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018
Número de Processo A funcionária na farmácia estendeu o terminal e ele, por hábito, encostou o cartão, sem olhar. O ecrã piscou a vermelho, apitou e apareceu o seco “Operação recusada”. Tentou novamente, desta vez mais devagar, como se a pressa influenciasse se tinha ou não dinheiro. — Tem outro cartão? — perguntou a funcionária, sem levantar os olhos. Ele tirou o segundo, o da ordem, e ouviu de novo aquela recusa breve. Atrás, alguém suspirou alto e ele sentiu as orelhas arder. Enfiou no bolso a caixa de comprimidos que já tinha pedido e murmurou que ia resolver. Na rua, parou junto a uma parede, para não atrapalhar quem passava, e abriu a aplicação do banco. Em vez dos números habituais — um bloco cinzento com uma frase que o fez ficar vazio por dentro: “Contas bloqueadas. Motivo: Processo executivo”. Nem valores, nem explicações, só o botão “Mais detalhes” e um número que parecia o de outro cidadão. Ficou a olhar, como se pudesse desaparecer. Logo lhe vieram à cabeça as coisas que não podiam esperar: para a semana tinha de comprar bilhete para o comboio até à terra da mãe, ela tinha exame marcado, já tinha prometido levá-la. No trabalho, combinara tirar dois dias, o chefe não gostou, mas aceitou. E ainda os medicamentos, que naquele momento não podia mesmo pagar. Ligou para a linha do banco. O robô pediu para “avaliar o atendimento” antes de ser atendido. — Estou a ouvir, — disse a operadora, com o tom automático de quem está treinado para manter distância, não por má vontade mas por protocolo. Disse o nome, a data de nascimento, os últimos dígitos do BI. Contou que as contas estavam bloqueadas e devia tratar-se de um engano. — Tem uma restrição por processo executivo, — respondeu ela. — Não podemos levantar o bloqueio. Tem de contactar a secção de execuções fiscais. Vê o número do processo? — Vejo. Mas não sei o que é. Não tenho dívidas. — Compreendo. Mas o banco não é a entidade que pede o bloqueio. Apenas cumpre a ordem. — Quem pede, então? — Percebeu que estava a falar mais alto. — No documento está indicada a secção da Autoridade Tributária. Posso ditar a morada. Ela ditou, ele escreveu no verso do talão da farmácia. A mão tremia de raiva e vergonha, como se tivesse sido apanhado a roubar um rebuçado. — E o dinheiro? — perguntou ele. — Está aqui que fizeram “retenção”. — O valor foi transferido no âmbito do processo executivo. Para devolução, só diretamente com o credor ou com a autoridade. — Ou seja, não me pode ajudar. — Posso registar o seu pedido. Quer formalizar? Queria ouvir «sim, foi um erro, já resolvemos». Mas em vez disso ouviu a funcionária ditar-lhe um número longo. — Número do pedido… — disse ela, como quem entregava uma senha na cozinha. — Resposta em até trinta dias. Repetiu o número em voz alta, para não esquecer. Trinta dias soavam a condenação, mas agradeceu. Agradeceu por hábito, como quem diz “com licença” no fim de uma humilhação. Em casa, abriu a gaveta com documentos, onde guardava recibos, contratos e papéis antigos. Sempre se considerou organizado: pagava tudo a tempo, evitava créditos, até as multas de estacionamento pagava logo. Espalhou sobre a mesa o BI, NIF, NISS, como se fossem provas da sua seriedade. A mulher saiu do quarto, viu a mesa e o ar dele. — O que foi? Contou-lhe. Tentou manter a calma, mas a meio a voz deu um estalido. — Será alguma multa antiga? — arriscou ela. — Que multa daria isto e com bloqueio? — Apontou para o telemóvel, onde continuava a mensagem do bloqueio. — Só fui de casa para o trabalho. — Eu perguntei, só. Hoje em dia isso acontece. A palavra “acontece” irritou-o. Como se a própria vida fosse só estatística. — Acontece que alguém te mete como devedor e tens de provar que não és burro — disse ele, logo arrependido do tom. Ela pousou um copo de água à frente dele e saiu. Ficou sozinho, rodeado de documentos, a sentir que a casa tinha menos ar. No dia seguinte foi ao banco. O ambiente lembrava uma clínica, tudo limpo e silencioso. As pessoas esperavam sentadas, os olhos fixos nos telemóveis, à espera que o painel mostrasse o seu número. Tirou uma senha: “Questões sobre contas”. Sentiu o aborrecimento crescer por causa do próprio sistema: a senha fazia dele um problema, não uma pessoa. Quando chegou a vez, a gerente sorriu profissionalmente. — Em que posso ajudar? Mostrou o telemóvel, explicou o bloqueio. — Sim, vejo a restrição — respondeu, clicando no rato. — Não temos acesso à base de dados das execuções. Só podemos entregar extrato dos movimentos e declaração da restrição. — Dê-me tudo o que puder — pediu — preciso já hoje. — A declaração pode demorar até três dias úteis. — E se preciso do medicamento? — A voz soou-lhe pedinte, pior que estar zangado. A gerente hesitou um segundo. — Eu compreendo. Mas tem de ser assim. Assinou o pedido da declaração, recebeu uma cópia com carimbo e data. O papel saía quente da impressora e ele segurou-o como a única arma contra uma máquina invisível. Do banco foi ao Balcão do Cidadão. Cheirava a café de máquina e detergente, sem cobrir o cansaço geral do espaço. À entrada, uma jovem de colete auxiliava nas senhas eletrónicas. — Quero falar com as execuções fiscais — disse. — Não temos esse serviço cá — respondeu, — mas recebemos pedidos, ajudamos no portal das Finanças. O que precisa? Mostrou o papel do banco e o número do processo. — O melhor é ir diretamente à Autoridade. Mas, se quiser, posso imprimir o registo do portal, se houver. Não tinha escolha. Tirou senha e sentou-se. Os números corriam no ecrã, as pessoas iam às mesas, voltavam com pastas, murmuravam. Reparou que as próprias mãos pareciam mais velhas. A funcionária pediu o BI. — Tem acesso confirmado online? — perguntou. — Tenho. Ela pesquisou com atenção. — Há processo executivo, sim — disse enfim —, mas com outro NIF. Inclinou-se. — Como, outro NIF? — Veja — leu-lhe os números. — O seu é este… no processo difere um algarismo. Um algarismo. Sentiu alívio, como se recuperasse o direito a protestar. — Não é minha dívida — explicou. — Pode ser erro de dados. Às vezes, basta nome e data parecida. — E agora? — Pode apresentar reclamação e anexar cópias dos documentos. Mas quem