Os pais do marido chegaram para uma visita de três dias — só que o filho já não mora aqui há muito tempo.

A porta que Inês segurou não se abriu de imediato. Ela ficou parada, com as chaves na mão, como se o toque da campainha fosse um som que ainda não reconhecera. O sobretudo ainda pingava, o guardachuva tremia em gotas, a sacola de leite tinha a alça rasgada. O pôrdosol se esvaía, o corredor já exalava o perfume de algum jantar e o miado de um gato que ninguém sabia de onde vinha.

Atrás da porta, apareceu Valentina Duarte. Um cachecol de tricô enrolado no pescoço, sapatos envernizados, uma mala de rodinhas, e nas mãos um saco com algo fumegante. A voz era a de uma atriz dos filmes antigos: alegre, com um leve traço de drama.

Luz da minha vida! Chego para ficar três dias! Trago um pastel de nata. De framboesa. O Paulo vai adorar disse, já adentrando o corredor enquanto Inês ainda soltava o último suspiro. Então, por que não me avisaste que mudaram o código? Já estava a caminho, voltei com a mala e tive de procurar o porteiro para descobrir o novo número.

Inês ficou em silêncio. Acenou para um ombro invisível, como se alguém ali estivesse, embora o apartamento estivesse estranhamente calmo. Um silêncio desconfortável.

E o Paulo? Valentina trocou de sapato, virouse e viu um gancho livre no hall. Não havia casaco masculino, nem botas. Nenhum cheiro dele, nem a bagunça que costumava deixar. Vai aparecer depois, não é? Sentaremos para jantar, trouxe um arroz de marisco. O Pedro, pai do Paulo, chega também. Ele saiu antes para um amigo, urgência de última hora. E a Catarina? Ainda na creche, imagino?

Inês sorriu brevemente, como quem sente um fio puxado ao longe.

A reunião dela prolongouse.

Ah, claro. Trabalho, trabalho Valentina calou a voz. Os olhos vagueavam rapidamente. Ela percebeu: na prateleira havia apenas uma chávena. No banheiro, um frasco de shampoo aberto, mas só um. Na geladeira, desenhos de crianças, enquanto as fotografias do Paulo haviam desaparecido.

Na cozinha, colocou o pastel sobre a mesa, abriu com cuidado o recipiente de marisco, segurou a mão de Inês.

Não te preocupes, minha querida. Tudo tem o seu tempo. Respira fundo. Sentaremos, comeremos. O pai chegará rirão juntos. Ele é um bom homem.

Inês assentiu, sentouse. Pegou o prato, mas não comeu. A chaleira ferveu alto, como se gritasse de frustração.

Um pouco depois, foram buscar a Catarina. Valentina carregava luvas e um termo com compota, Inês caminhava em silêncio, segurando o próprio braço. No elevador, ao descer, cruzaramse com a vizinha Leonor. Ela sorriu, depois lançou um tom rápido, quase um travalíngua:

Inês, o teu ex está outra vez com aquela mulher pintada da loja? Com o carrinho? E não tem tempo nenhum para o filho, não?

Valentina apertou os lábios numa linha fina, sem olhar para Inês nem para Leonor.

Leonor Inês exalou apenas isso.

E daí? Só digo a verdade. Todo mundo já sabe.

Ao anoitecer, quando Valentina tirou o cobertor do armário e dobrava a cama no sofá, parou. Segurou o travesseiro por um longo tempo, depois, sem olhar:

Ele foi embora? Onde está o meu filho? Que aconteceu?

Inês ficou na porta da cozinha, costas retas, mãos segurando a chaleira.

Três meses atrás. Disse que ia a uma reunião e nunca mais voltou.

Para ela?

Inês não respondeu, apenas olhou para o horizonte.

Valentina sentouse, colocou o cobertor ao lado, apoiou a bolsa no colo e tirou outro pastel, pequeno, numa forma de plástico.

Fiz para vocês. Ele dizia que tudo estava bem Que vocês quatro iriam ao mar no verão Ele

De repente, perdeu o fôlego, como se subira uma escada infinita. Inês aproximouse, mas não tocou, apenas pôs a chaleira ao lado.

O quarto ficou em silêncio. Do lado de fora, um antigo elétrico de Lisboa zunia. Inês ficou à janela. Valentina permanecia imóvel. Cada uma com o seu silêncio.

A porta estalou com o típico som que Pedro sempre dava, como quem deixava uma marca. Entrou animado, com um casaco de pele no colarinho, sacola de tangerinas e um jornal sob o braço.

