Estás a ver, Joana, a mensagem que te quero deixar nem sei por onde começar, ficou-me a pairar desde sábado, por isso tenho de te contar.
Ó Vânia, porque é que inscreveste o miúdo no conservatório? Dona Amélia, a mãe do Pedro, entrou no corredor já a despir as luvas, com aquele ar de sargento, sabes? Nem bom dia me deu.
Olá, Dona Amélia! Entre, por favor. Que alegria vê-la disse eu, mas ela ignorou logo o sarcasmo e lançou as luvas para cima do aparador, depois virou-se para mim cheia de pose.
O Pedro ligou-me ontem, todo contente, diz que vai aprender piano! Achas isso normal? Daqui a nada está um frouxo, parece uma menina…
Fechei a porta da entrada devagar, a controlar-me para não lhe gritar logo ali. Respirei fundo.
Só quer dizer que o seu neto vai aprender música. Ele adora.
Adora bufou ela, como se eu tivesse dito o maior disparate do mundo. Ele tem só seis anos, nem sabe o que quer. És tu que tens de orientar. É rapaz, meu neto, sangue da família… O que tu estás a fazer dele?
Foi direita à cozinha, sem pedir licença, já a mexer no botão da máquina de café. Segui-a, quase a morder os dentes de frustração.
Eu quero que ele seja feliz, só isso.
Feliz?! Vais fazer dele um molenga! Devias era pô-lo no futebol! No karaté! Para crescer homem! E não aí, pianista de trazer por casa!
Encostei-me ao vão da porta, contei até cinco… Não adiantou.
Ele pediu para ir, Dona Amélia. Gosta de música.
Gosta, diz ela! fez-me lembrar o meu pai quando estava irritado. O Pedro, com a idade dele, corria com a malta na rua, jogava à bola, ia ao hóquei! E o teu, vai ficar assim, a fazer escalas. Uma vergonha!
Algo cá dentro estalou. Fui-me à frente dela, já sem me conter.
Já acabou?
Nem pensar! Ainda tenho muito para lhe dizer
Olhe, também lhe digo uma coisa baixei o tom, quase sussurrei O Pedro é meu filho. Meu. E sou eu que vou decidir como o educo. Não admito interferências.
Ela ficou vermelha que nem um tomate.
Estás… Estás a falar assim comigo?!
Saia.
O quê?!
Fui buscá-la ao corredor, peguei-lhe no casaco e enfiei-lho nas mãos.
Saia de minha casa, por favor.
Estás a pôr-me na rua?!
Sim.
Abri a porta de entrada, agarrei-lhe o braço e puxei. Ela resiste, tenta fugir, mas eu insisto acabei por conseguir empurrá-la porta fora.
Vou fazer tudo para mudar isto, ouves?! Não deixo estragares o meu único neto!
Boa tarde, Dona Amélia.
O Pedro vai saber tudo! Vais ver!
Fechei a porta, encostei-me e só consegui expirar devagar, até me faltar ar.
Ficou ali um bocadinho a gritar, a resmungar; depois ouvi-a a descer as escadas. Finalmente silêncio.
Já não aguentava as críticas dela, sempre a indicar como alimentar, vestir, educar o miúdo. E o Pedro, claro, nunca via mal, dizia sempre a minha mãe só quer o melhor, tem experiência, ouve-a só um bocadinho. Era uma idolatria… cada palavra da mãe era lei. Só me restava aguentar, visita atrás de visita.
Nesse dia, acabou.
Pedro voltou do trabalho já era quase oito. Só pelo barulho a abrir a porta percebi logo: já tinha falado com Dona Amélia. Atirou as chaves contra o móvel, entrou na cozinha sem sequer passar pela sala, onde o Pedro júnior via os desenhos animados.
Pedro, amor, fica aqui um bocadinho, sim? fui até ele, pus-lhe os auscultadores grandes e lancei na tablet os robôs preferidos dele. O pai e a mãe vão conversar.
Ele acenou, coladinho ao ecrã. Fechei a porta da sala e fui atrás do Pedro sénior.
Estava encostado à janela, braços cruzados, nem me olhou.
Expulsaste a minha mãe.
Nem pergunta, só afirmação.
Pedi-lhe que saísse.
Empurraste-a porta fora! Ela passou horas a chorar ao telefone, Vânia! Horas!
Sentei-me à mesa de cozinha, as pernas já me doíam do trabalho, ainda fui levar com isto.
E não te incomoda que ela me tenha insultado?
Pedro hesitou, depois encolheu os ombros.
Só se preocupa com o neto, o que é que tem de mal?
Chamou frouxo e molenga ao nosso filho. Seis anos.
Perdeu a cabeça, acontece… Mas em parte concordo com a minha mãe, Vânia. Os miúdos têm de fazer desporto, criar espírito de equipa…
Fiquei a olhar para ele, sem dizer nada, até baixar o olhar.
Eu fui forçada a fazer ginástica quando era miúda. A minha mãe decidiu: vais ser ginasta. Foi cinco anos infelizes, Pedro… Chorava antes de cada treino, obrigavam-me a esticar-me, magoava-me, passava fome para caber no fato. Pedi mil vezes para sair, nada.