decide são eles. Ela imprimiu o formulário, ele assinou. Juntaram cópias do BI, NIF, NISS. Viu a vida resumida a papéis que seguiam para o scanner. — Demora quanto tempo? — perguntou. — Trinta dias. — E ao vê-lo — Às vezes, menos. Outra vez trinta. Saiu do Balcão com uma pasta: aqui, o número de entrada era mais importante do que o nome. À Autoridade só conseguiu ir dois dias depois. Na entrada, o segurança revistou a mala, pediu silêncio no telemóvel. No corredor, gente com crianças, outras com pastas de papéis. Na parede, um aviso: “Atendimento por marcação”. Ao lado, uma folha rabiscada com nomes em lista. Perguntou a uma senhora: — Aqui inscreve-se? — Aqui vive-se — respondeu sem sorrir. — Assina-se logo que se chega. Escreveu-se no fim. Sentou-se numa janela, sem cadeira. O tempo não corria – partia-se em irritações: alguém queria passar à frente, outro gritava ao telefone, uma pessoa chorava na casa de banho. Chamaram-no. No gabinete, a funcionária, cerca de 40 anos, olhos cansados, entre o monitor, pilhas de processos e um carimbo. — Nome? — nem levantou a cabeça. Deu. — Número do processo? Entregou o papel do banco. Ela viu, clicou no rato. — Tem dívida de crédito — disse. — Não tenho créditos, — sentiu a voz endurecer — veja o NIF. Está errado. Ela franziu o sobrolho, leu o ecrã de perto. — NIF não coincide, é verdade. Mas o sistema puxou pelos dados de nome e nascimento. — Só com isso vos bloqueiam a conta? Ela suspirou. — Trabalhamos com o que chega. Se há erro, só com declaração e confirmação documental. Já entregou? Pôs à frente as cópias do Balcão. — Aqui está, com carimbo de entrada. Ela folheou. — É pedido ao Balcão. Aqui ainda não chegou. — Não posso esperar que chegue. Fiquei sem dinheiro para medicamentos. Pela primeira vez, fitou-o diretamente. — Pensa que é o único? — disse sem azedume. — Tenho cem processos na mesa. Posso aceitar aqui, mas não ando mais rápido por isso. Quis gritar. Mas via-lhe o cansaço, percebeu que o grito seria só mais um episódio. — Certo, — respirou fundo. — Faço já aqui. Que é preciso? Preencheu o formulário: “Peço exclusão do processo executivo por erro de identificação”. Anexou BI, NIF. A funcionária carimbou “Recebido”. — Demora até dez dias para verificar. Se confirmar erro, anulamos a medida. — E o dinheiro? — Para devolver, tem de solicitar à parte credora. Já não é connosco. Saiu com o novo carimbo. Era uma vitória pequena, mas vitória sobre o quê? Conseguirem reconhecê-lo como pessoa. À noite pediu novo meio-dia ao chefe. — Estás a gozar comigo? — olhou-o como se inventasse desculpas. — Temos relatório. — Tenho contas bloqueadas — explicou. — Ando nas repartições. — Diz-me a verdade, houve quê? Pensão? Créditos? Pior que a farmácia. Ficou sério. — Nada. Erro no sistema. O chefe encolheu os ombros. — Vê se isso não nos prejudica. A contabilidade já estranhou os movimentos. No e-mail, da contabilidade: “Tem execução?”. Tudo se fechou. Respondeu curto: “Erro, a resolver, envio documentação”. Percebeu que agora tinha de se justificar a colegas de dez anos. Em casa, a mulher perguntou o que disseram. — Aceitaram o pedido, — respondeu. — Menos mal — calou-se —. Tens a certeza que não é por causa do crédito antigo do teu irmão? Foste fiador… Levantou a cabeça. — Recusei ser fiador. Eu lembro-me. Ela assentiu, mas o olhar ficou com dúvida. A máquina já criara fissura, difícil de colar com documentos. Uma semana depois, chegou ao portal das Finanças: “Identificação errada. Anula-se a medida.” Leu três vezes, para acreditar. Abriu o banco. As contas estavam de novo disponíveis, valores normais. Mas no topo, aviso: “Operações podem estar limitadas até atualização”. Tentou pagar a luz. O pagamento atrasou, esperou até o sistema aceitar. Foi à farmácia; comprou o que precisara no início. A funcionária nem o reconheceu. Pensou em explicar, mas calou-se. Pegou no saco e saiu. Dois dias depois, o banco ligou. — Recebemos confirmação do levantamento da medida — disse a operadora —, mas pode manter-se registo provisório na sua história de crédito até 45 dias. — Ou seja, fica a marca. — Temporariamente. “Temporário” não acalmava. Imaginou, daqui a um mês, pedir crédito para arranjar as janelas da mãe e ouvirem: “Teve restrições”. E tinha de explicar tudo de novo. Pediu devolução dos valores. A funcionária explicou que o credor — o banco do crédito do outro — teria de devolver. Enviou cópias, pedido formal, IBAN. Recebeu resposta: “O seu pedido foi registado”. Mais um número. Neste tempo, deu por si a falar mais baixo. Como se cada palavra pudesse disparar o mecanismo todo outra vez. Verificava notificações várias vezes por dia; entrava no portal das Finanças, via a secção de execuções, garantia que estava vazio. O vazio tornou-se a sua paz. Um dia, no Balcão, foi tratar dum assunto da mãe. Viu um homem com uma pasta, perdido. Tinha uma senha, olhava indeciso para o ecrã. — Qual é o seu caso? — surpreendeu-se a perguntar. — Disseram-me que tenho dívida, — baixou a voz. — O banco falou em execuções. Reconheceu nos olhos do outro o mesmo misto de vergonha e raiva. — Primeiro, peça extrato ao banco para ter o número do processo. Depois aqui pode imprimir do portal, costuma mostrar a quem foi atribuído. Se o NIF ou data estão errados, faça queixa por erro de identificação. E peça carimbo de entrada. O homem ouviu-o como se fosse um mapa. — Obrigado. Já passou por isto? Assentiu. — Passei. Não foi rápido. Nem ficou tudo claro. Mas passei. Saiu do Balcão com a procuração da mãe e parou à porta para arrumar papéis na pasta. Pesava não pelo volume, mas pelo hábito de registar tudo. E sentiu que respirava melhor. Em casa, arquivou a decisão da autoridade, as declarações do banco, os pedidos, tudo num dossiê com o marcador: “Proc. Exec., erro”. Antes teria vergonha desse título — agora não importava. Fechou a gaveta e, sem se exaltar, disse à mulher: — Se voltar a acontecer, já sei o que fazer. E não vou pedir desculpa. Vou exigir os meus direitos. Ela olhou-o longamente, depois assentiu. — Está bem, — disse. — Vou fazer o chá. Foi à cozinha e pôs a chaleira ao lume. O rumor da água pareceu-lhe a prova de que a vida lhe pertence, e não só aos números e prazos.