Boa noite, minhas damas! Voltei com o troféu! Tangerinas de Algarve, doces como a infância.

Desabotoou o casaco, caminhou até a cozinha. Lá, silêncio e três olhares. Um cansado, o de Inês. Outro tenso, o de Valentina. O terceiro radiante, infantil: a Catarina, ao ouvir a voz do avô, largou o biscoito e correu para ele, agarrandose à calça como se fosse uma árvore, levantando a cabeça, olhos a brilhar.

Por que estão calados? Pedro não entendeu. Cheguei na hora errada?

Paulo começou Valentina, mas a voz escapou. Olhou para Inês como pedindo permissão.

Paulo foi embora disse Inês, calmamente, como se repetisse mil vezes. Três meses atrás.

A sacola de tangerinas bateu suavemente na mesa. O jornal logo depois. Pedro sentouse, ficou mudo, fitando a janela como se procurasse respostas ali.

O que fizeram aqui, à sua maneira? estalou de repente. Tu o pressionaste, esmagaste, como prego na madeira. Não o reconhecia mais pelo tom da voz ele voltava para casa como se fosse para a fornalha!

Pedro Valentina falou baixinho.

E então, Pedro? Tudo está encoberto, e agora bom dia! Tu só gesticulou estragaste.

Inês não respondeu. Apenas pegou a chávena e levoua à pia, mas não saiu da sala. Ficou de costas, como se ponderasse entre ir e ficar.

Valentina ficou em silêncio, o rosto pálido. Levantouse, aproximouse de Pedro e apertou-lhe o ombro. Ele demorou a reagir.

Ele disse que tudo estava bem. Catarina está saudável, Inês é ótima, planeiam as férias. Percebeste que ele mentiu? a voz dela tremia. À mãe.

Pedro ergueu os olhos e, pela primeira vez, ficou sem saber o que dizer.

Eu eu pensei tropeçou. Ele não é criança. Decide por si. Talve­z alguém

Já tem alguém há muito tempo Inês respondeu, sem se virar. Vive com ela. Aquela da oficina. A que trocava mensagens no banho.

Pedro levantouse, foi ao balcão, fechou a porta atrás de si. Acendeu um cigarro ao crepúsculo, como um farol na neblina. Não fumava na presença dos netos, mas agora, acendeuse.

Vou ligar-lhe disse Inês. Que venha explicar.

Valentina não respondeu, apenas fechou os olhos.

No ecrã do telemóvel, apareceu o contato Paulo. Soou. Bipe. Depois, uma voz cansada:

Sim?

Vem agora. O pai e a mãe estão aqui. O Santiago. Precisamos conversar.

Pausa longa. Então Certo. Mais bipes.

Inês olhou pela janela. Lá fora, alguém varria a neve dos caminhos. Noite branca, inverno silencioso.

Vinte minutos depois, o cadeado fez outro clique. Paulo entrou, como se fosse um estranho na própria casa. Vestia aquele casaco de pluma de que Inês uma vez tirara chicletes e recibos. O cabelo levemente despenteado, perfume de outra mulher quase imperceptível. Parou no limiar.

Olá a todos disse, rouco.

Santiago correu, mas parou a meio passo. Paulo sentouse desajeitado, puxouo para perto.

Olá, pequeno. Como vai?

Não vives conosco disse Santiago, sem acusação, apenas como fato.

Paulo o abraçou, mas não ergueu os olhos.

O silêncio pendia sobre a cozinha. Pedro saiu do balcão, o cheiro de fumo seguia. Valentina observava o filho como se o estivesse vendo pela primeira vez.

Tu me disseste começou. Que tudo estava bem. Que Inês é ótima. Que Santiago está feliz. Mentisteme, Paulo?

Não queria magoarvos.

E a Inês? Valentina apontou para Inês. Não quis magoara? Ou foi mais fácil desaparecer?

Pedro então falou, baixinho:

Por que trair a tua própria mãe?

Paulo sentouse, apoiou as mãos na mesa, como se se rendesse.

Não devo nada a ninguém. Nem a ti, nem a ela. Parti porque não queria mentir. Já não podia ficar com a Inês. Nem com vós.

Partiste porque foi mais fácil do que ficar e falar como homem rebateu Valentina. Traíste não só ela. A todos. A ti próprio.

Inês estava no canto, imóvel. Como se nada mais lhe interessasse. Já sabia tudo.

Valentina chegou ao filho, tocou-lhe o ombro. A mão tremia.

Foste melhor, Paulo. Lembrote de outro jeito.

Ele não respondeu, apenas fechou os olhos.

