A mãe não foi recebida pelos familiares na porta da maternidade, porque nunca desistiu da filha…

Oi, amiga, preciso te contar tudo que aconteceu, como se a gente estivesse sentada na varanda com um café e umas bolachas de azeite. O corredor da maternidade do Hospital de São João, em Lisboa, estava a transbordar de gente. O ar estava cheio de alegria, misturado com aquela ansiedade leve que só quem vai conhecer um bebê sente. Por todo o lado, parentes felizes corriam: homens animados com enormes ramalhetes de flores, avós recémformados, e um bando de conhecidos e amigos. O barulho constante de vozes era interrompido por gargalhadas contagiantes. Todos, contendo a respiração, aguardavam a chegada dos novos membros das famílias.

É menino, primeiro! sussurrou uma avó bem nova ao lado de outra mulher. Nos olhos dela brilhavam lágrimas de felicidade e nas mãos segurava firme um monte de balões azulceleste.

É menina! Duas logo de cara, acredita? exclamou a companheira, rodeada de sacos de presente rosa pastel.

Eles já têm a irmã mais velha. Então são três meninas! Como num conto de fadas! completou outra, surpresa.

Gêmeas! Que raridade! Parabéns! acrescentou mais alguém.

No meio dessa correria, ninguém reparou na jovem que tentava abrir a porta pesada. As mãos dela estavam ocupadas a carregar sacos repletos de coisas até transbordarem.

Isso… é um bebé?! exclamou o João, o primo que tinha vindo buscar a irmã com o sobrinho. Não conseguia acreditar no que via: a mão direita da mulher, pressionada entre o antebraço e o corpo, segurava um pequeno embrulho enrolado em uma manta.

Como assim? ficou ele sem saber o que dizer. Onde estão os parentes? Onde estão os amigos? Como é que numa cidade tão grande como Lisboa ninguém se oferece para ajudar uma mãe jovem com um bebé tão indefeso?

A família dele estava a preparar há meses o nascimento da filha da irmã e a alta do bebé. Era um acontecimento tão importante, tão alegre, que nem imaginava que as coisas podiam correr de outro jeito.

João correu para ajudar a desconhecida. Empurrou a porta larga, segurou-a enquanto ela passava e entrou logo atrás.

Posso levar as suas coisas até ao táxi! ofereceu o rapaz.

Obrigada, mas não preciso respondeu a mulher com um sorriso carregado de cansaço, quase à beira das lágrimas. Ajustou o bebé mais perto de si e dirigiuse à paragem de autocarros.

Ela vai andar de autocarro com um recémnascido?! ficou o João sem jeito. Queria alcançara, oferecer-lhe o carro, mas os parentes chamaramnos: a irmã do sobrinho precisava de alta. Esquecendo tudo, correu para casa.

A Inês sempre quis ser a filha exemplar. A mãe a teve quando já era mais velha e o pai nunca apareceu; diziase que tinha sido fruto de um romance de verão numa pousada do Algarve. Elas viviam só duas numa casinha apertada à margem da aldeia de MontemoroNovo. Inês ajudava a mãe nas tarefas domésticas, estudava bem e obedecia a tudo. Viviam modestamente, a mãe ganhava um salário pequeno como funcionária de um merceeiro local não dava para dar festas. Quando a mãe entrou na reforma, as finanças apertaram ainda mais.

Inês sonhava em terminar a escola, entrar na universidade e arranjar um emprego bem pago, para que a família nunca mais sentisse fome. Queria poder comprar, no fim do mês, mais do que só um pacote de arroz ou uns pedaços de carne. Decidiu que ia lutar por isso.

Ela dedicouse ao estudo, fazia aulas extra. Enquanto as colegas iam a festas, ao cinema e a balões, Inês ficava sobre os livros, recusando os convites do vizinho Fábio para passear.

Sai à rua! Está um dia lindo! Você está pálida! Só pensa nos livros! dizia a mãe.
Falta pouco para a matrícula. Preciso das notas máximas, esse é o meu único plano respondia Inês.

Fábio, por sua vez, era sempre o mesmo: caminhava pela aldeia sem nada, apaixonado pela Inês desde o primeiro ano da escola, mas nunca correspondido. Ela nem notava os rapazes da vila, como se não existissem.