O Número do Processo Lembro-me bem de como tudo aconteceu, num tempo em que Lisboa ainda cheirava a castanhas
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03
Как разбрах от свекърва си толкова много нови и любопитни неща за себе си Моят съпруг често работи до късно, а аз оставам вкъщи със нашия едногодишен син, който постоянно изисква внимание и често е капризен. Въпреки умората се старая да бъда добра съпруга, макар че това изисква допълнително време и усилия. Сега си мисля, че по-добре би било да се наспя! Често готвя вкусна вечеря за съпруга си, а домът ни грее от чистота. Но винаги ни липсват пари, затова реших да започна работа на половин работен ден. Наскоро съпругът ми инвестира всички спестявания в собствен бизнес. Бях във възторг, когато майка му предложи помощ и каза, че ще гледа внука, докато аз съм на работа. Но когато веднъж се прибрах у дома по-рано от работа, чух нейното слово, от което научих толкова много нови неща за себе си! А сега не знам какво да правя с тази информация!
Как разбрах от свекърва ми толкова нови и интересни неща за себе си Съпругът ми често се задържа до късно
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019
Číslo podania Za pokladňou v lekárni pokladníčka automaticky podala terminál, on bez rozmýšľania priložil kartu. Displej zablikal načerveno, zapišťal a stroho zahlásil: „Transakcia zamietnutá.“ Skúsil to ešte raz, tentoraz pomalšie, akoby od tempa záviselo, či je, alebo nie je človek s peniazmi. „Možno iná karta?“ spýtala sa pokladníčka, ani nezdvihla pohľad. Vytiahol druhú, výplatnú, a opäť to isté tiché zamietnutie. Za chrbtom niekto netrpezlivo vzdychol a jemu začalo hučať v ušiach. Dal si do vrecka krabičku s tabletkami, ktoré už stihol vypýtať, a zamrmlal, že to ide vyriešiť. Vonku sa zastavil pri stene, aby nezavadzal prúdu ľudí, otvoril bankovú aplikáciu. Namiesto známych čísel sivé okno a veta, z ktorej mu všetko vnútri stíchlo: „Účty zablokované. Dôvod: exekučné konanie.“ Bez sumy, bez vysvetlenia, len tlačidlo „Viac“ a číslo, čo sa podobalo cudzím dokladom. Díval sa a dúfal, že to pohľadom rozpustí. V hlave mu hneď naskočili veci, ktoré nesmie odložiť: o týždeň mal kúpiť lístky domov k mame na vyšetrenie, s prácou si vybavil dva dni voľna, vedúci nerád, ale pustil. A tie lieky, čo práve nevedel zaplatiť. Zavolal na bankovú linku. Automat poprosil „ohodnoťte kvalitu našich služieb“ skôr, než sa niekto ozval. „Počúvam vás,“ povedala operátorka. Hlas mala naučený, odmeraný, akoby vzdialenosť držala podľa predpisu, nie z nepriateľstva. Nadiktoval meno, rodné číslo, posledné čísla občianskeho. Povedal, že účty sú zablokované, že to musí byť omyl. „Vo vašom profile evidujeme obmedzenie na základe exekučného príkazu,“ odpovedala. „Nemôžeme blokáciu zrušiť. Skúste sa obrátiť na Slovenskú exekučnú komoru. Vidíte číslo konania?“ „Vidím. Neviem, čo to je. Nemám žiadne dlhy.“ „Rozumiem. Ale banka nie je iniciátor. My len plníme povinnosť.“ „A kto je iniciátor?“ Zistil, že hovorí hlasnejšie, než chcel. „V dokumente je uvedený Exekučný úrad. Môžem nadiktovať adresu.“ Nadiktovala, poznačil si ju na rub lekárenského bloku. Ruku mu triaslo od zlosti a hanby, akoby ho niekto nachytal pri malom kradnutí. „A peniaze?“ spýtal sa. „Účet ukazuje ‚zrážka‘.“ „Zrážka bola vykonaná v rámci exekúcie. Pre vrátenie peňazí sa musíte obrátiť na oprávneného alebo exekútora.“ „Takže mi nepomôžete.“ „Vieme zaevidovať podanie. Chcete číslo podania?“ Chcel, aby niekto povedal: „Áno, je to chyba, hneď to opravíme.“ Namiesto toho len počúval, ako diktuje čísla. „Číslo podania…“ vyslovila to, akoby mu odovzdávala lístok do šatne. „Lehota vybavenia do tridsiatich dní.“ Zopakoval si číslo nahlas, aby nezabudol. Tridsať dní znelo ako rozsudok, aj tak poďakoval. Podvedome, ako „dovidenia“ po rozhovore, ktorý ponížil. Doma otvoril zásuvku s dokladmi, kde mal všetky platby, zmluvy, potvrdenia. Vždy bol poriadny: platil načas, nebrával si zbytočné úvery, aj pokuty za parkovanie platil hneď, aby nezabudol. Rozložil na stôl občiansky, rodné číslo, daňové identifikačné — ako dôkazy vlastnej slušnosti. Manželka vyšla z izby, uvidela stôl a jeho tvár. „Čo sa stalo?“ Vysvetlil jej to. Snažil sa pokojne, ale v strede vety sa mu zlomil hlas. „Nebol to starý dlh?“ opatrne sa spýtala. „Akože dlh na takéto sumy a ešte aj blokácia?“ Ukázal na displej s upozornením. „Nikde nechodím, len do práce.“ „Len sa pýtam,“ zdvihla ruky. „Dnes je to bežné.