Santiago apareceu novamente na cozinha. Desta vez não correu, ficou à porta, observando.

Paulo levantouse, deu um passo atrás, encarou todos. O rosto endureceu, como se fosse uma máscara que se fixara. Virouse repentinamente e saiu, batendo a porta não alto, mas claramente. Como ponto final de um capítulo.

A manhã chegou. Do lado de fora, luz cinzenta e neve fresca no parapeito. Pedro lia o jornal, Santiago tomava a papinha, Valentina reorganizava algo na cozinha, e Inês permanecia à janela.

Inês endireitouse, a voz tornouse firme:

Posso recolher os eletrodomésticos que me deram. O microondas, a panela elétrica, a chaleira. Levemnos se quiserem. Queria mesmo fazer a remodelação. Mudanças não impedem. Parece certo limpar tudo ao fundo.

Valentina virouse abruptamente.

Perdeste a cabeça? A manhã mal começou e já falas de bens. Não temos tanta coisa para dividir. Não somos ladrões. Devíamos pedir perdão, não recolher aparelhos.

Santiago, ainda no quarto, brincava com carrinhos no tapete. Depois, apareceu:

Avó, o papá vem?

Valentina olhou para ele, respirou fundo, abaixouse e passou a mão na cabeça do menino.

Vai vir, miúdo. Mas mais tarde. Queres ver um desenho?

Santiago assentiu.

Inês ficou na soleira da porta. Nem lágrimas, nem raiva. Apenas um vazio interno, como depois de um longo barulho, quando o som desaparece e só resta silêncio nos ouvidos.

Pôs a chaleira no fogão. Ela chiarou, como trilha sonora ao fundo do silêncio. À frente, simplesmente um dia. Novo, comum, mas com a sensação de que tudo recomeça.

Cheirava a sabonete e ar seco. Valentina estava no banho, lavando a pia lentamente, como numa meditação. Inês entrou, querendo apanhar a toalha, mas hesitou.

Deixaa disse Valentina, sem se virar. Eu faço isso.

Inês não respondeu. Pegou a toalha e a pôs ao lado. Ficou ali, parada.

Não estava zangada contigo finalmente disse. Só estava cansada de explicar que não era só minha culpa.

Valentina apoiouse na borda da pia, balançou a cabeça.

Eu estava zangada. Comigo mesma. Por não ver, por não querer ver. Pensava que tudo era teu. Amor, família, felicidade. Eu dizia a todos assim.

Inês assentiu. As duas permaneciam na pequena casabanho, duas mulheres unidas por um filho, por um lar, por um passado.

Desculpa disse Valentina. Por tudo. Eu realmente achei que não podias impedir. Mas agora, ao olharte, vejo que seguravas a todos nós. Mesmo quando não era preciso.

Inês sentouse na beira da banheira, em silêncio:

Vou manterme. Só a mim. Não a ninguém.

A voz de Santiago ecoou da cozinha: Mãe, onde estão as meias com tubarões? e algo caiu.

E ele acrescentou Inês. Ainda o segurarei um pouco mais.

Sorriram. Não de forma perplexa, mas como duas mulheres que envelhecem juntas, verdadeiramente.

Mais tarde, à porta, abraçaramse longamente. Pedro ficou ao lado, cambaleando de um pé para o outro.

Também errei murmurou. Só que nós, homens, não aprendemos a falar. Nem na infância, nem depois.

Aprendam disse Inês. Enquanto houver alguém com quem conversar.

Ele assentiu.

Santiago saiu correndo, calçou os sapatos errados e desceu as escadas.

Chamaremos você disse Valentina. Ou será que nos chamas. Somos agora família, não temos aonde fugir.

Inês assentiu e abraçouos.

O apartamento estava quase vazio. Móveis modestos, caixas contra a parede, na repisa só uma caneca. Inês colocou uma colher dentro, despejou água quente, abriu a janela. Um sopro frio entrou, trazendo algo novo.

Santiago deitado no chão, desenhava o céu com marcador verde.

Por que não azul?

Porque a primavera será verde respondeu. E a primavera é verde.

Inês observou a mão dele deslizar sobre o papel. Aproximouse e ajustou o colarinho.

Vamos buscar pão depois?

Sim! E tangerinas. Mas com folhinhas!

Ela sorriu.

Do lado de fora, o elétrico de Lisboa zunia. Alguém ria na rua. A luz caía no chão. Naquele brilho havia tudo dor, perdão e o que começava.

Inês sentouse ao lado. Apenas sentou, sem medo. Pela primeira vez sem medo.

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