Ainda Há Tempo
Aurélia segura numa mão o saco com os medicamentos, na outra a pasta com os relatórios, e tenta não deixar cair as chaves enquanto fecha a porta do apartamento da mãe. A mãe está de pé no corredor, teimando em não se sentar no banco, apesar das pernas trémulas.
Eu levo, diz a mãe, estendendo-se para pegar no saco.
Aurélia afasta-a com o ombro, de forma suave, tal como afastava o filho do fogão quando era pequeno.
Vais sentar-te agora. E nem penses em discutir.
Reconhece esse tom em si mesma. Aparece sempre que tudo ameaça desmoronar e é preciso agarrar o que resta: saber onde estão os papéis, a que horas tomar os comprimidos, a quem telefonar. A mãe não gosta desse tom, mas cala-se. Hoje, o silêncio pesa ainda mais.
Na sala, o pai está sentado junto à janela, de camisa de flanela, com o comando na mão, mas a televisão está desligada. Olha não para a rua, mas para além do vidro, como se houvesse ali outro canal qualquer.
Pai, Aurélia aproxima-se Trouxe o que o médico receitou. E aqui está o pedido para a TAC. Amanhã de manhã vamos juntos.
O pai acena com a cabeça. É um gesto contido, como uma assinatura no fundo de uma folha.
Não é preciso ires comigo, diz ele. Eu consigo sozinho.
Sozinho… pois sim, atira a mãe, suavizando logo o tom, como se tivesse medo da própria firmeza. Vou contigo.
Aurélia queria dizer-lhe que ela não vai aguentar as filas, que tem a tensão alta, que depois vai ficar de cama e não queira admitir. Mas cala-se. Sente irritação a crescer-lhe por dentro: porque é sempre ela, porque ninguém pode simplesmente aceitar e fazer como é preciso.
Arruma os papéis na mesa, confere as datas, prende com um clip os resultados das análises da semana passada, e volta a sentir aquele cansaço habitual de ser a responsável. Tem quarenta e sete anos, tem a sua família, trabalho, o empréstimo da casa do filho, e mesmo assim, sempre que há um problema com os pais, é como se ela fosse automaticamente a chefe, mesmo sem ser chamada para isso.
O telefone toca. Aurélia vê no visor o número do centro de saúde. Vai até à cozinha e fecha a porta.
Senhora Aurélia Tavares? a voz soa jovem, formal. Fala do IPO, sou a médica oncologista. Vi os resultados da biópsia…
A palavra biópsia já não lhe é estranha, mas continua a soar como algo de outro mundo, como se não fosse com eles.
…há suspeita de um processo maligno. Precisamos de exames complementares com urgência. Eu sei que é difícil, mas o tempo conta muito.
Aurélia agarra-se ao tampo da mesa para não se sentar. De repente, sucedem-se imagens indesejadas: corredores de hospital, soros, rostos estranhos, a mãe de lenço na cabeça. Ouve o pai tossir na sala, e essa tosse soa a confirmação.
Suspeita… repete, Ou seja, não é certo, mas…
Falamos de uma probabilidade elevada. Recomendo não adiar, responde a médica. Apareça amanhã de manhã, traga os documentos, atendo-a sem marcação.
Aurélia agradece, desliga e fica a olhar para o fogão apagado durante alguns segundos, como se ali pudesse encontrar um manual para a vida.
De volta à sala, a mãe já a encara.
O que foi? pergunta. Diz lá.
Aurélia abre a boca, mas as palavras saem secas.
Suspeita de oncologia. Pedem urgência.
A mãe senta-se. O rosto do pai não muda, mas os dedos apertam o comando até ficarem brancos.
Pronto, diz ele, em voz baixa. Chegou a minha vez.
Aurélia queria retrucar, dizer não digas isso, ainda não se sabe de nada, mas tem um nó na garganta. Sente a força do pacto tácito familiar: sempre se calaram sobre tudo o que mete medo. Agora a palavra foi dita e as paredes da casa parecem mais finas.
