Fritei umas batatas, abri um frasquinho de pickles e sentei-me sozinho à mesa. Hoje faz um ano que a minha Leonor partiu. De repente bateram à porta. Quando vi a minha vizinha, Madalena, sorri instintivamente e convidei-a a entrar. Ficámos sentados ao pé da mesa, calados por uns instantes, recordando a Leonor. A certa altura, retirei um envelope do bolso.
Madalena, este envelope foi a Leonor que me deu antes de partir expliquei, estendendo-lho.
Mas isto é para ti estranhou ela.
Lê, vais perceber murmurei baixinho.
Madalena abriu o envelope e, ao ler, não conteve o suspiro.
***
O meu genro prometeu vir buscar a Dona Madalena no sábado de manhã. É pena deixar a casa de campo, mas o fim de outubro já não perdoa. A água já foi fechada, está na hora de voltar para Lisboa.
Madalena! Dona Madalena, está aí em casa? Chamou o meu vizinho, Sr. Manuel, batendo à porta.
Entre, Manuel, ainda estou a arrumar as coisas. O meu genro só vem buscar-me depois de amanhã. Vai lá zangar-se, já estou a ver, de tantas malas e sacas Mas não há outro remédio, grande parte do que trago é da terra: maçã desidratada, porque este ano tivemos uma colheita fenomenal, pickles, compotas, doce Fazemos tudo a pensar na família.
Pois é, Madalena. Eu também devo ir mas só mais tarde. Sabe é bonito ver o outono aqui. A Leonor gostava mesmo desta época. Mas, Madalena, lembras-te de como encerrávamos todos juntos a temporada da casa de campo? O teu António ainda estava cá, éramos jovens, as crianças pequenas Os terrenos bem limpos, as macieiras pequeninas, nem se imaginava ver estas árvores grandes como estão agora. Mas olha, hoje faz um ano sobre a Leonor. Só queria relembrá-la. E não me apetece estar sozinho para isso. Fritei batatas, vamos partilhar um pouco, relembrar a nossa Leonor. E tenho uma coisa para te dizer, algo importante. Aceitas?
Claro, Manuel. Toma aqui uns pickles caseiros também. Dou um jeitinho e vou aí dentro de meia hora.
A amizade das nossas famílias já vem de longe. Construímos juntos as casas, plantámos pomares e ajudámo-nos sempre. Os verões eram uma verdadeira celebração. Agora, a Madalena recebe nos verões os netos e o tempo passa num instante. O marido dela, António, já partiu há sete anos. A minha Leonor, infelizmente, também se foi no outono passado. Fui reparando como Madalena cultivava sempre, mas sem saber muito bem para quem. A ela raramente os netos trazem, ora vão para o campo de férias, ora para o mar com os pais. E eu, cá andei, a ocupar-me do quintal, do barracão, sem a Leonor tudo perdeu o sentido.
Suspirando, a Madalena lá veio. Prometera aparecer, e assim fez.
Quando chegou, a mesa já estava posta: batatas fritas, tomates, pickles. Abri um frasco especialmente para ela.
Senta-te, Madalena. Amanhã vêm cá os meus filhos, mas hoje vamos recordar juntos a nossa Leonor. Olha, encontrei estas fotografias antigas: o teu António a plantar a cerejeira contigo, nós todos nos pinhais a apanhar cogumelos, o churrasco no quintal… Aqui, vê, a Leonor quase fechando os olhos por causa do fumo… Brindamos aos nossos? À Leonor, ao António. Um minuto em silêncio e crocámos um pickle. Tirei o envelope do bolso.
Madalena, não te surpreendas. No fim do verão passado, pouco antes de partir, a Leonor pediu-me um favor: Manuel, faz-me uma promessa, um último desejo. E deu-me este envelope, foi ela quem escreveu. Lê…
Mas isto…
Lê, vais compreender.
O bilhete dizia assim:
Manuel, meu querido, o que se há de fazer? Vou embora mais cedo, mas a vida continua. Quero que sejas feliz, sê por ti e por mim. Não é para esqueceres o nosso amor, é que dói-me imaginar que tudo acaba e que tu vais ficar mal. Não suportaria ver-te a sofrer daqui onde vou estar. Por favor, vive. Nós sempre amámos a vida, lembras-te? Não te feches à felicidade. Aceita, talvez, abrir o coração. Se acontecer, e for a Madalena, não te assustes, eu ficaria feliz, sempre achei que tinham um carinho especial. Ela é uma mulher maravilhosa, vai perceber e compreender. Sugere-lhe viverem juntos, é o melhor para ambos. Sempre fomos de lutar até ao fim. Não te rendas, Manuel. Vive, apesar de tudo. Tua Leonor.
Madalena leu uma vez, tornou a ler e olhou para mim.
Prometi à Leonor, vou cumprir o que ela me pediu. Não te estou a pedir nada, só te passo a mensagem. Madalena, vamos tentar? Uma amizade forte une-nos, mais do que muita coisa. Não há mal algum. Viver e celebrar a cada dia é uma bênção, ficar a lamentar isso, sim, é pena. Queres viver este resto de caminho comigo? Prometo-te: não te arrependerás.
A Madalena ficou sem palavras, foi surpresa. Olhou-me bem nos olhos e disse, depois de pensar um instante:
Manuel, está bem, vou pensar. Digo ao genro que me atraso uns dias a arrumar tudo.
Assim ficou decidido. Levei-a a casa e desejei-lhe boa noite.
Nessa noite ninguém dormiu. A Madalena viu toda a sua vida a passar-lhe pela cabeça. De manhã, sonhou com o António: ele sorria, brincando Que é isso, Madalena? Dois juntos vivem melhor. Aceita o Manuel, fico feliz.
No verão seguinte, tirámos o velho muro entre as propriedades. Agora temos o dobro dos netos a correr pelos pomares, e até baloiços lhes fiz. Couves, cebolas, tudo dá no quintal da Madalena; alimento não falta. As netas ajudam-lhe nas hortas; os filhos agora vêm nos fins de semana, contentes porque sabem que já não estamos sós e amparamo-nos.
Que falem o que quiserem só quem vive compreende. A Leonor e o António, lá de cima, sorriem. Cumprimos o seu desejo: somos felizes, e apesar de tudo a vida continua.
Hoje guardo comigo esta lição: A felicidade pede coragem, mas nunca devemos voltar-lhe as costas.