Ele calou-se.
Até hoje detesto ginásios. Não desejo isso ao meu filho. Se um dia quiser futebol, tudo bem. Mas só se ele quiser. Forçado, nunca.
A minha mãe só quer o melhor…
Então que ninguém a impeça de educar outro filho, mas o meu não. E digo-te: nem ela, nem tu, vão decidir o futuro do Pedro júnior sem mim.
Ele quase falou, mas eu já tinha saído da cozinha.
Nesse serão não trocámos mais uma palavra, pus o Pedro júnior na cama, e só fiquei no quarto dele a ouvir aquele ressonar suave.
Passaram dois dias sem conversa, depois ele atirou uma piada ao jantar e eu ri finalmente voltou algum gelo. Até sexta-feira já falávamos normalmente, embora sempre sem tocar no assunto da sogra.
No sábado acordei cedo, tão cedo que nem parecia fim-de-semana eram oito da manhã. O Pedro roncava, o miúdo devia estar ainda no país dos sonhos.
E de repente ouço um barulho metálico no corredor. O rodar da chave. Senti o coração na boca. Ladrão, em pleno dia? Peguei no telemóvel e fui às pontas dos pés.
A porta de entrada abre-se.
Dona Amélia entra, chaves na mão, com uma expressão de triunfo.
Bom dia, Vânia. Filhinha.
Estar ali de pijama, descalça, cheia de sono, e ela a olhar-me como se tivesse todo o direito de invadir a casa de alguém às oito de um sábado…
Como é que tem as chaves?
Ela acenou com o molho.
O Pedro deu-mas. Veio cá anteontem, pediu desculpa em teu nome. Disse que não querias ofender… É assim que ele remenda tudo, como sempre.
Fiquei pasmada.
E o que vem cá fazer? A esta hora?
Vim buscar o Pedro júnior. Já o matriculei no futebol, hoje é o primeiro treino!
Senti logo a raiva a subir-me à garganta, nem raciocinei, corri para o quarto.
O Pedro fingia que dormia, mas via-se logo pela maneira como os ombros estavam rígidos.
Levanta-te!
Vânia, agora não…
Arranquei-lhe o edredon, puxei-o pela mão para a sala. Ele tentou resistir, mas não deixei.
Dona Amélia já estava instalada no sofá, revista na mão.
Deste-lhe as chaves da minha casa parei a meio da sala, agarrada ao pulso dele. Da casa que comprei antes de casar, com dinheiro meu. Como tiveste coragem de dar à tua mãe as chaves da minha casa?
Pedro ficou calado, a remexer-se.
Já foste uma coisa de “minha casa, tua casa” Só pensas em ti! cortou ela, largando a revista. O Pedro só pensou no filho, e deu-me as chaves para eu poder estar com o neto, já que tu não deixas.
Chega! gritei.
Ela escandalizou-se, mas só olhei para o Pedro.
O Pedro júnior não vai ao futebol. Só quando ele quiser, não por obrigação.
Isso não decides tu! levantou-se num salto. Tu não és nada, és só uma passagem na vida do meu filho! Achas que és insubstituível? O Pedro só te atura por causa do miúdo!
Silêncio.
Olhei devagar para o Pedro. Cabeça baixa, sem uma palavra para me defender.
Pedro?
Nada. Nem uma sílaba. Nada.
Pronto disse eu, gelada. Se sou uma passagem, acaba aqui. Leve o seu neto, Dona Amélia. Já não tem marido aqui.
Não tens coragem! Não tens direito!
Pedro nem me tremia a voz tens meia hora para juntar as tuas coisas e sair. Ou vou pôr-te porta fora em pijama, não me interessa.
Vânia, espera, podemos falar…
Já falámos.
Sorri a Dona Amélia.
Pode ficar com as chaves. Vou mudar a fechadura hoje.
O divórcio demorou quatro meses. Pedro tentou voltar, ligava, escrevia, aparecia com flores. Dona Amélia ameaçou tribunal, processos, conexões. Contratei um bom advogado, deixei de atender chamadas.
Dois anos passaram a voar…
E agora estou aqui, num auditório cheio, a ver o Pedro júnior no palco da escola de artes. Tenho a programação nas mãos: Pedro Nunes, 8 anos. Beethoven Ode à Alegria.
O meu Pedro entra todo sério, de camisa branca e calças pretas, senta-se ao piano e começa a tocar.
As primeiras notas enchem a sala, e para mim o tempo para. O meu filho, que pediu para entrar para o conservatório, que passa horas a praticar, que escolheu Beethoven para tocar.
Quando termina, a sala explode em palmas. Ele faz uma vénia, encontra-me com o olhar e sorri-me: largo, feliz.
Bati palmas com toda a força, com lágrimas a correr-me pelo rosto.
Fiz bem. Fiz absolutamente bem. O filho em primeiro lugar, acima das opiniões dos outros, acima do casamento, acima do medo de ficar sozinha.
É isto que faz uma mãe.