Nessa noite, já em casa, não consegue deitar-se. O marido dorme, o filho está no quarto a escrever no telemóvel, e ela fica sentada na cozinha a fazer listas: que documentos levar, que exames repetir, a quem ligar. Telefona ao irmão.
António, diz, controlando a voz, o pai tem suspeita. Amanhã vamos ao IPO.
Suspeita de quê? o irmão parece não acreditar.
Oncologia.
Há uma longa pausa.
Amanhã não posso, diz por fim. Estou de serviço.
Aurélia fecha os olhos. Sabe que o irmão trabalha a sério, não é chefe e não pode simplesmente faltar. Mas cá dentro cresce-lhe a mágoa: ele nunca pode, ela pode sempre.
António, a voz tremula. Não é sobre o trabalho. É sobre o pai.
Vou aí ao fim do dia, responde apressado. Tu sabes que…
Sei, interrompe Aurélia. Sei que és mestre em desaparecer quando ficas assustado.
Arrepende-se logo, mas já está dito. O irmão suspira fundo.
Não comeces, diz. Controlas tudo e depois cobras.
A chamada termina. Aurélia sente um vazio no peito. Ouve só o frigorífico a trabalhar e sabe que não é altura para ver quem tem razão. Mas quando o medo aperta, tudo vem ao de cima.
No dia seguinte vão os três para o IPO: Aurélia a conduzir, a mãe no lugar ao lado, o pai atrás. Ele leva a pasta como se fosse algo frágil, que se pode perder para sempre.
Na receção Aurélia preenche papéis, aumenta o tom da voz, mostra o cartão, os exames. A mãe tenta ajudar, mas baralha datas e nomes. O pai fica ligeiramente afastado, a olhar para os que estão nos corredores: cabeças rapadas, lenços, rostos cinzentos, e no seu olhar há mais reconhecimento do que piedade.
Senhora Aurélia Tavares, chama a enfermeira. Pode entrar.
No consultório o médico folheia os exames com rapidez tranquila. Aurélia observa-lhe as mãos, tenta ler-lhe o rosto. Ele fala calmo, mas diz palavras que picam: agressividade, estadiar, precisa de confirmação. O pai senta-se direito, como numa assembleia.
Vamos repetir algumas análises, indica o médico. E fazer nova biópsia. Por vezes o material não chega.
Então não é garantido? pergunta Aurélia.
Em medicina raramente há certezas absolutas sem confirmação, responde. Mas temos de agir como se fosse grave.
Esse agir como se fosse grave custa-lhe mais do que suspeita. Age-se como se o tempo fosse escasso. Sente o modo automático a ativar-se. O resto trabalho, planos, cansaço torna-se secundário.
Depois disso os dias misturam-se: de manhã telefonemas e idas aos hospitais; de tarde filas, papéis, assinaturas; à noite, cozinham e fingem tratar só de logística.
Vou tirar férias, anuncia Aurélia na segunda noite, servindo a sopa. No trabalho desenvencilham-se.
Não faças isso, diz o pai. Tens a tua vida.
Pai, ela pousa-lhe a sopa à frente. Agora não é altura para orgulhos.
A mãe observa-os e Aurélia repara no tremor do lábio inferior. A mãe sempre resistiu, mesmo quando o pai ficou desempregado nos anos noventa, quando Aurélia se divorciou, quando o irmão se meteu em sarilhos. Resistiu tanto que ninguém perguntava como ela estava.
Eu não queria que vocês… a mãe começa, mas cala-se.
Que nós o quê? pergunta Aurélia.
Que depois deixassem de se perdoar, a mãe agarra a colher.
Aurélia queria dizer que há muito que não se perdoam, só nunca dizem. Mas cala-se outra vez.
Nessa noite não dorme. Escuta a respiração do marido, pensa como o pai envelheceu. Lembra-se de quando ele lhe ensinou a andar de bicicleta ela não tinha medo de cair porque sabia que ele segurava o selim. Agora é ela quem segura, e parece-lhe que, em vez da bicicleta, segura uma casa inteira.
Ao terceiro dia o irmão aparece finalmente. Entra em casa dos pais com um saco de fruta e ar desculpado.