“ Slovo „bežné“ ho vytočilo. Akoby život bol len štatistika. „Bežné je, že človeka omylom zaradia medzi dlžníkov a on musí dokazovať, že nie je ťava,“ povedal — a hneď to oľutoval. Položila na stôl pohár s vodou a ticho odišla. Zostal s papiermi a pocitom, že v byte je menej vzduchu. Na druhý deň šiel do pobočky banky. V hale bolo svetlo a ticho, ako v čakárni po rekonštrukcii. Ľudia sedeli s číselkami, čakali, kým sa rozsvieti ich poradie. Vzdal si lístok. „Otázky k účtom“, stálo na ňom. Sadol si a pocítil, ako ho začína zvnútra žrať samotná forma čakania. Číslo z neho robilo úradnú položku, nie človeka. Keď ho zavolali, poradkyňa sa usmiala profesionálne. „Ako vám môžem pomôcť?“ Ukázal displej, vysvetlil blokovanie. „Áno, vidím obmedzenie,“ klika myšou. „Nemáme prístup k databáze exekútorov. Môžeme vám vystaviť výpis transakcií a potvrdenie o blokácii.“ „Dajte všetko, čo sa dá. Potrebujem to dnes.“ „Potvrdenie bude hotové do troch pracovných dní.“ „A keď mi treba kúpiť lieky?“ Počul vo vlastnom hlase nárek — a to bolo ešte horšie než hnev. Poradkyňa na chvíľku zrozumela. „Chápem. Ale postup je taký.“ Podpísal žiadosť, dostal kópiu s dátumom a podpisom. Papier bol ešte teplý z tlačiarne, zvieral ho ako jediné, čo mal proti neviditeľnej mašinérii. Z banky rovno šiel na Klientske centrum. Vzduch tam voňal po automate na kávu a dezinfekcii, ktorú neprehlušila únava ľudí. Pri vstupe stál terminál na poradie, pri ňom dievča v veste, pomáhala vybrať službu. „K exekútorom,“ povedal. „Exekútori tu nie sú,“ odpovedala. „Môžeme vám dať žiadosť, vypísať údaje, pomôcť s ‚Slovensko.sk‘. O čo ide?“ Ukázal jej potvrdenie z banky a číslo konania. „Najlepšie je ísť hneď na exekútorský úrad,“ povedala. „Ale môžeme vytlačiť výpis zo Slovensko.sk, ak tam niečo je.“ Nemal inú možnosť. Vzal lístok, sadol si. Na displejoch bzučali čísla, ľudia chodili k okienkam, s papiermi sa vracali, polohlasom sa hádali. Pozeral na ruky: zdali sa staršie ako včera. V okienku chcela pracovníčka občiansky preukaz. „Máte potvrdenú elektronickú identitu?“ spýtala sa. „Áno.“ Otvorila jeho profil, dlho niečo hľadala. „Exekučné konanie naozaj je,“ povedala konečne, „ale je tam iné rodné číslo.“ Sklonil sa bližšie. „Aké iné?“ „Pozrite. Vaše je…“ čítala čísla. „Tu v spise je o jednu číslicu iné.“ Jedna cifra. Pocítil zvláštne uvoľnenie, akoby mu vrátili právo na rozčúlenie. „To nie je môj dlh,“ povedal. „Je to pravdepodobne chyba pri párovaní údajov. Stáva sa to, ak sú rovnaké mená alebo podobné dátumy narodenia.“ „A čo teraz?“ „Vieme prijať nesúhlas s konaním a priložiť kópie všetkých dokladov. Rozhodnutie je vždy na exekútorovi.“ Vytlačila vyhlásenie, podpísal. Pripojila kópiu občianskeho, DIČ, rodného čísla. Videl, ako sa jeho život mení na kôpku papierov, miznúcich v skeneri. „Lehota na vybavenie?“ spýtal sa. „Do tridsiatich dní,“ povedala — a keď videla jeho pohľad, dodala: „Niekedy aj skôr.“ Zase tridsať. Odišiel z centra s obálkou, v ktorej boli kópie a prichádzajúce číslo. Číslo bolo dôležitejšie ako meno. Na exekútorský úrad sa dostal až o dva dni. Pri vchode strážnik skontroloval tašku, vypol mu telefón. V chodbe stáli ľudia s deťmi, so stohmi papierov. Na stene oznam: „Prijímame len vopred objednaných.“ Vedľa zoznam príchodzích — mená zapísané pod seba. Opýtal sa ženy v rade: „Tu sa zapisuje?“ „Život sa tu zapisuje,“ odvetila bez úsmevu. „Kto skôr príde, ten sa zapísal.“ Napísal si meno na koniec. Sadol si na parapet, nebolo dosť stoličiek. Čas sa nevliekol — drobil sa na drobné nervy: niekto sa snažil predbiehať, niekto nahlas vysvetľoval cez telefón, že „exekútori nič nerobia“, niekto plakal na záchode. Konečne ho zavolali do kancelárie. Za stolom exekútorka okolo štyridsiatky, unavený pohľad. Na stole monitor, kopa spisov, pečiatka. „Meno?“ spýtala sa bez pohľadu. Nadiktoval. „Číslo konania?“ Podal jej bankový papier. Pozrela, klikala myšou. „Máte dlh na úver,“ povedala. „Ja nemám žiadny úver,“ pocítil, ako mu tvrdne hlas. „Skúste si pozrieť rodné číslo. Je tam chyba.“ Zamračila sa, priblížila displej. „Skutočne nesedí rodné číslo,“ povedala. „Systém vás označil podľa mena a dátumu narodenia.“ „To naozaj stačí na blokovanie účtov?“ Vzdychla. „Pracujeme s údajmi, aké prídu. Ak je v nich chyba, treba podať žiadosť o technickú chybu a doložiť totožnosť. Podali ste?“ Podal jej kópie z klientského centra. „Tu sú. A číslo podania.“ Prelistovala. „To je žiadosť cez centrum. Ešte nám neprišla.“ „Ale ja nemôžem čakať, kým dorazí. Už mi strhli peniaze, nemôžem si kúpiť lieky.“ Prvýkrát sa mu pozrela priamo do očí. „Myslíte, že ste sami?“ povedala ticho, bez zlosti. „Na stole mám sto spisov. Môžem to prijať tu. Ale hneď vyriešiť to nebude.“ Chcelo sa mu kričať, ale videl jej únavu. Vedel, že krik nič nezrýchli, len ho zaradí medzi „problémových“. „Dobre,“ povedal a zhlboka dýchal. „Čo treba?