o marido. – O Rui não vai ao futebol. A não ser que queira. – Quem decide isso não és tu! – a sogra levantou-se. – Tu não és nada! Só estás de passagem na vida do meu filho! Achas que és única? O Sérgio só te atura por causa do menino! Silêncio. Maria virou-se lentamente para o marido, de cabeça baixa. – Sérgio? Nada. Nem uma palavra para a defender. – Muito bem – Maria acenou. Um estranho frio apoderou-se dela. – Se sou passageira, esse caminho acaba aqui. Fique com o seu neto, Dona Lurdes. Já não é meu marido. – Não tens coragem! – a sogra empalideceu. – Não tens direito! – Sérgio, – Maria em voz baixa – Tens meia hora. Arruma as tuas coisas e vai. Ou eu ponho-te fora em pijama, não me ralo. – Maria, espera… – Já conversámos. Virou-se para a sogra com um sorriso torto. – Pode ficar as chaves. Hoje troco as fechaduras. …O divórcio demorou quatro meses. Sérgio tentou voltar, telefonou, trouxe flores. Dona Lurdes ameaçou tribunal, pensões, contactos. Maria contratou um bom advogado e nunca mais atendeu. Passaram dois anos depressa… …No auditório da escola de artes, Maria sentada na terceira fila, apertava o programa: «Rui Silva, 8 anos. Beethoven, Ode à Alegria». O Rui entrou em palco, sério, concentrado, na camisa branca e calças pretas. Sentou-se ao piano. As primeiras notas encheram o auditório e Maria deixou de respirar. O seu filho tocava Beethoven. O seu filho de oito anos que pediu para ir para música, que praticava horas seguidas, que escolheu esta peça para o concerto. Quando tocou o último acorde, o público aplaudiu como nunca. Rui levantou-se, curvou-se, procurou a mãe e sorriu — aberto, feliz. Maria bateu palmas com todos, sentiu lágrimas a escorrer pelas faces. Tudo certo. Fez tudo certo. Pôs o filho acima de tudo — acima das opiniões, do casamento, do medo. Assim é ser mãe…