Eu já fiz a minha parte
Por que não deixaram logo o miúdo com uma ama, como se fosse um gato? Pagavam-lhe uns trocos e pronto, podiam ir à vontade gozar de férias! atirou com sarcasmo venenoso a Dona Amélia Santos.
Maria apertou os lábios, claramente contrariada, enquanto tentava, à força, fechar o fecho do seu trolley. Em vão. O fecho encravou, tal como o discurso da sogra, que repetia sempre que o casal falava em viajar.
Ó mãe, chega, tentou acalmar André, marido de Maria. O Tomás também vai de férias, apenas para a aldeia. Não vai para casa de desconhecidos, mas para casa dos avós maternos. Vai ter ar puro, quintal, piscina insuflável e leite caseiro todos os dias. Melhor que isso, impossível.
Isso não são férias, é exílio! indignou-se Dona Amélia, levantando as mãos ao céu. O miúdo tem três anos, nesta idade precisa é dos pais! E os pais querem ir passear para Lisboa, ver museus! E o filho, não precisa de cultura, de desenvolvimento?!
Maria, finalmente conseguindo fechar a mala, levantou-se e olhou a sogra nos olhos, sem um pingo de sorriso.
Neste momento, não precisa. O que ele precisa mesmo é de rotinas, da sesta e de um bacio à mão. Não de um voo de três horas, mudança de horários e passeio pela cidade. Dona Amélia, diga-me: quando foi a última vez que levou o neto, sequer, a passear ao jardim?
Eu já fiz o meu papel! respondeu, orgulhosa, encostando o nariz ao ar. Levava o André para todo o lado. Sobrevivi! Vocês só querem é confortinho. Deviam pensar nos outros, não só em vocês.
Precisamente! levantou a voz Maria. Nos outros! Como as pessoas que vão aguentar horas de gritaria do vosso netinho no avião, ou aqueles que querem ouvir o guia e não estou cansado, quero água, quero fazer xixi, dói-me as pernas! Férias com um miúdo de três anos não são férias, Dona Amélia. São uma provação. Para toda a gente, incluindo o Tomás.
A sogra fechou-se em copas, virando-se.
Pronto, claro. Já se fartaram de brincar aos pais. Querem despachar a criança o mais depressa possível. Dissessem logo que já não precisam dele… Se quisessem mesmo, adaptavam-se ao filho.
Maria, de olhos fechados, contou até cem mentalmente para não perder a cabeça. Se Dona Amélia soubesse o inferno que tinham passado da última vez, talvez moderasse a língua. Mas como saberia, se raramente participava na vida do neto?
Maria lembrava-se bem. Ficou um mês com o olho esquerdo a tremer depois dessa aventura.
Foi no verão passado. Iludidos, decidiram visitar uns amigos no Ribatejo. Cem quilómetros apenas. Os amigos também tinham filha, havia um escorrega no pátio e um grande pomar. Parecia perfeito.
Correu tudo ao contrário.
O carro não pegou. Os amigos à espera, os grelhadores prontos… Tiveram de comprar, à pressa, bilhetes para o comboio.
E mais: veio um calor abrasador, 35 graus. O ar condicionado das carruagens avariado, as janelas abertas sem efeito. Gente suficiente para se ficar sem ar.
O Tomás aguentou uns dez minutos e começou a choramingar baixinho. Depois, reclamou do calor e da seca. A seguir, quis sair corredor afora.
Deixa-me! berrava, arqueando-se nos braços do André. Quero ir para ali!
Calma, Tomás, não podes. Estão lá pessoas a descansar, sussurrava ele, vermelho de vergonha, tentando segurar o filho que se escapulia como enguia.
Não quero estar aqui!
O Tomás berrava com convicção, com volume suficiente para abafar o barulho do comboio. Os passageiros olhavam primeiro com pena, depois com irritação e, meia hora depois, só com ódio. Uma senhora de blusa branca deu uma reprimenda, e Tomás, num acesso de fúria, sacudiu o pacote de sumo. Salpicou Maria, André e a própria senhora.
Foi o caos. A senhora aos gritos, Maria a pedir desculpa de olhos húmidos, a tentar pagar os estragos, Tomás a chorar de tanto perder o sumo, André com os dentes cerrados.
Uma hora e meia de sofrimento.
Ao chegarem à estação, já não tinham forças para descansar. O Tomás, depois de tanto stress, não dormiu a sesta, birrou todo o dia e quase virou o grelhador. O regresso foi igual. E foi só uma hora e meia! E Dona Amélia queria arrastar o neto uma semana por museus?! Era demais.
Vocês nem sabem educar a criança! repetia Dona Amélia sempre que Maria apresentava razões.
