A minha nora ficou zangada comigo por causa do apartamento e começou a influenciar o filho dela contra mim.

Diário de Maria

Hoje, mais uma vez, acordei com o peso da preocupação no peito. O meu filho, Miguel, tem andado cada vez mais distante, e sinto que parte disso se deve à influência da sua esposa, Leonor. Não reconheço o rapaz que criei com tanto carinho e dedicação alguém educado, trabalhador e honesto. E agora vejo-o ser manipulado segundo a vontade dela, que o afasta de mim e coloca em dúvida tudo o que faço.

Leonor diz-lhe constantemente que não me importo com a felicidade deles, que penso apenas no meu próprio conforto. Tudo isto porque me recusei a trocar o meu apartamento com o deles. O António, o meu marido, partiu deste mundo há alguns anos, e desde então o Miguel tem sido a minha vida. Criá-lo foi a minha maior alegria, dediquei-lhe todo o amor possível. No início, vivíamos todos juntos, depois, aos quarenta anos conquistei o nosso primeiro apartamento em Lisboa, depois de anos a mudar de casa arrendada. Nunca houve dinheiro para luxos ou para comprar um segundo apartamento para o Miguel, mas sempre achei que ele, tal como nós, chegaria lá por mérito próprio.

Quando o Miguel me contou que estava a namorar, fiquei radiante. Sempre quis ter uma boa relação com a minha futura nora, nunca a critiquei ou envergonhei. O importante era que o meu filho fosse feliz. No início, Leonor parecia-me uma jovem educada e discreta, mas só depois do casamento é que vi quem ela realmente era.

Mal voltaram da lua de mel, Leonor despediu-se do emprego. Disse-me que não aguentava os chefes e queria algo melhor, mas até hoje não procurou trabalho a sério. Há dois anos que vive à custa do Miguel, sem intenção de mudar.

Estão a viver num T1 na Margem Sul, porque só têm dinheiro para isso. Leonor fica em casa e o Miguel não consegue juntar nada para comprar outro apartamento, pois ela gasta tudo com cabeleireiros e roupa nova.

Sinto que ela mente quando diz que anda em entrevistas de emprego. Nem consigo compreender como alguém não arranja trabalho em dois anos. A verdade é que Leonor gosta desta vida cômoda, sem preocupações, às custas do marido.

Perguntei-lhes se já pensaram em ter filhos. Leonor respondeu logo: Como é que podemos pensar em crianças, neste espaço minúsculo? Sugeri que começassem a poupar para um empréstimo na caixa, mas ela disparou: Não dá para poupar nada, mal conseguimos chegar ao fim do mês!, referindo-se ao salário do Miguel.

Evitei dizer o que realmente pensava: que se ela trabalhasse, já poderiam ter poupado bastante. Se o objetivo fosse comprar um apartamento, eu ajudaria, porque sempre guardei algum dinheiro para o futuro do Miguel. Mas, como sei que Leonor gastaria tudo em futilidades, não quero dar-lhes nada agora.

Recentemente, Leonor tem andado a falar de filhos, dizendo que o tempo passa e querem garantir um herdeiro, mas como criar uma criança assim? E o Miguel começa a concordar com ela.

Mãe, sabes, eu e a Leonor estávamos a pensar… Porque não aceitas trocar de apartamento connosco? Não precisa de ser nada legal, basta trocarmos e pronto. A tua área seria suficiente para ti e nós não teríamos preocupações de empréstimos, seria uma solução para todos.

Fiquei magoada ao ouvir isso. Tenho a certeza que essa ideia não foi do Miguel. Disse-lhe que já trabalhei toda a vida e que, no fundo, árvores velhas não se transplantam.

Leonor sorriu e respondeu: Ainda só tens alguns anos de trabalho pela frente, depois damos-te netos. Mas recusei essa proposta. Não quero sair da minha casa, que tantas memórias guarda.

Miguel voltou a insistir algumas vezes, cada vez com comentários que me feriram ainda mais. Nunca imaginei que ele tentasse aproveitar-se de alguém assim, mas agora vejo que a esposa o incentiva.

Quando vieram cá pela última vez, Leonor disse com desdém: Vá, Miguel, vamos embora. Já te disse que a tua mãe não se importa connosco ou com filhos, ela nunca vai fazer nada por nós! Desde então, o Miguel não me contacta, não atende as minhas chamadas, nem retorna qualquer mensagem.

É doloroso pensar como um filho pode transformar-se assim. O Miguel sempre foi esperto, mas parece que ao lado da Leonor se deixa levar. Sinto-me só, incompreendida, mas não consigo abdicar do que é meu. Será que algum dia ele vai perceber que o amor de mãe não se compra nem se troca por um apartamento?

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