Olá, diz, e Aurélia sente crescer-lhe a raiva por achar aquela simpatia fora de tempo.
Olá, responde ela secamente.
Sentam-se na cozinha. A mãe corta maçãs, o pai está calado. António começa a falar do trabalho, a tentar preencher o silêncio.
António, Aurélia perde a paciência. Percebeste o que se passa?
Sei bem, corta ele. Não sou parvo.
Então por que não vieste logo ontem? Porque tens sempre opção?
O irmão empalidece.
Porque alguém tem de trabalhar, responde. Achas que o dinheiro aparece ao estalar os dedos? Tu és a certinha, tens sempre planos. E eu…
E tu? Aurélia avança Já não és adolescente, és homem feito.
O pai levanta a mão.
Chega, diz baixinho.
Mas Aurélia já não consegue travar. O medo pelo pai mistura-se com anos de mágoa do irmão, da mãe, de si própria.
Tu fugiste sempre quando foi difícil, atira ela. Quando a mãe ficou de cama, quando o pai… quando bebia, lembras-te? Desapareceste. Eu fiquei.
A mãe bate a faca na tábua.
Basta, diz. Isso já passou.
Passou, repete Aurélia. Só que não saiu de nós.
O irmão dá um murro na mesa.
Achas que era fácil ficar? grita. Tu adoras ser a chefe. Gostas que precisem de ti e depois odeias-nos por isso.
Aurélia sente que os tiros acertaram onde mais dói. De facto, habituou-se a ser indispensável. Há nisso um sabor amargo, mas há também poder.
Não vos odeio, murmura, sem acreditar.
O pai levanta-se, devagar, como se cada gesto pedisse esforço.
Acham que não vejo? diz. Pensam que não percebo que estão a disputar-me? Como se eu já…
Não termina. A mãe agarra-o pela mão.
Não digas, sussurra.
De repente, Aurélia vê o pai não como pai, mas como um homem, sentado nos corredores frios, ouvindo diagnósticos estranhos e a tentar esconder o medo. Sente vergonha.
O telemóvel vibra na mesa. Aurélia vê: é do laboratório.
Sim? atende.
Senhora Aurélia Tavares? a voz soa cansada. Ligamos do laboratório. Houve um lapso na etiquetagem das amostras. Estamos a verificar, mas há probabilidade de o resultado do seu pai ter sido trocado.
Aurélia demora a assimilar. Palavras como erro e trocaram não fazem sentido ali.
Como assim?
Encontrámos divergências nos códigos de barras, explicam. Amanhã podem cá voltar para repetir exames, sem custos. A biópsia também será reavaliada. Pedimos desculpa.
Aurélia desliga e fica a olhar para o écran, à espera de confirmação de que entendeu bem.
O que foi? pergunta o irmão.
Aurélia ergue o olhar. O silêncio pesa tanto que até o frigorífico parece ter parado.
Disseram… responde que pode ter havido troca nos exames.
A mãe tapa a boca com a mão. O pai senta-se como se as pernas não aguentassem.
Então… o irmão larga o ar. Talvez não seja…
Aurélia acena. E nesse momento não sente alegria, mas vazio. Como se alguém tivesse desligado uma sirene, ficando só o eco do que se disseram.
No dia seguinte repetem a viagem ao laboratório. Aurélia conduz os pais, o irmão vem de autocarro e encontra-os à porta. Ninguém brinca. Esperam na fila, fichas nas mãos, ouvindo a enfermeira chamar nomes.
O pai dá sangue em silêncio. Aurélia fixa-lhe o braço, a agulha, o tubo enchendo, pensando que aquilo não é um filme, nem teoria é a vida deles, onde um erro de código pode virar dias de cabeça para baixo.
Dizem que os resultados demoram dois dias. Esses dois dias são diferentes. Não há pânico, mas cresce o embaraço. A mãe faz-se de normal, arruma, serve chá, pergunta se Aurélia não está cansada. O pai fala menos. O irmão liga e resume: “Como estão?” Aurélia responde no mesmo tom.
