A nossa família era composta pelos meus pais, pelo meu irmão mais novo, Martim, e por mim. Quando o Martim foi para Lisboa estudar, decidi ficar cá com os meus pais no Alentejo. Mais tarde casei-me, assim como o Martim, que acabou por ser um pai orgulhoso de duas filhas. Apesar da distância, o meu irmão vinha de vez em quando visitar a família, e quando a filha mais velha cresceu, começou a vir cá sozinha. Sempre aguardava ansiosamente as visitas dela, fazia questão de lhe mostrar o meu carinho e queria que se sentisse sempre em casa.
Numa dessas visitas, tivemos uma conversa longa no sofá da sala, onde desabafei sobre a preocupação que sentia em relação ao fardo financeiro que os meus pais carregavam nos ombros. Sentia a necessidade de partilhar isso com ela, por ser minha sobrinha. Falámos até tarde, e, surpreendentemente, na manhã seguinte, em vez de um presente, ela apareceu com uma quantia em euros e insistiu em ajudar-me. Recusei no início, mas a minha sobrinha foi persistente e acabei por aceitar, sentindo-me muito grata pela sua generosidade.
Quando ela regressou a Lisboa, o Martim ligou-me exaltado, a perguntar o que me passou pela cabeça ao aceitar dinheiro da filha dele. Tentei explicar-lhe que não tinha pedido nada, que foi ela quem quis ajudar, mas ele não quis ouvir. Acusou-me de me aproveitar da bondade dela e disse que ficou desiludido por eu nu i-av ter pedido diretamente a ele, se precisava de ajuda.
Senti-me profundamente incompreendida e, querendo repor as coisas, transferi-lhe o dobro do valor para a conta bancária dele, como gesto de boa vontade. No entanto, esta acabou por ser a última vez que falámos. Dei por mim a questionar-me como teria reagido se as posições fossem trocadas, mas parece que para o Martim, era como se o mundo dele tivesse virado ao contrário. Este episódio deixou-me com um vazio, um misto de tristeza, dúvida e um sentimento irreparável de afastamento do meu irmão.