“ Podala mu tlačivo. Vyplnil: „Žiadam o vyňatie z exekúcie z dôvodu mylnej identifikácie.“ Priložil kópie občianskeho, DIČ. Exekútorka dala pečiatku „Prijaté“. „Lehota do desiatich dní na overenie,“ povedala. „Ak sa potvrdí, vydáme rozhodnutie o zrušení opatrení.“ „A peniaze?“ „Na vrátenie zrážky musíte podať osobitnú žiadosť. Oprávnený (banka) musí vrátiť. Ja už to za vás nevyriešim.“ Odišiel s novou pečiatkou. Bola ako malá výhra — ale výhra nad čím? Nad tým, že ho konečne uznali za reálneho. Podvečer požiadal vedúceho o voľno na ďalšie poldeň. „Ty si robíš srandu?“ Vedúci sa naňho díval, akoby si vymýšľal kvôli útekom. „Máme uzávierku.“ „Mám zablokované účty,“ povedal. „Obieham úrady.“ „Počúvaj — úprimne, ty si niečo vyviedol? Výživné, úvery?“ Horšie ako odmietnutie v lekárni. Stvrdlo mu v tvári. „Nič som nevyviedol,“ povedal. „Omyl v systéme.“ Vedúci pokrčil plecami. „Dobre, len aby nás to nestiahlo. Účtovníctvo sa už pýtalo, čo tie zrážky.“ Vrátil sa k počítaču, tam e-mail od účtovníčky: „Prosíme o potvrdenie, či máte exekučné tituly.“ Všetko mu stiahlo žalúdok. Odpísal stručne: „Omyl, riešim, doložím doklady.“ Uvedomil si, že nie je dlžníkom len pre exekútora, ale už aj pre ľudí, s ktorými pracuje desať rokov. Doma manželka: čo povedala úradníčka? „Prijali žiadosť,“ odpovedal. „Aspoň niečo,“ povedala a zamĺkla. „Si si istý, že to nie je pre starý úver tvojho brata? Veď vtedy si…“ prudko zdvihol hlavu. „Nebol som ručiteľ. Odmietol som. Pamätám si to.“ Prikývla, ale v očiach ostala neistota. Už stihol zasiahnuť efekt — trhlina, ktorú nepokryje žiadny papier. O týždeň mu dorazilo rozhodnutie do elektronickej schránky. Otváral ho trasúcimi sa prstami. Písalo sa v ňom: „Zistená nesprávna identifikácia dlžníka. Opatrenia zrušiť.“ Čítal to trikrát, kým uveril. Hneď otvoril bankovú aplikáciu. Účty aktívne, čísla späť, akoby sa nič nestalo. Ale viselo tam ešte varovanie: „Operácie môžu byť obmedzené do aktualizácie údajov.“ Skúsil zaplatiť za energie. Platba prešla, ale so zdržaním a dovtedy hľadel na točiaci sa kruh. Išiel do lekárne po tabletky, ktoré prvý deň nevedel zaplatiť. Pokladníčka ho nespoznala. Chcel jej povedať niečo ako „je to už v poriadku“, ale pripadalo by to divne. Prosto zobral balík a odišiel. O dva dni volali z banky. „Dostali sme info o zrušení opatrení,“ povedala operátorka. „Ale v úverovej histórii môže zostať záznam, kým úverové registre aktualizujú. Môže to trvať až 45 dní.“ „Takže stopa zostane,“ povedal. „Dočasne.“ „Dočasne“ ho neupokojilo. Predstavil si, ako o mesiac požiada o splátky na nové okná pre mamu a povedia: „Mali ste exekúciu.“ A opäť vysvetľovať, že nie je vinný. Podal žiadosť na vrátenie zadržaných peňazí. Exekútorka vysvetlila, že oprávnený je banka — tá musí vrátiť. Poslal doklady a podklady. Odpoveď: „Vaše podanie evidujeme.“ Ďalšie číslo. Dovtedy sa pristihol, že hovorí potichšie. Akoby každé slovo mohlo znovu spustiť ten stroj. Niekoľkokrát denne kontroloval notifikácie, otváral Slovensko.sk, navštevoval sekciu „Exekučné konania“ — presvedčiť sa, že je prázdna. Prázdno sa stalo novou normou. Raz v klientskej hale čakal na vybavenie spomínaných splnomocnení pre mamu, sedel tam aj iný muž s papiermi, stratený ako školák. Držal lístok a nechápal, kam má ísť. „Aký máte problém?“ spýtal sa ho, sám prekvapený, že oslovil. „Vraj mám dlh,“ stíšil muž hlas. „Netuším, odkiaľ. V banke ma poslali na exekúciu.“ Videlo mu to v očiach — tú istú hanbu a zlosť, akú mal nedávno on sám. „Najskôr si v banke vypýtajte výpis s číslom konania. Tu si zo Slovensko.sk zistíte, podľa akých údajov vás identifikovali. Ak nesedí rodné alebo DIČ, žiadajte výmaz.“ A nezabudnite na podacie číslo. Muž si ho vypočul, akoby mu dal mapu. „Vďaka. A vám sa to… podarilo?“ „Podarilo,“ prikývol. „Nie hneď. A nie úplne. Ale podarilo.“ Odišiel s plnou obálkou a pri dverách zastal, aby všetko uložil do tašky. Taška bola ťažká nie papierom, ale novým zvykom: všetko dokumentovať. Zrazu pocítil, že dýcha pravidelnejšie. Doma starostlivo založil rozhodnutie exekútora, potvrdenia z banky, kópie žiadostí do zvláštnej zložky a hrubým písmom napísal: „Exekúcia, chyba“. Kedysi by sa hanbil za taký názov — akoby priznával vinu. Teraz už nie. Uložil zložku do zásuvky, zatvoril a bez zvýšeného hlasu povedal žene: „Ak sa to ešte zopakuje, viem, čo treba robiť. Nebudem sa ospravedlňovať. Budem žiadať.” Dlho sa naňho dívala, potom prikývla. „Dobre,“ povedala. „Poď na čaj.“ Šiel do kuchyne a zapol sporák. Voda v kanvici začala bublotať. Ten tichý zvuk mu zrazu pripadal ako dôkaz, že život stále patrí jemu — nie číslam a lehotám.
