O meu nome é Liliana. Sou engenheira de software, tenho dois mestrados e lidero uma equipa que desen…

Chamo-me Mafalda. Sou engenheira de software, tenho dois mestrados e lidero uma equipa que desenvolve projetos para empresas nos Estados Unidos.

Mas, para a família do meu marido, Tomás, eu fui sempre a rapariga do bairro que teve sorte.

O Tomás vem de uma família que adora falar sobre linhagem e tradições, mas onde a ostentação sempre foi maior do que as posses. Um apelido antigo, um casarão decadente e o frigorífico quase sempre vazio.

Apaixonei-me por ele porque, no início, parecia ser diferente humilde, simpático, com os pés bem assentes na terra. Mas fugir ao apelido não é para todos.

Estivemos casados três anos. Três anos a ouvir as bocas da minha sogra, Dona Graça:
Mafalda, falas alto demais.
Mafalda, esse vestido é muito chamativo, aqui gostamos de tons pastel.
Mafalda, vai lá à cozinha, porque a empregada não veio hoje e tu desenrascas-te tão bem nessas coisas.

Engoli em seco, tudo em prol da paz. E, sendo sincera, a minha conta bancária dava de dez a zero ao património deles junto. Mas nunca lhes disse. Nunca quis respeito comprado a números.

Tudo se virou no Natal.

A empresa de família do meu sogro estava à beira da falência. Precisavam urgentemente de investimento, alguém que lhes atirasse uma bóia de salvação.

Dona Graça decidiu organizar um jantar formal no velho casarão para impressionar. O convidado de honra era o senhor Costa, um investidor estrangeiro homem sério, influente, picuinhas.

Cheguei com um vestido de seda verde, sentindo-me uma deusa.

Assim que entrei, Dona Graça espreitou-me dos pés à cabeça.
O que é isto? fez aquela careta dela. Pareces uma árvore de Natal.

É seda respondi, tentando não revirar os olhos.

Dá igual. Mafalda, temos um problema. O catering trocou-nos as voltas, não há empregadas de mesa. E o senhor Costa gosta das coisas muito… alinhadas.

Olhei para o Tomás. Baixou os olhos, calado.

E então? perguntei.

Dona Graça suspirou:
Não te podemos apresentar como mulher do Tomás. Não leves a mal, mas… não tens o estilo adequado. O senhor Costa pode pensar que o meu filho casou com pressa, ia prejudicar os negócios.

Um estalo embrulhado em sorrisos.

Tomás? lancei-lhe um olhar.

Engoliu em seco.
Fá, por favor. Só esta noite. Precisamos mesmo do investimento. A minha mãe acha que é estratégico. Depois compenso-te.

Então o que querem que faça?

Dona Graça apareceu com um saco de plástico onde tirou um uniforme de empregada de mesa.
Vestes isto? Serves uns canapés, o vinho. Discretinha, sem conversas. Vamos dizer que o Tomás… ainda está solteiro.

Fiquei ali, chaves na mão. Podia ter virado costas. Podia deixá-los no molho deles.

Mas depois reparei na cara de satisfação da irmã do Tomás, sempre pronta para me pôr no meu lugar.

Então fiquei. Não por obediência. Por curiosidade só para ver até onde podiam ir.

Está bem disse eu. Vamos a isso.

Vesti o uniforme. Prendi o cabelo num carrapito. E lá fui eu, tabuleiro na mão.

Os convidados chegaram. Eu servi. Obrigado, menina, sorriam-me os parentes, sem sequer reconhecerem quem era. O uniforme falava mais alto que a memória.

Pelas nove, entrou o senhor Costa. Postura de chefe, olhar atento, daqueles que só entram numa sala se for para a dominar.

Quando a conversa de negócios aqueceu, ele olhou em volta e pousou o olhar em mim. Apertou os olhos, como quem tenta ver melhor.

Deixou o copo, interrompendo Dona Graça a meio de uma frase, e veio direto à minha beira.

Fez-se silêncio.

Engenheira Moura? perguntou.

Sorri.
Boa noite, senhor Costa. Aqui preferiram dispensar títulos e diplomas hoje.

Ele desatou ao riso.
Incrível! A Mafalda Moura, em pessoa! A mulher que safou o lançamento do nosso projeto em Tóquio há dois anos. Se ela estiver envolvida, eu invisto sem pestanejar!

A minha sogra ficou branca como a cal da parede. O Tomás afundou-se ainda mais na cadeira.

Conhecem-se? conseguiu balbuciar Dona Graça.

Conhecemo-nos? riu-se o Costa. Esta senhora é uma lenda na minha área. Quero saber porque raio está vestida de empregada de mesa!

Pousei o tabuleiro delicadamente.
Porque a minha família achou que não servia como esposa hoje. Pediram-me que fizesse de conta, que me mascarasse. Era o que achavam que era respeitável.

A expressão do Costa ficou de pedra.
Nesse caso disse ele não há nada para negociar. Não ponho dinheiro em quem não reconhece o valor dos seus.

Virou-se para mim:
Mafalda, aceitaria jantar comigo noutro lado? Tenho um projeto que a pode interessar.

Olhei para o Tomás.
Então? Queres vir?

Ele arfou:
Mafalda não armes cenas. É importante para nós

Tirei a aliança do dedo. Deixei-a cair no copo à frente de Dona Graça.
Não é cena nenhuma. É só o fim.

E saí, ainda de uniforme mas nunca me senti tão livre.

O divórcio veio em semanas.
A empresa afundou-se.
Perderam a casa.

Eu fui trabalhar para o estrangeiro. Ninguém me pede para dar explicações, nem para usar máscaras.

E o Tomás? Manda emails de arrependimento. Diz que me ama. Que eu era a melhor parte da vida dele.

Respondo sempre o mesmo:

Tu preferiste uma empregada inventada ao teu lado. Eu sou real e, para ti, sou demasiado cara.Agora, aos domingos, tomo café de frente para o rio, de portátil aberto e sorriso solto, ainda de seda verde, azul, da cor que me apetecer. Ninguém me pede silêncio ou tons pastel.

Às vezes penso que sorte mesmo foi a deles: tiveram a oportunidade de conhecer-me por dentro e desperdiçaram.

A vida tem destas ironias: há quem prefira deuses vestidos de servos, porque nunca aprendeu a reconhecer realeza no que é simples.

Eu? Descobri que pertenço só a mim. E essa é a tradição mais valiosa que alguma vez irei herdar.

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