Não de Sangue, Mas de Coração

Começaste, agora termina! Miguel elevou a voz para Matilde Se não sabes do que falas, mais vale estares calada
Sei muito bem respondeu Matilde, com um sorriso enviesado e um olhar fixo nos olhos dele Entre nós nunca houve segredos

Miguel e Leonor conheceram-se de uma maneira corriqueira. Era inverno, ensopado de nevoeiro, as ruas lisas como espelhos partidos. Leonor escorregou no passeio gelado ao sair apressada para o trabalho, e desabou, magoando o joelho direito. Miguel, vindo detrás como um vulto de chuva, ajudou-a a levantar-se e acompanhou-a até ao centro de saúde.

O raio-X, etéreo como uma fotografia de um fantasma, mostrou que nada estava partido. Leonor recebeu o veredicto: repouso, uma ligadura elástica de cor azul pálido. Miguel ficou a seu lado o tempo inteiro, insone, como se temesse que ela desvanecesse. Até telefonou ao chefe a pedir meio-dia de folga coisa de outro mundo. Só descansou quando Leonor, sentada no banco traseiro de um táxi, lhe prometeu solenemente que ligaria assim que chegasse a casa, para o sossegar.

A Leonor sentira-se fascinada por aquele rapaz amável. Era uma ternura que ela nunca tinha encontrado. Estava encantada, como se vivesse num sonho raro. Começou então o período mais poético e alucinado do namoro. Passavam horas a trocar mensagens, a telefonar, a falar de tudo, de nada. Às vezes nem percebiam do que falavam. Miguel preocupava-se com todas as minúcias da vida de Leonor: se ela havia dormido, se comera, se não tinha frio, como tinha sido o dia.

Miguel não via nada de extraordinário nisto. Sempre fora tudo assim, naquela aura de calor e cuidado mútuo da sua família. Viviam perto, pais em Setúbal, ele num apartamento herdado da avó, em Lisboa. Foram felizes ali: infância de laços fortes, tardes preguiçosas, a casa sempre cheia de café e abraços. Depois a avó partiu, Miguel arranjou coragem e mudou-se para o apartamento dela, um espaço parado no tempo e sempre um pouco frio, como se os móveis sussurrassem histórias antigas.

Com as raparigas, Miguel nunca tivera sorte. Demasiado tímido, demasiado discreto, incapaz de se lançar à rua ou a festas, como faziam os outros. Não tinha grandes amizades, nem grupos com quem sair. Mas com Leonor tudo fora espontâneo ela caíra, e Miguel não sabia fazer outra coisa senão socorrer.

Dois meses depois, casaram-se. Assim, do nada. Miguel, como brincadeira, perguntou a Leonor se queria casar. Ela sem sequer pestanejar respondeu:
Vamos já. Vamos agora ao registo!

Tinham apenas uma hora antes de fechar o Conservatória. Marcaram a data mais próxima para o casamento. Os pais de Miguel Augusta e Aníbal espantaram-se, mas deram bênção. Leonor também ligou à mãe, que vivia em Cascais, mas não pôde ir: a avó de Leonor adoecera de repente.

Formaram uma família luminosa bairro de Lisboa com um sol que nunca passa paredes, café ao pequeno-almoço, cumplicidade. O amor não desvaneceu depois do casamento, pelo contrário, parecia só crescer. Nasceu o filho, Tomás, e com ele veio felicidade e mais preocupações. Certa noite, numa comemoração de aniversário de casamento no café da esquina, Matilde, a melhor amiga de Leonor, bebeu demais e foi preciso chamar um Uber para ela.

Festejavam todos juntos: Augusta e Aníbal, o pequeno Tomás de cinco anos, copo de Compal na mão, brindando à felicidade e Matilde, convidada especial, sempre irmã da alma. Desde o liceu que Leonor e Matilde eram quase inseparáveis. A Matilde nunca tivera sorte com os homens, e parecia que a vida lhe escapava sempre, ao lado da beleza delicada da Leonor. Matilde era gorduchinha, baixa, com um rosto meio apagado, como um esboço esquecido numa folha. Todos os olhares, na escola, iam sempre para Leonor.

Ninguém, contudo, era tão próximo de Leonor como Matilde. Se a mãe não dava permissão para encontros, Matilde era o passaporte. Andavam sempre em grupo, mas Matilde nunca era chamada para casar. Leonor, pelo contrário, havia recusado vários pedidos já no secundário. Escolhia a dedo e só casou com Miguel aos vinte e cinco. Depois, a vida acelerou.

Naquele ano, Matilde descia as escadas do café aos tropeções. Teria caído três vezes se Miguel não a segurasse. Leonor e os outros esperavam-no no primeiro andar. Embaixo, o Uber já piscava os faróis. Miguel nunca vira Matilde assim, tão desamparada, mas fez questão de a acompanhar porta fora.

