PRESSENTIMENTO DE DESGRAÇA
Sofia acordou a meio da noite e não conseguiu voltar a adormecer até ao amanhecer. Um sonho estranho, talvez, ou inquietações pouco claras, deixavam-na desconfortável. O peito apertava-lhe de tal forma que as lágrimas caíam-lhe sem entender porquê. Ficou com uma sensação de opressão e um pressentimento terrível de que uma desgraça se aproximava.
Levantei-me e fui ver o nosso bebé. O pequeno Afonso dormia tranquilo, sorrindo e mexendo os lábios no sono. Arrumei-lhe o cobertor e fui até à cozinha. Lá fora, a noite era cerrada, nem uma luz nas ruas de Viseu.
Sofia, não consegues dormir outra vez? ouvi a voz do meu André por detrás.
De novo isto! Não percebo, André, o que se passa comigo respondi baixinho.
Deve ser aquela tal depressão pós-parto, dizem que quase todas passam por isso! tentou alegrar o ambiente.
Mas o Afonso já tem quase seis meses, nunca senti nada disto, e agora aparece do nada?!
Pode ser dos nervos, hormonas Não te preocupes, vais ver que tudo passa!
Tenho medo, André sussurrei, colando-me ao peito dele.
Vai correr tudo bem! garantiu-me, abraçando-me forte.
Três semanas depois, fui chamada ao centro de saúde da freguesia. Antes, tínhamos feito o check-up de rotina do Afonso pelos seus seis meses. Entregámos análises, fomos aos especialistas. O telefonema da enfermeira apanhou-me de surpresa.
Passa-se alguma coisa? perguntei, ansioso.
Sofiazinha, não se preocupe, a doutora vai explicar tudo respondeu.
Na sala de espera do centro havia fila, como sempre. Estava nervoso, quase a tremer. Quando finalmente nos chamou, já não conseguia esconder o receio.
Sente-se, por favor, pediu a médica, baixinho. Sofia Mendes, preciso que me escute com calma. Não se assuste, mas são necessários mais exames.
Mas o que aconteceu?! perguntei num fio de voz, sentindo que todos aqueles maus pressentimentos faziam sentido.
As análises do Afonso não estão bem. Os leucócitos estão muito acima do normal, e há outros valores preocupantes. Será preciso repetir as análises, de preferência num centro especializado.
Onde? perguntei, quase sem voz.
No Instituto Português de Oncologia, em Coimbra respondeu, olhando-me seriamente.
O caminho até casa foi um vazio. Quando cheguei, o André já me esperava, tendo saído mais cedo do trabalho depois de receber a minha mensagem.
O que se passa, Sofia?! perguntou com preocupação.
As lágrimas caíam e nem dei por elas.
Mandaram-nos fazer exames no IPO sussurrei, já sem esperança.
Mas calma, pode não ser nada! São só exames tentou consolar-me.
Eu já sentia que algo não estava bem, não sabia o quê, de onde vinha a ameaça.
Agarrei-me ao Afonso e chorei amargamente. Ele mexeu-se no sono, ainda alheio a tudo.
Leucemia aguda disse o médico, mais velho, depois de analisar os resultados temos de começar o tratamento urgentemente.
Chorei. Não queria aceitar a realidade. Fizeram a primeira sessão de quimioterapia sem mim. O Afonso estava nos Cuidados Intensivos, e eu sentada do lado de fora.
Vá para casa insistia a enfermeira de serviço hoje não vai poder ver o seu filho!
Não consigo não sei o que fazer em casa sem o meu bebé!
Sofia e André eram casados há oito anos. Tivemos muita dificuldade em ter um filho: fizemos exames, procurámos médicos, mas nunca havia diagnóstico. A gravidez só chegou ao oitavo ano de casamento. Foi a espera mais feliz e ansiosa da minha vida o André não me deixava levantar nada, nem um copo de água. No último mês estive internada, a médica recomendou devido ao risco de parto prematuro. Finalmente, há seis meses, nasceu o tão desejado menino. Chamámos-lhe Afonso, em homenagem ao pai do André, que morrera há poucos anos num acidente de viação.
Sofia, não devias dar o nome de alguém falecido de forma trágica! advertiu-me a avó, quando soube da decisão.