Dá por si à espera de um Desculpa. Mas ninguém diz. Ela também não. Não sabe ao certo por onde começar o pedido.
Quando finalmente ligam do IPO a dizer que a revisão da amostra não confirma nada maligno, Aurélia está presa no trânsito da Segunda Circular. Ouve a médica explicar: o erro inicial teve a ver com etiquetas trocadas e falta de tecido na recolha anterior, agora é necessário só controle semestral.
Então, não é cancro? pergunta Aurélia, a voz falha.
No momento não há dados para oncologia, responde a médica. Mas vigilância é fundamental.
Aurélia desliga e fica, por um instante, com as mãos no volante. Os carros buzinam, alguém tenta ultrapassar, e ela sente as lágrimas correrem-lhe pelo rosto não de alívio, mas porque a tensão dos últimos dias, finalmente, a larga.
Ao fim da tarde juntam-se todos em casa dos pais. Aurélia leva um bolo da pastelaria, porque não tem forças para fazer. O irmão chega com flores para a mãe. O pai, sentado, olha-os como se tivessem voltado de outra terra.
Pronto, diz António, tentando sorrir. Agora já se pode respirar.
Respirar sim, responde o pai, mas e voltar a encher os pulmões?
Aurélia fita-o. Não há crítica na voz, mas nota-se o cansaço.
Pai, começa ela, eu…
As palavras bloqueiam. Se começa a justificar-se, tudo volta ao mesmo: eu só queria ajudar, estava nervosa. Precisa de dizer outra coisa.
Tive medo, confessa. Comecei a mandar em tudo, como sempre. E descarreguei no António. Desculpa.
O irmão baixa os olhos.
Também tive medo, admite. Fugi para o trabalho. Perdoa-me.
A mãe solta um soluço e senta-se junto do pai, apertando-lhe a mão.
Eu diz ela, olhando Aurélia e António, sempre fingi que estava tudo bem, para vocês não discutirem. E para eu não ter medo também. Mas isso só vos afastou.
O pai aperta-lhe a mão.
Não quero que sejam perfeitos, diz. Quero é que estejam presentes. E não me usem de pretexto.
Aurélia acena, sentindo a dor de saber que ficam marcas destes dias. Palavras como sabes desaparecer ou adoras controlar não passam só com um desculpa. Ainda assim, algo mudou. Pela primeira vez dizem em voz alta o que antes escondiam.
Então, diz Aurélia, com calma, não vou decidir tudo sozinha. Posso ajudar, mas quero que vocês também se responsabilizem. António, podes vir uma vez por semana acompanhar o pai aos exames? Mas de verdade, não só se der jeito.
O irmão hesita, depois acena.
Às quartas folgo. Venho.
E eu, completa a mãe, deixo de fingir que aguento tudo. Se estiver mal, aviso, e não me passo a seguir.
O pai olha-os e esboça um sorriso.
E vamos juntos ao médico, propõe. Assim evitam-se as adivinhações.
Aurélia sente um suave calor por dentro. Não é festa, nem alegria, mas parece uma possibilidade.
Depois do jantar ajuda a mãe a arrumar. A loiça soa na banca, a água corre. Aurélia seca as mãos e hesita na porta.
Mãe, diz baixinho, eu não quero ser sempre a chefe. Só tenho medo que, se largar, tudo se desfaça.
A mãe olha com atenção.
Tenta largar devagar, aconselha. Tem de ser aos poucos. Também estamos a aprender.
Aurélia assente. Vai ao corredor, veste o casaco, confirma luzes apagadas, porta fechada. Fica um segundo na escada, ouve o silêncio para lá da porta. Não há gritos, nem portas a bater, só vozes baixas.
Desce e vai até ao carro, a pensar que ainda há tempo não quer dizer só um telefonema assustador. Quer dizer que ainda há hipótese de falar primeiro, antes que o medo os afaste de vez. E essa hipótese agora depende deles em todas as quartas, nos telefonemas, nas pequenas verdades difíceis, que seguram juntos o que o controlo nunca salvou.