O esforço de Inês deu frutos. Passou nos exames com notas excelentes e entrou, como sempre sonhara, na Faculdade de Educação da Universidade de Coimbra. A felicidade parecia infinita! Mas a mãe começou a preocuparse.

Onde vais viver? Como vais se sustentar? Eu já não consigo ajudar financeiramente disse a mãe.
Não te preocupes! Já procurei um bico à noite, há um quarto no dormitório da universidade. Já liguei e tenho uma vaga!

Tudo corria como Inês imaginava. No dormitório partilhava a divisão com outra rapariga da zona rural, que a presenteava com comida dos pais generosos. Inês retribuía ajudandoa nos trabalhos de curso.

Encontrou trabalho rápido, mas não como limpacamas; ficou de garçonete num bar do centro de Coimbra. Era simples: levar os pratos, sorrir ao cliente.

Foi no bar que conheceu o Miguel. Ele era cliente habitual. Inês já estava no penúltimo ano. Faltava pouco ao diploma. Miguel, jovem e atraente, aparecia quase todos os fins de semana com os amigos, rindo, a fazer piadas. Ela adorava os covinhas que surgiam quando ele sorria. Um dia ele percebeu o seu olhar; ela corou e desviou o olhar, mas Miguel começou a prestar-lhe mais atenção.

Começaram a namorar. Miguel mostrouse atencioso, carinhoso, inteligente e cheio de vida. Tinha terminado a universidade dois anos antes e trabalhava como economista num grande banco de Lisboa, a carreira subindo a passos largos.

Inês recebeu uma proposta para se mudar para a casa do Miguel: um apartamento espaçoso de dois quartos perto do trabalho.

Quando Inês lhe contou que estava grávida, Miguel ficou radiante.

Eu ia mesmo fazer-te o pedido! E agora essa notícia sorriu ele. Temos que acelerar tudo para que, no casamento, estejas linda e não já com barriguinha de grávida! Mas eu gosto de ti de qualquer forma.

Inês ficou nervosa ao pensar nos pais de Miguel. O pai era um empresário influente, dono de uma fábrica de leite; a mãe ajudava nas contas da empresa. Como reagiriam a uma rapariga simples e grávida?

Os pais de Miguel sempre foram carinhosos com o futuro sogro. Falavam bem dela. A futura sogra, chamada Olívia, elogiou a limpeza do apartamento tudo impecável e cheio de amor. O jantar que Inês preparou deixou-os maravilhados.

É como num restaurante cinco estrelas! exclamou o pai. Esta salada está perfeita!
Tens mãos de ouro! acrescentou a mãe.

Olívia pediu que Inês a chamasse simplesmente Olívia. Juntas começaram a planear o casamento. Olívia levava a noiva a lojas caras, mas entre provadores faziam pausas em cafés, riam e conversavam. Ela era simples e sincera, nada de aristocrata esnobe. Inês não sentiu desconforto nenhum pela diferença social.

A tua mãe vem ao casamento? Queremos conhecêla. Se quiser, pode ficar a viver connosco. Temos casa grande; devo imaginar que a vossa seja apertada partilhou Olívia.

O casamento foi grande, com muitos convidados, apresentador, artistas e até fogos de artifício. Inês não deixava de pensar no custo, mas Olívia, ao ouvir, apenas acenou:

Não te preocupes, dános com isso! És a esposa do meu filho, quero que tenham uma festa de verdade. Descansa, não te estresses, isso só te faz mal.

Inês quase chorava, mas não acreditava na sua própria sorte. Sempre ouvira histórias de conflitos entre sogras e noras, sobretudo quando a noiva era pobre, mas o seu caso era diferente.

Tens sorte, minha filha! disse quase a chorar a mãe, ao chegar ao casamento. Sentiase deslocada no meio de tanto brilho, mas Olívia fazia tudo para aliviar a tensão, brincando e agradecendo por ter uma nora tão boa.

Começou a vida de casal à espera do bebé. No primeiro ecografia, o médico disse que seria uma menina saudável.

Então, da próxima vez vamos ter um filho, não? riu Miguel, sonhando com um heredero.

Olívia, mãe de dois filhos, sempre quis uma filha. Agora, avó! Comprou dezenas de vestidos corderosa e minifatos.

Inês admirava tudo isso, já a imaginar a pequena a vestirse. Planeava levála ao balé, à escola de arte, a atividades de desenvolvimento precoce.