Isso são superstições, avó! repliquei, cheia de felicidade. Não queria que nada ensombrasse aquele momento
Sentava-me, noites inteiras, junto ao berço do Afonso. O bebé emagrecera naquele mês difícil. As bochechas perderam a cor rosa, pela primeira vez estavam assustadoramente pálidas. Olheiras fundas marcavam-lhe o rosto. Chorava, as lágrimas corriam e já nem tentava limpá-las. Só me deixaram entrar na enfermaria estéril depois de muito insistir junto ao médico, que não queria arriscar infeções. Mas a mãe já não aguentava longe do filho, gritava e implorava junto à porta dos intensivos até deixar-me estar ao lado dele. Ele dormia. Eu só queria olhar para ele, guardar cada pormenor.
Não fazemos esse tipo de operações cá! respondeu o Dr. Genésio, chefe do serviço, no dia seguinte.
E onde fazem? perguntei com firmeza.
Em Israel. Só lá poderão salvar o vosso filho. Mas é muito caro.
Vamos encontrar o dinheiro. Preparem, por favor, toda a documentação.
Tudo foi enviado para uma clínica de Tel Aviv, especialista em leucemias. A resposta foi positiva, aceitavam Afonso, mas a conta seria superior a 250.000 euros.
Sofia, mesmo vendendo o nosso T2 e o carro, nem conseguimos um terço dessa verba! lamentava o André já pus anúncios, mas não é fácil.
Não temos mais de dois meses! desabafei a chorar precisamos de alternativas.
Toda a gente ajudava: colegas de trabalho, amigos, o grupo da paróquia, a associação local. Montaram mealheiros pelos cafés, o município ofereceu uma ajuda, voluntários fizeram campanhas. Conseguimos reunir um pouco mais de metade. O tempo esgotava-se.
Vão vocês os dois, insistiu André tudo o que conseguir arranjar mando para aí! Se der, talvez venda a casa.
Ninguém na pequena vila de Sátão tinha meios para reunir tanto dinheiro.
Depois de resolver a papelada, embarquei com o Afonso para Israel. Ainda nos faltava bastante verba. Aos poucos, o bebé foi submetido a exames, ecos, preparação para a cirurgia. Não pensava mais no resto do dinheiro. Só confiava num milagre. Daqui a um mês, Afonso faria um ano.
No quarto ao lado estava outra mãe. O filho dela, Tomás, tinha três anos e também era português, de Viana do Castelo, e tinham conseguido reunir o dinheiro. Mas o caso do Tomás era mais grave: a leucemia fora diagnosticada tardiamente, a doença evoluía rapidamente e poucas vezes podiam operá-lo.
Não chores, vai correr tudo bem! reconfortava a mãe, Rita. Vais levar o Afonso ao circo, ao zoológico. O Tomás adorou os ursos no ano passado, ficámos lá meia hora só a vê-los. Nessa altura ainda nem sabíamos o que se passava. No zoológico foi que lhe deu uma hemorragia pelo nariz E repetiu-se Só meses depois fomos ao hospital. Já era fase três, como é que não percebi antes?
Rita, não penses assim Hás-de ver que vamos juntas, com os nossos filhos, passear ao zoo outra vez! tentei confortá-la.
Sofia, mas eu sentia O Tomás emagreceu, ficou apático, não queria comer, estava sempre cansado. Por que não agi logo? A minha mãe avisava! Não quis acreditar! chorava, inconsolável. Fiquei calado, pois que palavras curariam aquela dor?…
Poucos dias depois, o Tomás piorou. Levado para a reanimação, não deixaram a mãe sequer entrar. Ficou sentada no corredor, lavada em lágrimas.
Rita, anda lá dentro, descansa um pouco pedi-lhe.
Tenho de ficar aqui! Ele sente que estou perto! Isso alivia-o Sabe que estou aqui! respondia-me entre soluços.
Ele sente-te, mesmo se não estiveres à porta. Vem, Rita
Ela ficou ali. Deram-lhe um calmante. Deixou de chorar, sentou-se só a olhar para o vazio, esperando um milagre.
Já à noite, recebi uma chamada do André. Embalava o Afonso nos braços, agarrava cada segundo ao lado dele ninguém sabia quanto tempo nos restava.
Sofia, consegui transferir uns 10.000 euros disse não tenho mais. Apareceu um casal interessado na casa, abaixei o preço, disseram que iam pensar uns dias.
