— Já chega de tomar conta do teu menino, — disse a nora antes de apanhar o comboio para o Algarve

Estou farta de tomar conta do teu filhinho anunciou a nora, e foi-se para a praia.

A Dona Valentina Silva tinha um filho.

Bom rapaz, trabalhador e tudo. Só que escolheu uma esposa peculiar. Ora não queria cozinhar, ora recusava-se a limpar. E ultimamente, parecia mesmo que tinha fugido dum circo só faltava o número de trapezista.

Ontem foi mais uma sessão de gritaria.

Ricardo diz ela ao marido já não aguento isto! És um homem feito e ages como um garoto!

Ricardo ficou baralhado. Ele não pediu nada de extraordinário! Só queria que Mariana lhe escolhesse umas meias, passasse uma camisa e ainda desse aquele toque divinal de lembrar da receita para o centro de saúde.

Mas a mãe sempre me ajudou… murmurou ele.

Então vai para casa da mãe! explodiu Mariana.

No dia seguinte, fez a mala.

Ricardo disse ela, tranquila vou para o Algarve. Por um mês. Ou talvez mais.

Como assim, mais?!

Assim mesmo. Cansei de tomar conta de um homem crescido que se porta como menino.

Ricardo tentou reclamar, mas Mariana só ouviu o tilintar do telemóvel. Ligou para Dona Valentina:

Dona Valentina? É a Mariana. Se ele não conseguir sobreviver sem babysitter, more uns dias cá em casa. As chaves estão debaixo do tapete.

E foi-se.

Ricardo ficou sentado no meio do apartamento, sem saber o que fazer. Frigorífico vazio. Meias encardidas. A loiça empilhada parecia monumento à desgraça.

Dois dias depois liga à mãe:

Mãe, a Mariana passou-se! Foi-se para não sei onde. O que faço agora?

Dona Valentina suspirou. Problemas com a nora, de novo.

Vou já aí, Ricardinho. Vamos lá pôr isto em ordem.

Chegou uma hora depois mala de compras numa mão e aquele ar de ‘Mãe resolve tudo’ na outra.

Quando abriu a porta, deu-lhe uma coisa.

Desarrumação em todo o lado. Pilha de roupa no quarto. Loiça por lavar na cozinha. E na casa de banho, só faltava a roupa ganhar pernas.

E aí, Valentina percebeu: o seu filho de trinta anos não sabia viver. Nem um bocadinho.

Ela fazia sempre tudo por ele. Tinha criado um rapaz feito, mas eternamente dependente.

Mãe choramingava Ricardo o que há para jantar? Onde estão as minhas camisas? Quando volta a Mariana?

Valentina começou a arrumar, sem dizer nada. Mas na cabeça só pensava: em que buraco me meti?

Toda a vida protegeu o filho das coisas da vida. Das dificuldades. Da própria vida!

E agora, sem mulher por perto, ele era mais desamparado que um cão sem pulgas.

E a Mariana? Fugiu do grandalhão inábil. Quem a pode culpar?

Três dias viveu Valentina na casa do filho.

E cada dia percebia mais: criou um crescido com jeito para ser criança.

De manhã Ricardo acordava e começava logo o rosário:

Mãe, o que há para o pequeno-almoço? E a minha camisa? Há meias lavadas?

Valentina lá continuava na árdua arte de passar, cozinhar e limpar. E olhava, analisava, ponderava.

Imaginem: um homem adulto sem saber ligar a máquina da roupa! Não tinha noção quanto custava o pão! E o chá, coitado, ou se queimava com água a ferver ou entornava o açúcar.

Mãe queixava-se à noite, a Mariana está impossível! Antes fingia que gostava de mim, agora parece que até me quer vender no OLX!

E tu, como te comportas? arriscou Valentina.

Como sempre! Não peço muito. Só quero que a minha mulher seja mulher, não uma bruxa mal humorada.

Valentina olhou para o filho. Santo Deus. Não percebia mesmo!

Ricardinho, alguma vez ajudas a Mariana?

Como assim? ficou genuinamente surpreendido. Eu trabalho! Trago dinheiro para casa! Isso não chega?!

E em casa?

E em casa estoirado do trabalho, quero descansar! Ela é que inventa sempre loucuras, ora para lavar loiça, ora para ir ao supermercado mas isso são coisas de mulher!

E então, Valentina ouviu a sua própria voz de há anos:

Ricardinho, deixa que a mãe faz! Não vás à loja, a mãe vai mais rápido! És homem, tens outras coisas para fazer!

Criou um pequeno ditador doméstico.

Quanto mais observava, mais temia o futuro.

Ricardo chegava tombava no sofá. Esperava jantar. Que lhe contassem novidades. Entretenimento feito à medida.

Quando o jantar não aparecia servido por anjos celestiais, vinha a birra:

Mãe, mas não comemos? Estou faminto!

Parecia um menino.

O mais surreal eram as suas teorias sobre Mariana.

Ela está nervosa lamentava sempre rabugenta. Devia ir ao médico, ver se são hormonas ou lugres!

Ou se calhar só está cansada? sugeriu Dona Valentina.

