Eu já estava ao volante há três horas, a estrada deserta e enlameada. Em Portugal, no fim de novembro, escurece cedo, e eu apertava o acelerador para chegar antes da noite. O rádio tocava uma moda antiga, o aquecedor só dava um calor tímido, e eu já me via em casa, onde me aguardavam o marido, a filha e, claro, a sogra com a sua reclamação infinita. A cabeça estava tão cheia de pensamentos que nem percebi quem apareceu no assento de trás.
Então, mãe, trouxe-me ao destino?
Um sobressalto tão forte fez o volante quase sair pela janela. O coração deu um salto para o chão e eu pisei no travão, lançando um olhar ao retrovisor. Lá, reclinada na cadeira, sentavase uma velhinha. O rosto estava marcado por rugas profundas, coberto por um lenço escuro, e os olhosestranhamente brilhantes, quase negrosolhavamme com calma e atenção.
De onde vieste? a minha voz tremia de medo. Lembro-me bem de ter entrado no carro sozinha. As chaves do apartamento estavam no banco da frente, ao lado da bolsa, e eu não tinha apanhado ninguém.
Da estrada respondeu a velhinha, ajeitando o lenço. Morro de frio ali fora. Vais levarme ou não?
Quis dizer que não aceito passageiros, que era perigoso, que a casa me esperava, mas as palavras ficaram presas na garganta. Ela olhavame como se soubesse tudo sobre mim, como se lesse-me como um livro aberto.
Vou para Alcobaça murmurei, na esperança de que ela saísse.
Eu também vou para Alcobaça riu a velha. Não te preocupes, filha. Não vou matarte, ainda sou muito velha para isso. Mas ajudarte talvez eu consiga. Vejo que tens o coração preto. O marido anda à caça? A sogra a mastigar?
Fiquei calada. Vivíamos com a sogra há seis anos, e nos últimos dois a minha vida se transformara num mar de tormentas. Mas conversar sobre isso com uma desconhecida? A velhinha parecia ter lido a minha mente.
Calate, estendeu a mão e apontou o dedo enrugado para mim. Vejo tudo. Tu és boa. Boa demais. No mundo, os bons são os primeiros a ser devorados. Partimos já, senão escurece.
Pus o motor a roncar e entrei na autoestrada. Na cabeça só girava uma questão: por que fazer isso? Mas o pé pressionava o acelerador obedientemente. Fomos em silêncio durante cerca de meia hora. A velhinha fitava a janela, murmurando coisas para si mesma. Quando à frente surgiram as luzes esparsas de Alcobaça, ela deu uma ordem repentina:
Pára aqui.
Estacionei ao lado de uma casa de madeira, meio ruína. A velhinha abriu a porta, virouse antes de sair e disse:
Obrigada, baleia. Escuta. Daqui a um mês baterei à tua porta. Não te assustes. Só sabe que, se tudo virar pó, eu apareço.
O quê? nem sabia o que responder.
E é isso a velhinha saiu do carro, apoiada numa bengala, e avançou para a casa sem olhar para trás. Lembrate: um mês. Exatamente.
Saí tremendo, apertando o volante. O caminho até casa foi um longo devaneio de que tudo não passava de um sonho, de uma alucinação de cansaço. Quase fiz o esforço de varrer a história da cabeça. Um mês depois…
E agora? gritou a sogra, Valéria Ferreira, enquanto mexia a farinha na cozinha e resmungava.
O Sérgio parecese um esqueleto, não sabe alimentar. Secou a carne de novo. E quem é que põe mesa assim? Temos convidados, não mendigos.
Eu distribuía a salada nos pratos. O marido, Sérgio, estava na sala, a beber cerveja e a ver televisão. Não podia contar com a ajuda dele. Eu trabalhava em dois empregos, arcava com a hipoteca a comprámos a casa em conjunto com a mãe dele, que tem uma parte e ainda era a responsável pela casa e pela filha. A menina, chamada Madalena, tinha dez anos e frequentemente me olhava com aqueles olhos que pareciam sentir o meu cansaço.
Bateram à porta. Fui abrir, secando as mãos no avental. Na soleira estava a cunhada, Sofia Ramos, com o marido e dois rapazes adolescentes. Entraram sem sequer tirarem os sapatos.
Ah, o que falta à mesa? disse Sofia, atirando as botas sujas no corredor. Sérgio! Recebe a família!
