Já outra? Maria, a viúva, achou que as pessoas diriam que os vizinhos fofocavam ao ver um homem no quintal da viúva; na aldeia onde todos se conhecem, quem é padrinho de quem, quem cavou batatas quando, e quem se divorciou quantas vezes, nada fica escondido. Por isso, quando Maria, dois anos após a morte do marido, trouxe um novo companheiro para casa, todos murmuravam em silêncio: “Não aguentou”, embora ninguém ousasse falar alto, pois Maria era trabalhadora, honrada e ainda criava dois filhos sozinha.

Já outro? Rosa, se ao menos pensasse no que vão dizer os vizinhos, cochichavam as vizinhas que tinham visto um homem no pátio da viúva.

Na aldeia de São Martinho, onde todo mundo conhece todo mundo: quem é padrinho de quem, quem cavou a batata no verão passado e quem já se divorciou quantas vezes quiser, não há nada que se possa esconder. Por isso, quando a viúva Rosa trouxe um novo marido para a casa, todos murmuravam em silêncio: «Olha só quem se acabou por entregar». Ninguém ousou falar em voz alta, porque Rosa era mulher trabalhadora, honrada e ainda sustentava sozinha os dois filhos.

Rui apareceu na casa deles no outono. Silencioso, com mãos fortes que sabiam usar a enxada e o martelo, e olhos calmos que observavam as crianças sem superioridade, mas com a convicção de que tudo se resolveria. Embora Inês já tivesse nove anos e Tiago doze, o pai deles quase não lembravam: ele morreu quando ainda estavam na primeira classe.

Nas primeiras semanas, Inês observava o padrasto com desconfiança.

Mãe, vai ficar muito tempo connosco? perguntou um dia.

Se Deus quiser, querida. Ele é um homem bom respondeu Rosa, acrescentando baixinho Estou cansada de fazer tudo sozinha.

Mas nós ajudávamos irritouse Tiago.

Ajudavam, sim. Mas vocês são crianças. E viver não se resume só a trabalhos, também há lugar para calor e carinho.

Rui não respondeu de imediato. Queria que se acostumassem com ele. De manhã cortava lenha, reparava a cerca e, ao cair da noite, trazia um cesto com pintainhas frescas.

Temos de reerguer a quinta. Assim as crianças terão ovos frescos.

Por que faz tudo isto? Inês observava atenta, mas gostava das pintainhas.

Porque agora sou de vossa família. Não nasci entre vós, mas viver juntos significa partilhar trabalho e boasvidas.

O meu pai também tinha galinhas?

Rui ficou pensativo e então respondeu:

O teu pai era um homem bom. Eu o conhecia. Trabalhámos juntos no silos. Falava muito de ti. És a sua cópia.

Inês sentouse silenciosa nos degraus e viu Rui dar água às galinhas. Pela primeira vez pensou: «Ele não pretende substituir o pai. Quer apenas estar aqui».

No inverno, Rui começou a ensinar Tiago a carpintaria.

Isto é um formão. Não é para brincar como no telemóvel aqui as mãos têm que saber o que fazem.

Eu não estou a brincar! resmungou Tiago.

Não te repreendo. Só que, com as mãos do homem, o homem se faz. E a cabeça também.

Por que nunca se zangas?

Rui sorriu.

Porque sei que a ira não traz nada. Melhor explicar uma vez do que gritar cem vezes.

Na primavera, a aldeia organizou uma obracomunal para limpar a nascente junto à serra. Tiago e Inês não queriam ir.

Deixem os jovens! resmungou o rapaz.

E nós, velhinhos? riu Rui. Vãose à vida inteira à espera de que alguém faça por eles. Um homem forte é aquele que pega na pá mesmo quando ninguém o obriga.

Durante a obra, ouviram os vizinhos dizer a Rui: «Ah, são os teus rapazes e a tua menina?». Ele respondeu simplesmente: «São meus. São da minha família».

Inês então empurrou suavemente Tiago:

Ouviste?

Ouvi.

E então?

É sintome aquecido. Ele pareceme como se nada tivesse mudado.

Um dia, Tiago chegou da escola muito abatido. Quando a mãe começou a perguntar o que se passava, ele confessou que tinha discutido com os colegas.

Por quê? indagou Rosa, tentando conter as lágrimas.

Porque eu disse que Rui era como um pai para mim. E eles responderam: «Mas tu és apenas um rapaz, é um homem estranho que te cria». Eu disse que preferia um estranho bom a um parente que já não está.

Rui ficou calado. Aproximouse de Tiago e sentouse à sua frente.

Não peço que me chames de pai. Mas, filho, saiba que não te abandonarei, independentemente do que os outros digam.

Eu não me importo. Só é difícil dizer «pai» quando ainda não é hábito.

Não há pressão. A palavra «pai» é como o pão: não se come a qualquer instante. Primeiro tem de crescer.

Passaramse dois anos. Tiago terminou o nono ano. Falavam na aldeia que iria para o instituto técnico de mecânica. Numa noite, sentados no quintal, sob as estrelas, ouvindo o coaxar dos sapos e cheirando alecrim, Tiago falou:

Rui estou a preparar um discurso para a formatura. Quero falar de quem é para mim um exemplo. Posso falar de ti?

Rui pigarreou e assentiu.

Só não exagere, aconselhou baixinho.

Não exagero, falo do coração.

No dia da formatura, Tiago declarou: «Um homem que nunca esteve comigo desde o berço, mas que se tornou um verdadeiro pai». Rosa chorou. E entre as mulheres da aldeia alguém sussurrou:

Vês? O padrasto não é estranho; quando o coração se aproxima, ele tornase família.

No quinquagésimo aniversário de Rui, Inês entregoulhe uma camisa bordada e uma carta:

«Pai, obrigado pelos lenha, pelas galinhas, pela paciência e por nos ensinar a não esperar que a bondade venha de fora, mas a criála nós mesmos. És o nosso pai não porque fosse obrigatório, mas porque quiseste. Por isso te amamos ainda mais.»

Rui ficou a ler a carta em silêncio, por muito tempo. Depois virouse para Rosa e disse:

Vês? Eles cresceram. Não são estranhos.

Rosa sorriu:

Porque nunca os consideraste alheios.

Assim, aprendeuse que para ser pai não é preciso ser o genitor biológico. O amor, a bondade e os gestos diários pesam mais do que o laço de sangue. A família é aquilo que cada um de nós escolhe construir.

**Lição:** A verdadeira paternidade nasce do afeto e do empenho diário, não da mera descendência.

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Já outra? Maria, a viúva, achou que as pessoas diriam que os vizinhos fofocavam ao ver um homem no quintal da viúva; na aldeia onde todos se conhecem, quem é padrinho de quem, quem cavou batatas quando, e quem se divorciou quantas vezes, nada fica escondido. Por isso, quando Maria, dois anos após a morte do marido, trouxe um novo companheiro para casa, todos murmuravam em silêncio: “Não aguentou”, embora ninguém ousasse falar alto, pois Maria era trabalhadora, honrada e ainda criava dois filhos sozinha.
Ти не си достоен за моя син – не си на неговото ниво!