Evidenčné číslo Lekárnička mi podala terminál a ja som automaticky priložil kartu, bez toho, aby som
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07
Antes Que Seja Tarde Natália segurava, numa mão, o saco dos medicamentos e, na outra, a pasta com os exames, enquanto tentava não deixar cair as chaves ao fechar a porta do apartamento da mãe. A mãe, teimosa, insistia em não se sentar no banco do corredor, apesar das pernas a tremerem. — Eu consigo, — disse a mãe, esticando-se para agarrar o saco. Natália afastou-a de leve com o ombro, suave mas firme, como quem afasta uma criança do fogão. — Vais sentar-te agora. E não discutas. Reconhecia aquele tom em si própria. Surgia quando tudo parecia fugir-lhe das mãos e era preciso agarrar, nem que fosse só o essencial: saber onde estavam os documentos, quando tomar os comprimidos, a quem ligar. A mãe aborrecia-se com esse tom, mas calava-se. Hoje o silêncio pesava mais. Na sala, o pai estava sentado junto à janela, de camisa, com o comando da televisão fechado na mão. Mas a televisão estava desligada. Não olhava para a rua, mas para o vidro, como se lá dentro estivesse a passar outro canal. — Pai, — aproximou-se Natália. — Trouxe o que o médico receitou. E aqui está o pedido para a TAC. Amanhã de manhã vamos. O pai acenou a cabeça. O gesto foi discreto, como uma assinatura ao fundo de uma folha. — Não vale a pena andares para aí comigo, — disse. — Eu vou sozinho. — Vais, pois, — atalhou a mãe, suavizando logo a voz, como se se assustasse com a própria firmeza. — Eu vou contigo. Natália quis dizer que a mãe não aguentava esperas nem filas, que lhe subia a tensão, que ia passar mal e ainda se calava. Mas ficou em silêncio. Sentiu crescer aquela irritação antiga: porque é sempre tudo ao colo dela, porque ninguém parece capaz de simplesmente ceder e fazer como é preciso. Arrumou os papéis em cima da mesa, conferiu as datas, prendeu com um clip os resultados das análises da semana anterior e voltou a sentir o cansaço habitual de ser “a responsável”. Tinha quarenta e sete anos, família, trabalho, o empréstimo da casa do filho, e mesmo assim, quando algo acontecia aos pais, voltava a ser ela a tomar as rédeas, mesmo quando ninguém lhas pedia. O telefone tocou, e Natália viu no visor o número do centro de saúde. Foi para a cozinha, fechou a porta com cuidado. — Dona Natália? — a voz soava jovem, cortês, distante. — Falo da Oncologia do Hospital. Sobre o resultado da biópsia… O termo já não lhe era estranho, mas continuava a soar fora da sua vida. — …há suspeita de processo maligno. Precisa de exames complementares, com urgência. Sei que é duro ouvir isto, mas o tempo conta muito. Natália segurou-se à mesa para não se sentar. Imagens subiram-lhe à cabeça, sem pedir: corredores de hospital, soros, rostos anónimos, as costas da mãe, de lenço. Ouviu o pai tossir na sala, e de repente aquela tosse foi uma confirmação. — Suspeita… — repetiu — Então não é certo, mas… — Falamos de probabilidade elevada. Recomendo não perder tempo, — disse o médico. — Amanhã cedo apareça com os documentos, faço questão de a receber sem marcação. Agradeceu, desligou, e ficou uns segundos a olhar para o bico do fogão, como se ali encontrasse instruções para o que fazer a seguir. Quando regressou, a mãe já a fitava. — O quê? — perguntou. — Diz lá. Natália abriu a boca. As palavras saíram secas. — Suspeitam de cancro. Pediram urgência. A mãe sentou-se. O pai não mudou de expressão, mas apertou tanto o comando que os nós dos dedos ficaram brancos. — Pois, — murmurou ele. — Até onde chegámos. Natália quis protestar, dizer “não digas isso”, “ainda não se sabe”, mas sentiu um nó na garganta. Percebeu quão sustentadas eram as suas rotinas familiares no velho pacto de não dizer o que assusta em voz alta. Agora a palavra soara, e as paredes tinham ficado mais finas. Nessa noite, em casa, não conseguiu deitar-se. O marido dormia, o filho escrevia no telemóvel no quarto, e ela sentada na cozinha, fazia listas: que papéis levar, que análises repetir, a quem ligar. Ligou ao irmão. — Ó Alexandre, — esforçou-se por manter a voz firme. — O pai tem uma suspeita. Amanhã vamos ao hospital. — Suspeita de quê? — o irmão parecia não ouvir bem. — Cancro. A pausa foi longa, demasiado. — Não posso amanhã, — disse ele afinal. — Estou de serviço. Natália fechou os olhos. Sabia que o irmão tinha de trabalhar, que não podia simplesmente largar tudo. Mas sentiu aquela velha onda: ele “não pode” sempre, ela “pode” sempre. — Alexandre, — chamou, e a voz vacilou. — Não é só um turno. É o pai. — Vou ao fim do dia, — respondeu ele depressa. — Sabes que eu… — Eu sei, — atalhou Natália. — Sei que foges sempre que tens medo. Arrependeu-se logo a seguir, mas já tinha dito. O irmão calou-se, depois suspirou. — Não comeces, — disse. — Sempre gostaste de mandar, depois cobras. Ela desligou, sentindo-se vazia por dentro. Sentou-se, a ouvir o frigorífico ressonar, pensando que não era altura de discutir quem tinha razão. Mas era quando o medo apertava que tudo saía cá para fora. No dia seguinte, foram os três juntos ao hospital: Natália ao volante, mãe ao lado, pai atrás. Este levava a pasta, como se não fosse papel mas algo que se pode perder para sempre. Na recepção, preencheu formulários, entregou cartão, pedidos médicos. A mãe tentava ajudar mas baralhava datas. O pai esperava de lado; Natália cruzou o seu olhar, e percebeu que ele não olhava as outras pessoas com pena, mas com um lento reconhecimento. — Dona Natália, — chamou a enfermeira. — Pode entrar. No gabinete, o médico folheava rapidamente papéis. Natália tentava decifrar as notícias pelo rosto dele. O tom era calmo, mas os termos diziam muito: “agressividade”, “estadiamento”, “é preciso confirmar”. O pai sentava-se direito, como em reunião. — Vamos repetir algumas análises — explicou o médico. — E uma nova biópsia. Por