Entrem respondi, ainda que por dentro tudo fervesse.
E então a festa ficou ainda maior. Chegaram tios em terceiro grau, amigos da família que nunca tinha visto antes. Valéria, sentindose a rainha do pedaço, comandava:
Lena, traz isso. Lena, passa aquilo. E agora limpa aqui. Sérgio, sentate, estás cansado.
O número de convidados ultrapassou qualquer expectativa. Eu corri com pratos como garçonete, enquanto Sofia comentava alto:
Oh, mãe, o que é que ela fez? Olá, salada de frango? Era pra ser com linguiça decente. E a hóstia de arenque ficou salgada demais.
Por que não a faz tu, já que és a convidada? não aguentei mais, colocando mais um prato na mesa.
Eu? Sofia arregalou os olhos. Eu sou a convidada, quem serve os convidados? Tu nem trabalhas direito aqui, então tenta.
Eu trabalho, resmunguei.
Ah, então trabalhas abanou a sogra. O salário aqui é de ratos. Se não fosse o Sérgio, tu e a filha viveriam debaixo da ponte. Aliás, põe a Madalena no quarto, está a atrapalhar.
Olhei para a filha. Ela estava sentada num canto, abraçada aos joelhos, os olhos arregalados. Ninguém a chamara à mesa. Ninguém a notava, exceto eu.
Madalena, vai para o quarto ordenei, sentindo os dentes se apertarem.
Nesse momento outro toque soou. Fui abrir, esperando mais um retardatário. No limiar estava ela. A mesma velhinha, com o lenço escuro, a bengala, mas os olhos ainda mais flamejantes.
Olá, baleia. Eu dissete um mês e aqui estou.
Quem é essa? a voz de Valéria soou como um tiro.
A velhinha, sem lhe dar atenção, atravessou a porta. Tirou as velhas botas cobertas de fita adesiva e entrou no salão, onde todos ficaram parados.
Boa gente, acenou. Chamome Eudócia, mas podem dizer Duna. Vim à casa da Lena para ficar um pouco.
O quê? Sérgio saltou do sofá, ruborizado pela cerveja. Lena, estás de cabeça para baixo? Quem é ela?
Eu eu ficava perdida, sem saber o que dizer. Ainda em choque.
Lena, estás mesmo lúcida? interveio Sofia, fazendo uma cara de desgosto. Que tipo de pessoa é essa que trazes? Temos programa cultural, não uma semteto!
Como ousam? senti a raiva misturada com humilhação. Esta é a minha casa!
Nossa casa! bradou a sogra. E não deixarei ninguém debaixo do meu teto!
Duna sentouse na única cadeira livre que eu tinha reservado para mim. Olhou a mesa, os pratos sujos, os rostos descontentes e suspirou alto.
Sabese que sou sangue negro? perguntou calmamente. Eu sou a que traz o caos? E vocês, quem são? Veio aqui roubar a nossa casa, tratar a dona como empregada e a filha como prisioneira caos, é?
Lena! Tira essa gente daqui! gritou Valéria.
Ela fica, ouvi a minha própria voz, tão firme que me surpreendi.
O quê? perguntaram em coro Sofia e Sérgio.
Ouviram? eu interponhome entre a velhinha e a família. Eudócia é minha convidada. Se não gostam, a porta está ali. Já me tratam como empregada.
O silêncio ficou pesado. Sofia agarrou a mão do marido.
Então fica com a avó! Saí de aqui! Não faço parte deste circo!
Os convidados começaram a sair, lançando olhares furiosos. A sogra ficou na cozinha, a olharme como quem pesa cada passo. Sérgio, teatralmente, ligou a televisão na máxima volume. Quando a última porta se fechou, Duna aproximouse.
Boa, sussurrou. O primeiro passo está feito. O que vem depois será pior, mas agarrate. Agora mostrame onde vou dormir.
Leveia ao pequeno quarto que chamávamos de cômodo. Um sofá velho ali repousava. Duna deitouse, rangerando, e, fechando os olhos, murmurou:
Está bem, Lena. Agora começa o interessante. Amanhã os teus parentes vão mostrar a verdadeira cara.
Na manhã seguinte acordei com gritos. Corri para a cozinha e vi Sérgio e a sogra em pé sobre a Duna, que calmamente bebia chá da minha caneca favorita.
