O meu marido trabalha, mas sou eu quem paga todas as despesas.

Perguntam-me como cheguei a este momento da minha vida e como aceitei tal situação, mas respondo-vos dizendo que todas as mulheres que amam são cegas. Eu fui cega. Passei a vida a tentar, a aprender. A minha mãe, desde pequena, repetia-me que, se queria uma vida boa, precisava de trabalhar arduamente. Ensinou-me também que uma mulher deve ser forte e independente, para que, caso algo aconteça, consiga sustentar-se sozinha.

No entanto, esse ensinamento acabou por me pregar uma partida cruel. Quando saía com rapazes, comportava-me de forma demasiado independente, e poucos queriam sair comigo. Naquela época, quase todos procuravam uma mulher dócil, para cuidar dela e mostrar a sua força, a sua virilidade. E eu cuidava de mim própria.

Pouco tempo depois, dediquei-me totalmente ao trabalho. Fui uma solteirona até aos 35 anos, quando conheci o Tiago. Ele tinha a mesma idade que eu. O que me impressionou foi o facto de aceitar a minha independência. Nunca insistiu em ajudar-me se lhe dizia que conseguia tratar das coisas por mim. Nunca me ofereceu flores nem sussurrou palavras doces e vazias ao ouvido, algo que nunca suportei. Com ele, éramos parceiros iguais. Devia ter imaginado o preço a pagar por essa suposta igualdade, que, na verdade, nem era assim tão igual.

Casámo-nos e ele veio morar comigo. O Tiago não tinha apartamento próprio; vivia com a mãe. E eu nunca quis morar com a sogra. Já ouvira histórias parecidas e não me atraía esse cenário. No primeiro mês, Tiago não me deu um cêntimo do seu salário, dizendo que precisava de pagar um pequeno empréstimo que contraíra para uma operação da mãe.

Não reclamei, procurei ser compreensiva. Somos uma família deixei-o pagar o empréstimo e depois pensei que resolveríamos tudo juntos. Mas passaram sete meses e ele continuava sem liquidar a dívida, sempre alegando que era mal pago, que lhe tinham cortado horas ou arranjado outro motivo qualquer. Durante todo esse tempo, fui eu quem pagou as despesas da casa, comida, lazer e contas. Depois começou a dizer-me que estava a juntar dinheiro para comprarmos uma casa no campo, para termos férias, por exemplo.

Nunca me mostrou um extrato bancário em cinco anos. Nós somos uma família. Só então discuti com ele. Como podia eu estar a sustentá-lo há cinco anos? Isso não é normal. Ele fez as malas e foi para casa da mãe. Sim, assim mesmo, de repente. Três dias depois, não aguentando mais, trouxe-o de volta. E tudo voltou ao mesmo. Ele não queria contribuir com dinheiro para nada. E eu já estou exausta. Gostava de gastar dinheiro em pequenos luxos de mulher, mas não tenho um tostão de sobra gasto tudo com a família. O que devo fazer? Divorciar-me? Será que ele alguma vez vai mudar?

No fundo, aprendi que o amor pede equilíbrio e partilha. Não basta ser compreensiva ou forte; é preciso cuidar de si, exigir respeito e saber quando é hora de procurar a felicidade, mesmo que isso signifique seguir sozinha.

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