Cansada de quê? Trabalhamos igual. Mas casa é para mulher tratar.

Trata?! de repente, Valentina explodiu. Quem te disse isso, homem?!

Ricardo ficou em choque. A mãe nunca tinha levantado a voz.

No quarto dia, Dona Valentina não aguentou.

Ricardo zapping no telemóvel com um ar de enjoadinho sem par aborrecido sem mulher por perto. Cozinha, versão ‘Derrame universal’, meias no chão e cama em estilo parque de diversões.

Mãe o que há para jantar?

Valentina estava à volta do tacho a fazer sopa de pedra. Como sempre, há trinta anos.

De repente, percebeu: basta.

Ricardo disse, desligando o fogo precisamos conversar.

Eu ouço atirou ele, sem tirar os olhos do ecrã.

Larga o telemóvel. E olha para mim.

O tom deu-lhe medo, e obedeceu.

Filho começou Valentina, baixa sabes por que a Mariana se foi embora?

Ela só está assim, passou-se. As mulheres têm os seus dias. Vai e volta.

Não volta.

Como não volta?!

Assim mesmo. Porque está farta de tomar conta de um menino grande.

Ricardo saltou do sofá:

Mãe! Que raio? Eu um menino?! Eu trabalho, trago dinheiro!

E então? Dona Valentina agora parecia uma comandante militar. E em casa? Perdeste as mãos e a vista?!

Ricardo empalideceu.

Mãe não digas isso! Sou teu filho!

Por isso mesmo! sentou-se, nada elegante. Os meus braços até tremem.

Mãe estás doente? Ricardo parecia que via fantasmas.

Doente! riu-se amargamente. Doente de amor. De mãe cega. Pensei que protegia-te. Só te estraguei! Saíste-me um trintão incapaz de viver sem mulher como se o mundo fosse tua sala de brinquedos!

Mas começou ele.

Mas nada! cortou ela. Achas que a Mariana tem que ser tua segunda mãe? Lavar, cozinhar, limpar atrás de ti? Porquê?

Eu trabalho

E ela também! E ainda cuida da casa! E tu? Sofá, televisão, modo turista!

Os olhos de Ricardo humedeceram.

Mãe mas toda a gente faz assim.

Toda a gente?! gritou Valentina. Homens decentes ajudam as mulheres! Lavam a loiça, fazem comida, cuidam dos filhos! Tu? Nem sabes onde está o detergente em casa!

Ricardo ficou com a cara agarrada às mãos.

A Mariana tem razão disse a mãe, sem forças. Cansou-se de ser tua mãe. E eu também.

Como assim cansaste?

Assim Valentina foi ao hall, pegou na mala. Vou para casa. Tu ficas aqui. Aprende a ser adulto.

Mãe como assim sozinho?! Quem vai cozinhar? E arrumar?

TU! gritou ela. Tu vais! Como toda a gente já crescida!

Mas não sei!

Vais aprender! Ou ficas sozinho e ninguém te atura!

Valentina pôs o casaco.

Mãe, não vás! implorou Ricardo. O que faço agora?

O que devias ter feito há vinte anos respondeu. Viver.

E foi-se.

Ricardo ficou na casa, pela primeira vez, como um Robinson Crusoe sem papagaio.

Acordou, ficou no sofá até à meia-noite.

Barriga a dar horas. Loiça a fazer para ali uma espécie de quimera no lavatório. Meias pelo chão tipo estrelas.

Raios… murmurou, e pela primeira vez em trinta anos foi lavar a loiça.

Ficou uma desgraça. Pratos a fugir, mãos a arder do produto. Mas conseguiu.

Depois tentou fazer ovos mexidos. Queimou. Tentou outra vez meio aceitável.

E de manhã, percebeu: a mãe tinha razão.

Passou a semana.

Ricardo, todos os dias, experimentava viver. Aprendeu a lavar roupa, cozinhar, limpar. Ir à loja e descobrir que uma carcaça custa 0,30.

Organizar o dia. Virou trabalhador doméstico.

Percebeu o peso da rotina de Mariana.

Alô, Mariana? ligou ela sábado.

Olá respondeu ela, gélida.

Tens razão desabafou. Fui um menino grande.

Mariana ficou em silêncio.

Vivi uma semana sozinho. Agora percebi o quanto te cansaste. Desculpa.

Mariana demorou a responder.

Sabes disse ela por fim, a tua mãe ligou-me ontem. Pediu desculpa. Por te ter criado assim.

Ao fim de um mês, Mariana voltou.

Entrou numa casa limpa, foi recebida por um marido que fez o jantar e trouxe flores nada mau para principiante.

Bem-vinda a casa disse ele.

Dona Valentina passou a ligar ao filho uma vez por semana. Preocupava-se, claro, mas nem se oferecia para aparecer.

E, numa dessas noites, enquanto Ricardo lavava a loiça e Mariana preparava chá, ela disse:

Olha, gosto desta vida nova.

Eu também respondeu ele, secando as mãos. Pena ter demorado tanto.

Mas chegámos lá sorriu Mariana.

E era verdade.

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