Ela roubou os meus brincos! vociferou Valéria, a voz trêmula de ira. De ouro! Sérgio, chama a polícia!
Que brincos? eu tentava seguir o olhar entre marido e velhinha.
Nem sabes! gritou Sérgio, os olhos a brilhar. Foi tudo uma armação tua para salvar a mãe! Trouxeste uma mendiga e ainda rouba!
Não peguei os teus brincos respondeu Duna, tomando o chá. Tenho o que preciso, mesmo vestida pobre. Dinheiro não traz felicidade, filha.
Fora daqui! gritou a sogra. Imediatamente!
Olhei nos olhos da sogra. Não havia tristeza, apenas triunfo. De repente percebi a armadilha.
Onde é que os procuraram? perguntei.
No quarto dela interrompeu Sofia, surgindo por trás da mãe. Via esconder os brincos no bolso do seu avental.
Mentiras, respondi serena.
A quem estás a mentir? avançou Sofia. Eu
Larguemnos as mãos! Duna levantouse de repente, a voz firme como aço. Vocês acham que a velha é idiota? Acham que não ouvi quando colocaste os brincos no bolso do meu avental enquanto eu dormia? Ouvi tudo.
Valéria empalideceu.
O que ouviste, velhinha?
Como sussurravas com a tua filha: Sérgio acreditará, expulsaremos a Lena, e ela fugirá para a avó. Não vai acontecer.
Sérgio! gritou a sogra. Vais ouvir isso!
Sérgio, vermelho, cerrava os punhos.
Lena disse ele, ou a avó sai, ou eu saio. Escolhe.
Olhei para o marido. Dez anos de casamento. Dez anos de humilhações, silêncio, do a mãe disse. Olhei para a filha, parada à porta, o medo nos olhos.
Escolhe repetiu ele.
Vai embora eu disse.
O quê?
Eu disse: vai embora. Para a mãe, para a Sofia, onde quiseres. Mas sai desta casa que, aliás, está em teu nome e no da Madalena.
A ameaça legal fez Sérgio recuar. Ele estava habituado a que eu calasse, mas agora algo quebrou. Ou então surgiu.
Vais arrependerte sussurrou a sogra, puxando o filho pela mão. Vamos, Sérgio, ver como fica a casa sem a avó e sem marido.
Saíram, batendo a porta com estrondo. Senteime na cadeira, as pernas tremendo.
É isso, exaltei.
Não, baleia disse Duna, acariciandome a cabeça. É só o começo. Eles não vão desistir assim. A casa é tua, mas também é deles, porque têm parte. Vão levarte ao tribunal, pedir pensão, confiscar o carro. Estás preparada?
Levanteia cabeça. Não estava preparada. Mas não tinha outra saída.
Três dias depois Sérgio voltou, não com um pedido de perdão, mas com uma intimação judicial. Valéria tinha aberto processo de despejo contra mim e Duna, exigindo a venda da casa e a divisão do dinheiro. No pedido constava que eu criava condições insuportáveis de convívio, trouxe pessoa estranha ao lar e pressiona psicologicamente o marido a deixara.
Estava na cozinha, segurando o papel, a descrença a subir ao peito. A sogra, que vivia às minhas expensas, agora tentava arrancarme o teto.
Não temas, baleia Duna sussurrou, mexendo uma infusão de ervas. O tribunal decide quem tem razão. O que for justo será forte.
Mas têm parte murmurei. E um advogado.
E nós, acham que ficaremos sem defesa? sorriu Duna. Tu, acima de tudo, reúne os documentos. Todas as faturas da hipoteca, enquanto o Sérgio estava no sofá a dormir. As contas de luz, água. Tudo que pagaste.
E de quê serve? olheia, desesperada. É a palavra dela contra a nossa.
Não a dela Duna aproximouse da janela e puxou a cortina. Vai à Segurança Social, pede um atestado de que crias condições para a criança, mas o pai não paga pensão nem participa. Isso vai ser prova de ferro.
Fiquei surpresa com o seu saber.
Como sabe tudo isto?
Vivi, filha, muito tempo suspirou Duna. Vi de tudo. Já estive em tribunais, não como ré, mas como testemunha. A minha língua é afiada, a verdade é o que gosto de dizer. Os juNo fim, percebi que a força que me guiava não vinha de nenhum encanto, mas da coragem que, finalmente, tomou as rédeas da minha própria vida.