vezes o material não chega. — Mas então não têm a certeza? — perguntou Natália. — Em medicina raramente há certezas sem confirmação, — respondeu. — Mas temos obrigação de agir como se fosse muito sério. Essa frase doeu mais do que a palavra “suspeita”. Aja como se o tempo estivesse a acabar. Natália sentiu-se no modo avanço rápido. O resto — trabalho, cansaço, planos — ficou em segundo plano. Os dias seguintes passaram num só bloco: manhãs de telefonemas, receitas, idas e voltas; tardes de filas e papeladas; noites na cozinha dos pais, a fingir que só estavam a discutir logística. — Vou tirar férias, — anunciou Natália à segunda noite, servindo sopa. — No trabalho desenrascam-se. — Não é preciso, — respondeu o pai. — Tens tua vida. — Pai, — pousou-lhe a tigela à frente. — Agora não é tempo para orgulhos. A mãe olhava-os, com o lábio a tremer. Sempre foi forte, quando o pai ficou sem emprego, quando Natália se separou, quando o irmão se meteu em chatices. Aguentava tanto que depois ninguém perguntava como estava. — Não quero que vocês… — começou a mãe, mas calou-se. — Que não o quê? — Natália olhou para ela. — Que depois fiquem sem se perdoar. Natália podia dizer que havia muito que não se perdoavam, só nunca diziam. Mas calou-se. Nessa noite, sem sono, deitada ao lado do marido adormecido, pensou na velhice do pai. Lembrou-se de como ele a ensinara a andar de bicicleta, a segurava pela sela até ela conseguir ir sozinha. Não tinha medo de cair, porque ele estava perto. Agora era ela que ficava perto, e parecia-lhe segurar não a bicicleta, mas a casa toda. No terceiro dia, o irmão apareceu. Entrou no apartamento com um saco de fruta e um sorriso envergonhado. — Olá, — disse, e Natália sentiu vontade de zangar-se, porque aquele sorriso era completamente fora de lugar. — Olá, — respondeu ela, seca. Na cozinha, a mãe cortava maçãs, o pai calado. O irmão começou a falar do trabalho, enchendo o silêncio com banalidades. — Alexandre, — perdeu a paciência. — Percebeste o que se está a passar? — Percebi, — cortou ele. — Não sou parvo. — Então por que não vieste ontem? Porque só fazes o que te convém? Branco como a cal, o irmão rebateu. — Alguém tem de trabalhar, não achas? O dinheiro aparece do ar agora? Tu tens sempre tudo planeado. Eu… — Tu o quê? — Natália inclinou-se. — Já és homem, Alexandre. Não és um miúdo. O pai levantou a mão. — Chega, — disse baixo. Mas ela já não conseguia parar. Misturava-se o medo pelo pai e a mágoa de anos, pelo irmão e por si. — Sempre desapareceste quando ficava difícil, — disse. — Quando a mãe estava doente, quando o pai… quando o pai bebia, lembras-te? Quem ficou? Eu. A mãe pousou a faca. — Não vás por aí, — pediu. — Isso já foi há muito. — Foi, — disse Natália. — Mas não desapareceu. O irmão bateu na mesa. — Achas que foi fácil para mim? — gritou. — Tu gostas de ser a chefe! Depois acusas os outros de dependerem de ti. E aquelas palavras acertaram fundo. Natália via-se dependente de ser necessária. Havia nisso qualquer coisa de doce e pesado. Ser precisa — ter direito. — Não odeio, — murmurou. E nem ela acreditou. O pai levantou-se. Fê-lo devagar, como se cada movimento tivesse de ser pensado. — Acham que não vejo? Pensam que não percebo que me dividem? Como se já não estivesse cá… Não acabou a frase. A mãe foi ter com ele e tomou-lhe a mão. — Não digas, — sussurrou. Natália viu de repente não o “pai”, mas a pessoa sentada na espera, ouvindo diagnósticos sem mostrar medo. Ficou-lhe um nó na garganta, de vergonha. O telefone vibrou. Era do laboratório onde tinham feito exames. — Sim? — respondeu. — Dona Natália? — a voz soava cansada, não era médica. — Falo do laboratório. Houve um erro na identificação das amostras. Estamos a rever tudo, é possível que os resultados do seu pai tenham sido trocados. Demorou a perceber. “Erro” e “trocados” pareciam irreais. — Desculpe? O que quer dizer trocaram? — Encontrámos inconsistências nos códigos de barra, — explicou. — Precisamos que venham amanhã de manhã repetir as análises, sem custo. E vamos rever a biópsia também. Pedimos desculpa. Natália pousou o telemóvel e ficou a olhar para o visor, à espera de confirmação. — Então? — perguntou o irmão. Ela levantou os olhos. O silêncio era inteiro. — Eles… — murmurou. — Dizem que podem ter trocado as análises. A mãe cobriu a boca. O pai sentou-se devagar, como se já não conseguisse ficar de pé. — Então… — o irmão perguntou, hesitante. — Então afinal pode não ser… Natália acenou. Sentiu não alegria, mas um vazio estranho. Como se alguém desligasse o alarme — e finalmente se ouvisse tudo o que tinham dito. No outro dia, voltaram ao laboratório. Ela levou os pais, o irmão foi de autocarro. Ninguém fez piadas nem comentou o tempo. Esperaram na fila, os papéis nas mãos, ouvindo a enfermeira chamar nomes. O pai deu sangue sem uma palavra. Natália via a agulha entrar, a cor escura a encher o tubo, e pensava que nada daquilo era filme, era simplesmente a vida deles, onde um erro num código basta para virar dias ao contrário. Deu-se prazo de dois dias para o novo resultado. Esses dois dias foram diferentes. Não havia pânico, mas sim uma estranheza. A mãe simulava normalidade, mexia com chávenas, perguntava-lhe se estava cansada. O pai falava menos. O irmão ligou-lhe duas vezes: “Como estão?” “Vai andando.” Ela respondia igual. Deu por si à espera que alguém dissesse “Desculpa.” Mas ninguém disse. Nem ela, porque não sabia por onde começar. Quando o hospital ligou a dizer que, revisto o material, não havia sinais de malignidade, Natália estava presa no trânsito do Eixo Norte-Sul. Ouviu o médico explicar que o erro residia na identificação e na amostra insuficiente, que agora era diferente, e era preciso apenas vigilância e controlo ao fim de seis meses. — Ou seja, não há cancro? — a voz falhou-lhe. — Não existem dados que confirmem cancro neste