Está bem, meu amor, obrigado consegui dizer.
De repente, ouvi um grito desesperado no corredor. O telefone caiu-me das mãos, o Afonso acordou a chorar. Acalmei-o com festa no cabelo, bocejou docemente e voltou a adormecer. Deixei-o no berço e corri para o corredor. Já sabia o que tinha acontecido, custava-me acreditar. De joelhos diante da porta da reanimação, a Rita chorava como nunca, cercada de enfermeiras que tentavam ajudá-la. O grito de desespero dela cortava tudo à volta. Percebi tudo, sem uma palavra.
Rita, tens de te aguentar disse-lhe a chorar, abraçando-a tens de viver pelo Tomás
Para quê? O meu menino morreu! Foi culpa minha! Como vou viver com isto?! gritava, perdida.
Aguardei com ela até a acalmarem e a levarem ao quarto. O médico suspirou:
Agora o que ela precisa é de descansar. Vai ter tempo para chorar depois.
Não consegui dormir naquela noite. Sentei-me junto ao Afonso, a olhar para ele como quem quer guardar todos os detalhes da vida.
No dia seguinte, a Rita entrou no nosso quarto. Já não chorava. Parecia envelhecida dez anos. Apenas nos abraçámos em silêncio.
Espero que corra tudo bem convosco! murmurou, ao despedir-se. Aproveita este milagre que ainda tens! Agora vou tratar do meu filho: funeral, depois os nove dias, os quarenta Vou meter uma lápide, depois logo se vê limpou as lágrimas, Lê isto quando eu já tiver ido, não aguento dizer mais nada! entregou-me um envelope fechado.
Obrigada consegui dizer.
Depois de ela sair, fiquei a pensar nela. Levaram o Afonso para um exame e aproveitei para abrir o envelope:
«Querida Sofia! li, nas letras trémulas, Quero tanto que Afonso viva. Que viva por ele e pelo meu Tomás: que cresça, aprenda, jogue à bola, vá aos escuteiros Por favor, nos dias bons, leva-o ao nosso zoológico e dá um abraço ao grande urso preto! a visão ficou turva com lágrimas, tive de as limpar para continuar, Tens a vida pela frente. No envelope está dinheiro para a operação. Ao Tomás já não serve; que salve o Afonso!»
Chorei. Chorei de felicidade, pois finalmente havia uma solução para o meu filho. Mas chorei também de tristeza, porque fora a dor de outra mãe que no-la oferecera.
André, não vendas o apartamento! disse-lhe no dia seguinte. Eu e o Afonso precisamos de um lar para onde voltar!
Mas e o dinheiro? perguntou, surpreendido.
O dinheiro chegou. Vai correr tudo bem!
Ouviu-me e, pela primeira vez naquela maré de desgraça, sorriu: percebi que finalmente sentia esperança.
A operação fez-se no dia seguinte ao aniversário do Afonso o nosso filho completou um ano. Passei os dias fora da sala de reanimação, como a Rita fizera. Mas desta vez, o prognóstico era bom. Passados dias, deixaram-me vê-lo. Já podíamos estar juntos no mesmo quarto. Veio um mês de isolamento e mais alguns de reabilitação pouco importava, a operação tinha corrido bem, a recuperação era positiva.
O Afonso começou a ganhar vida: interessou-se por brinquedos, voltou a comer, até sorriu. E quando pela primeira vez balbuciou algo como «mamã», as lágrimas vieram-me aos olhos. Tínhamos tido um milagre.
Bede! apontava o Afonso, com o dedinho, ao enorme animal preto na jaula.
Não é bede, é urso! corrigia-o, rindo.
Fomos ao Jardim Zoológico de Lisboa, precisamente aquele onde o Tomás assistira aos ursos. Dirigi-me baixinho ao animal:
Olá, ursão, um abraço do Tomás para ti!
O Afonso corria, saltava, comia um gelado, viajava aos ombros do André, encantado com cada bicho do jardim zoológico. Agora, a sua infância estava cheia de alegrias e descobertas. O hospital era uma memória distante, e só às vezes, a meio da noite, espreitava o berço para garantir que tudo estava bem. A ansiedade dissipava-se. Tínhamos uma vida inteira pela frente uma vida por nós e pelo menino que nos deu a esperança.







