O comportamento da minha sobrinha tornou-se motivo de preocupação para toda a família, pois os pais mimaram-na tanto que ela se acha uma verdadeira princesa e trata todos à sua volta como se fossem empregados. A situação agravou-se porque está prestes a começar a escola, mas ainda conta apenas pelos dedos.

O comportamento da sobrinha tornou-se motivo de alarme familiares, pois os pais mimaram-na tanto que a pequena já se julga uma princesa de Belém, tratando todos à sua volta como criados pessoais. A situação só piorou porque está prestes a entrar para a escola primária, mas ainda acha que contar pelos dedos é a invenção do século.

Tudo começou logo ao nascer, quando toda a família se sentiu obrigada a ajudar na criação da menina. A sogra, sempre solícita, mudou-se para o apartamento já apertado do filho em Lisboa para pôr em prática o seu conhecido método tradicional de avó portuguesa. Azar dos azares: em vez de uma orientação sensata, todos os adultos se apressaram a satisfazer cada suspiro da menina, ensinando-lhe que um berro bem aplicado resolve qualquer desejo, seja um gelado extra ou as chaves do carro do avô.

Mal chegou aos seis meses, a miúda já tinha aprendido a fazer dos adultos gato-sapato. Resultado? Uma confusão permanente em casa, com os outros membros da família largamente ignorados o cão, coitado, quase fugia para o vizinho do lado. Perante este caos, o filho decidiu abandonar o navio, mas, mesmo depois do divórcio, continuou a afogar a filha em vestidos, maquilhagem e sapatos que pareciam saídos de um conto da Disney versão Chiado. Qualquer tentativa dos outros ou até da educadora de infância de chamar à razão caiu em saco roto, invariavelmente terminando em grandes discussões e amuos dignos de telenovela.

Toda a educação da menina girava em torno do conceito de princesinha e pouco se importava em aprender algo de útil. À beira de entrar para o primeiro ano, continua a fazer contas à moda antiga e nem sonha com as letras do alfabeto, ao contrário dos outros miúdos do bairro, que já mandam selfies no WhatsApp. Os pais, sofisticados na sua doutrina de liberdade absoluta, acham que a criança deve tomar todas as decisões, enquanto a professora insiste que talvez fosse bom ter alguma noção de respeito e umas luzes básicas sobre convivência.

Fartos de tanta falta de educação e de modos, os familiares próximos decidiram passar a interagir o mínimo possível para proteger a sua própria sanidade mental. Na opinião deles, aos pais cabe ensinar-lhe pelo menos um ou dois valores básicos da vida, antes que um dia exija receber a semanada em euros dourados e exigir coroa na cabeça à porta da escola.

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