Aceitou tudo de bom humor. Mas, num dos exames de rotina, detectaram risco de perda do bebé. Começou uma luta para salvar a gravidez; o sogro trouxe os melhores médicos.

Inês sentiase horrível, nauseava até água, emagreceu. Em vez de melhorar no segundo trimestre, só piorava. Passava os dias no hospital, e em casa Olívia cuidava dela: cozinhar, limpar, até repreendia o filho por não ajudar. Inês estava grata, pois não podia fazer mais nada.

Miguel, por sua vez, se afastava cada vez mais: trabalho, amigos, telefone. Só ouvia Inês falar de exames, procedimentos, preocupações ele já estava cansado. Sonhava com um filho, mas recebeu uma esposa grávida que passava o dia na cama. Ainda apareceu uma estudante simpática

Ele mantinha o romance em segredo dos pais, temendo a reação. Olívia vivia a expectativa da neta, nunca disfarçava que queria uma filha e já tinha dois filhos.

De repente, a gravidez chegou antes do previsto. Inês entrou em trabalho de parto. A dor era insuportável. Os médicos fizeram o possível, depois chamaram a equipe de apoio. Inês reuniu forças para a filha.

A menina nasceu, mas foi levada imediatamente. Os médicos murmuravam entre si. Inês percebeu que algo terrível havia acontecido. Ficou sozinha num quarto, sem dormir, sem coragem de ligar para ninguém.

Na manhã seguinte, o chefe do hospital anunciou: a bebé tem síndrome de Down. Nenhum ultrassom detectou. O médico sugeriu: Você ainda é jovem, terá outra criança saudável. Esta deve ser encaminhada para um centro especializado.

Inês ficou em choque, mas recusouse categoricamente. Exigiu que lhe entregassem a filha. Olhou nos olhos da pequenina e deu-lhe o nome de Alcina.

Olívia ligou:

Eu sei tudo, vamos superar! disse, emocionada.
Obrigada! respondeu Inês. Já encontrei um psicólogo. Ele vai ajudar a aceitar a situação. Vamos ter outra criança. Alcina está viva! Não entende Escreve uma recusa. Diremos que o bebé morreu. Não Inês desligou o telefone.

Miguel também não queria assumir a criança.

Por que a mãe pode recusar e o pai não? Sou jovem, não quero esse peso! protestou. Olívia ligou várias vezes, tentou persuadir, depois deu um ultimato: ou aceitam a situação ou Inês não tem lugar na família.

Inês percebeu que ficaria sozinha com a filha. A última esperança era que Miguel mudasse ao ver o bebé, mas ninguém a esperava na alta. Ela saiu da maternidade com as sacolas, rumo à paragem de autocarro.

Chegando à casa, encontrou um casaco da desconhecida. Da cozinha saiu uma rapariga com a camisola do Miguel.

Quem são vocês? perguntou.
Sou a esposa do teu amante respondeu Inês, recolhendo as coisas.

Alcina repousava num berço com dossel, cercada de presentes caros que Olívia tinha comprado. Mas ninguém mais precisava dela, exceto Inês.

Inês mudouse com a filha para a casa da mãe. Apesar das dificuldades, agarrouse, apoiou a pequena. Alcina cresceu saudável, artística, contra todas as previsões, começou a falar, a recitar poemas.

Inês acabou por casarse com o Fábio, o colega de escola que sempre a teve por amiga. Ele aceitou Alcina como sua filha. Tiveram mais dois filhos. Inês não se envergonhava de Alcina, criou um blog para partilhar a vida da família.

Um dia, um diretor de um teatro de Lisboa especializado em artistas com síndrome de Down viu um vídeo das poesias de Alcina e a convidou para um espetáculo. Ela tornouse atriz. A família mudouse para a capital, levando até a avó.

Quando Alcina fez dezessete anos, Miguel apareceu na plateia, com flores, presentes e um olhar cheio de arrependimento. Pediu perdão. Inês, de repente, percebeu que já o tinha perdoado há tempos.

Está tudo bem, Miguel. Não guardo rancor. Vive feliz e obrigado por terem sido a nossa filha incrível.

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A mãe não foi recebida pelos familiares na porta da maternidade, porque nunca desistiu da filha…
— Já chega de tomar conta do teu menino, — disse a nora antes de apanhar o comboio para o Algarve