momento, — respondeu. — Mas exige-se acompanhamento. Desligou e ficou agarrada ao volante, carros a buzinar à volta, mas sentiu as lágrimas correrem. Não de alegria, mas pelo peso a que finalmente se permitia largar. Nessa noite, juntaram-se em casa dos pais. Natália levou uma tarte da pastelaria, porque não tinha mãos para fazer ela mesma. O irmão levou flores para a mãe. O pai no sofá, a olhar para eles como se voltassem de uma longa viagem. — Pronto, — disse o irmão, forçando o sorriso. — Podemos respirar. — Respirar, sim, — respondeu o pai. — Agora, como é que se volta a encher o peito? Natália fitou-o. Não havia mágoa na voz, só cansaço. — Pai, — começou. — Eu… Engasgou-se nas palavras. Percebeu que se começasse a justificar, voltava tudo ao mesmo: “eu só quis ajudar”, “foi o nervosismo”. Precisava dizer de outra forma. — Eu assustei-me, — confessou. — E comecei a mandar, como sempre. E despejei no Alexandre. Desculpa. O irmão baixou os olhos. — Também eu — admitiu. — Assustei-me e escondi-me no trabalho. Desculpa. A mãe suspirou, mas não chorou. Sentou-se ao lado do pai, deu-lhe a mão. — Quanto a mim, — olhou-os, — passei o tempo a fingir que estava tudo bem, para não discutirem. E para não me assustar tanto. Mas só vos afastou de mim. O pai apertou-lhe a mão. — Não preciso que sejam perfeitos, — disse. — Só quero que estejam perto. E que não me usem de desculpa. Natália acenou. Doía-lhe por dentro — a certeza de que a marca daqueles dias ficava. As frases sobre “desapareceres” e “gostas de mandar” não se apagam com um “desculpa”. Mas algo se mexia. Tinham dito em voz alta o que era sempre calado. — Olha, — propôs, serenamente. — Eu não vou decidir tudo. Ajudo, mas preciso que assumam parte também. Alexandre, podes tratar de vir pelo menos uma vez por semana controlar o pai nas revisões? Não é “se conseguires”: quero datas. O irmão assentiu, devagar. — Posso. Às quartas tenho folga. Venho. — E eu, — disse a mãe, — vou deixar de fingir que aguento tudo. Se estiver em baixo, digo. E não vou descarregar depois. O pai olhou para todos, e esboçou um pequeno sorriso. — E as consultas agora são em família: para não haver mais segredos. Natália sentiu nascer um calor delicado por dentro. Não uma festa, mas algo parecido com esperança. Depois do jantar, ajudou a mãe a arrumar. Os pratos tilintavam, a água corria. Secou as mãos e ficou uns segundos à porta da cozinha. — Mãe, — disse baixinho. — Não quero ser chefe. Só tenho medo que, se largar, tudo se desfaça. A mãe olhou-a nos olhos. — Tenta largar aos bocadinhos — respondeu. — Não tens de fazer tudo de uma vez. Também estamos a aprender. Natália acenou. Vestiu o casaco, confirmou as luzes, fechou a porta. No patamar, escutou a casa: nenhum grito, nada partido, só vozes sumidas. Desceu e seguiu para o carro, entendendo enfim: “antes que seja tarde” não é sobre um susto apenas. É sobre o direito de dizer e ouvir antes do medo, antes de se tornarem estranhos. E isso agora tem de ser confirmado não em palavras, mas em quartas-feiras, visitas, pequenos “preciso de ajuda” — que sustentam, afinal, bem mais do que o controlo.
Ainda Há Tempo Aurélia segura numa mão o saco com os medicamentos, na outra a pasta com os relatórios
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04
Може би иска да се върнем отново. Започна да ми праща дъщеря ни всяка събота и неделя.
Може би още ме иска обратно. Започна да ми праща дъщеря ни всеки уикенд. С бившата ми съпруга –
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059
Uma amiga marcou uma festa de aniversário na nossa casa de campo e convidou pessoas sem sequer pedir a nossa autorização
Há seis anos, eu e o meu marido comprámos uma casa de campo acolhedora perto de Sintra. Renovámos tudo
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00
Поем при майка си завинаги, – каза жената: Историята на Лола и Руслан – сблъсъкът между градския живот и майчиното влечение, брачната криза, семейната драма с наглия роднина, намесата на свекървата и трудният избор между независимостта и ролята на „добрата съпруга“ в българския дом
Ако сега тръгнеш, каза тихо Милена, не се връщай повече. Събери си тубите, инструментите, каталозите
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014
Kým nie je neskoro: Natália stojí s liekmi a zdravotnou dokumentáciou vo dverách maminej bratislavskej bytovky, kým mama odmieta sadnúť a otec v kuchyni mlčí s vypnutým televízorom. Lekári volajú s podozrením na rakovinu, v rodine rastie napätie, brat sa vyhovára na pracovnú zmenu a staré krivdy vystupujú na povrch – no všetko mení správa z laboratória o zámene výsledkov. Medzi nemocničnými chodbami, nesprávnymi diagnózami a rozštiepenými útrobami súrodeneckých vzťahov sa Natália a jej najbližší musia rozhodnúť, ako zostať pri sebe kým ešte je čas – a naučiť sa spolu znova hovoriť, nielen mlčať zo strachu.
Kým nie je neskoro Kristína držala v jednej ruke tašku s liekmi, v druhej zložku s prepúšťacími správami
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052
Kamarátka si bez dovolenia pozvala hostí na našu chatu osláviť svoje narodeniny
Pred šiestimi rokmi sme si s manželom kúpili útulnú chatu neďaleko Banskej Štiavnice. Všetko sme opravovali
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02
След развода с мъжа си, Роксана успя да закупи едностайно жилище в неблагоприятен квартал – далеч от детската градина и поликлиниката, с лош транспорт и без супермаркети наблизо. Майка й я разубеждаваше да се омъжва рано и не я подкрепи, когато на 19 реши да влезе в брак, а по-късно отказа да си разменят апартаментите и предложи Роксана сама да се справи с трудностите – работа и кредит, въпреки че децата й бяха още малки и семейството преживяваше тежка криза след хазартната зависимост на съпруга.
В крайна сметка Катерина се разведе с мъжа си, а продадоха жилището си. От парите, които ѝ се паднаха