Felicidades aos noivos! Ahah! Uns têm tudo, outros nada! Eu nunca tenho sorte, mas a Leonor sempre, sempre teve! Desde que nos conhecemos! Tudo fácil para ela, como água em pena E os homens? Manipulava-vos todos, parvos! trovejou Matilde, olhando de esguelha. Vocês desligam o cérebro quando vêem uma cara bonita

Chegados ao passeio, quase a entrar no Uber, Matilde afastou-se de Miguel de repente como se a embriaguez se desvanecesse e com voz límpida, quase teatral, gritou:
Tu sabes de quem é o filho que crias? Não é teu!

Estás maluca! Miguel conteve-se para não a abanar. O mundo virou ao contrário, as luzes da rua rodopiando, as sombras a bailarem. Quis calá-la, mas ela prosseguiu:
Até ficaste branco! Não pensaste, não? O teu Tomás nasceu cedo demais! E essa pressa de casar, pensas que foi de amor urgente? Hã! E ainda por cima, nem sequer se parece contigo Dantes, ela já tinha outro namorado, sabia? Pediu-a em casamento, enrolou-lhe o espírito, depois trocou-a por outra. Ela bem merece!

Miguel quase atirou Matilde para dentro do Uber, fechando a porta com força. Mal o carro virou a esquina, já Matilde ligava para o telemóvel dele. Miguel, sem perceber porquê, atendeu.

Pergunta, vai lá perguntar à tua senhora! Ahah! Não sou só eu a sofrer nesta vossa festa! Que se sinta na frigideira, toda a girar, toda a torrar e desligou, deixando uma gargalhada de vidro partido a ecoar nos tímpanos dele.

Naquela noite, Miguel não conseguiu afastar as palavras e o riso de Matilde. Sim, Tomás nascera antes do tempo mas quantas crianças não o fazem? Nem ligara a questões de peso ou cor dos olhos, porque só sentia felicidade e amor. Nunca lhe passara pela cabeça Amava o filho desse o primeiro instante. Os pais de Miguel, Augusta e Aníbal, também eram doidos pelo neto: levavam-no ao Oceanário, ao Museu, ao zoológico, enchiam-no de pastéis de nata.

Maldita Matilde, como conseguira intoxicar tanta alegria com meia dúzia de frases sussurradas em tom de feitiço? Miguel só pensava naquilo. Tomás era miúdo franzino, loiro, de olhos claros, Miguel moreno, Leonor alta. Mas a mãe de Miguel sempre dizia: “Os miúdos mudam, o cabelo muda”. E a constituição? De onde vinha aquela leveza? E os olhos? Miguel enlouquecia de tanto pensar. Durante uma semana ficou calado, até ao dia em que não aguentou mais e resolveu perguntar a Leonor.

Ela olhou para ele de maneira sonhadora, como se já esperasse o episódio há anos.

Sempre soube que perguntarias um dia. E por que demoraste cinco anos para abrir a boca? disse, com um sorriso esquisito. Podias ter dito logo. Tínhamos-nos separado logo! Enganei-te, não é? Fui desonesta Vá, diz, grita, fala mal de mim!

Miguel afastou-se, trémulo. Se ela lhe tivesse dito, teria perdoado. Teria? Amava-a de tal forma que sim, casaria com ela de qualquer maneira. E agora? Parecia que ela esperara esses cinco anos só por esse momento, quase desejando que tudo acabasse. Divorciar? Ele não queria isso. E Tomás amava-o tanto, imenso. E os pais? Como dizer-lhes? Devia? Talvez não fosse o caso de dizer nada, deixar tudo como estava.

Leonor não sabia ao certo o que Miguel sentia. Discutiram feio. Miguel fez as malas e foi-se embora. A casa da avó, em Lisboa, estava vazia. Dormiu lá duas semanas, sem ver a mulher e o filho. Morreu de saudades deles os dois. Ponderou muito e decidiu: não daria a Matilde o gosto de destruir a família. O regresso parecia o fim de um enorme sonho estranho, voltando sempre ao mesmo ponto.

Perdoa, Miguel, magoei-te tanto Não mereceste nada disto chorou Leonor, apertando-se a ele. Pensei que depois disto irias deixar de gostar de mim, quis ser eu a falar primeiro, para acabar depressa Passei a vida à espera deste instante, cheia de medo.

Ó Leonor suspirou Miguel, abraçando-a Ainda não me conheces. Acreditas mesmo que te deixava? Amo-te tanto, a ti e ao Tomás, nada pode mudar isso! Entendi o que sentiste: medo de perder tudo, por isso não disseste nada O nosso amor é verdadeiro, Matilde não vai conseguir acabar com ele. Confia em mim.

Pois Leonor enxugou as lágrimas, encostando-se ao marido Só não quero ver a Matilde nunca mais!

E aos meus pais o que dizemos agora? perguntou Miguel, ainda inquieto. Amam tanto o Tomás, e se descobrissem?

Contaram aos pais, um mês e meio depois. Não isso mas que Leonor estava grávida, e em breve teriam dois netos. O resto ficou a flutuar, esquecido, como um segredo sonhado em noites de nevoeiro.

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