Na verdade, Dona Amélia era pedagoga de teoria apenas. Aparecia a cada quinze dias, trazia bananas ou chocolates (a que Tomás tinha alergia, já lho tinham dito dezenas de vezes), mimava o neto vinte minutos e depois ia à vida dela. Às vezes, ainda tirava uma foto para o Facebook.
Dona Amélia, mas importa-se assim tanto com quem fica o Tomás? perguntou Maria, já farta da discussão. Não vai ficar consigo!
Nem tenho de ficar! Ele tem os pais, são eles que o educam. Se fosse por necessidade hospital, trabalho ajudava. Mas assim… querem despachar o miúdo como um gato, sempre a ver a quem calha.
Estas desavenças iam-se acumulando, corroendo a paciência. A sogra estava sempre convencida da sua razão e nem queria ouvir argumentos.
Pois bem, a vida ensina mais que qualquer um.
Quatro anos passaram num instante. O Tomás já tem sete. Já é crescido: fala bem, vai à escola, tem atividades.
A vida de Dona Amélia também mudou; ficou viúva. A casa antes cheia de barulho de televisão e resmungos do marido, ficou silenciosa. Talvez por preencher o vazio, ou para provar a todos (e em especial aos sogros), achou por bem armar-se em avó do ano.
Tragam-me o Tomás, regalava-se ela. Já não é bebé, entendemo-nos de certeza.
Dona Amélia, tem mesmo a certeza? perguntou Maria, cautelosa. Ele é muito mexido, precisa de atenção. Ou pelo menos de um computador…
Não me ensines, Maria! resmungou a sogra. Criei o meu filho, não hei de dar conta do neto? Lemos uns livros, jogamos às cartas… nada de tecnologias! Tragam-no.
Com o coração apertado e dedos cruzados pela sorte, lá o deixaram. Duas semanas! E aproveitaram um fim de semana numa quinta turística. Maria sentiu: tempo livre era escasso.
Não se enganou.
Dona Amélia imaginava um neto sossegado a folhear enciclopédias sobre bichos, ela ao lado a tricotar e a comentar com sapiência. Depois, almoçavam sopa e iam passear no jardim pelos canteiros de mãos dadas.
Essa fantasia durou meia hora.
Avó, estou aborrecido! declarou Tomás. Tens tablet?
Não tenho. Para que queria eu disso?
Então joga comigo aos zombies! És um zombie e eu sou sobrevivente!
Mas que disparate é esse? indignou-se Dona Amélia. Toma, desenha aqui, comprei-te um livro de colorir.
Isso é de bebés! Tomás começou a correr em círculos pelo sofá. Anda, avó! Joga comigo! Olha para mim! Olha! Não olhas!
Não parava um segundo: fingia ser um avião, fazia barulho com tachos, tentava envolver a avó em jogos que ela não entendia. Não ligava nenhuma aos livros ou ao velho dominó. Precisava de público, companhia e animação para todo o tempo. Às três em três minutos: “Ó avó, porquê?”, “Ó avó, anda cá!”, “Ó avó, olha!”
Dona Amélia, acostumada ao seu ritmo calmo, à hora de almoço sentia-se como se tivesse descarregado um camião de lenha.
Mas o pior veio à mesa. Dona Amélia serviu um belo caldo de carne, algo que não faz para si, só para agradar ao neto.
Ele olhou para a taça como se lá tivesse lixo e torceu o nariz.
Isto não como.
Então porquê?
Tem cebola. Cozida. Não gosto nada!
Quê?! Cebola faz bem! Vai comer e não se fala mais!
Não como!
Então o que queres?
Massa. Com queijo. E salsicha. Mas a salsicha cortada em forma de polvo!
A sogra ergueu as sobrancelhas. Isso ela desconhecia.
Não sou restaurante! respondeu seca.
Tomás encolheu os ombros e foi construir uma cabana com almofadas, cadeiras e o candeeiro de pé.
Ao final do dia, a tensão arterial da Dona Amélia era uma montanha-russa. Não podia deitar-se: Tomás saltava em cima dela como num trampolim, a gritar “Levanta-te, os inimigos vêm aí!” Não podia ver o telejornal, o neto queria desenhos animados “porque está aborrecido”. E ele não se acalmava com os desenhos, pelo contrário, voava de um lado para o outro.
Já André e Maria tinham uma noite maravilhosa. Sentados no alpendre do bungalow, contemplavam o pôr do sol e ouviam as brasas da grelha a crepitar docemente.
Que sossego suspirou Maria. Nem parece real. Se calhar fomos injustos com a tua mãe.
Nesse instante, o telefone de André tocou.
Mãe?
Venham já buscar o miúdo! disse logo a sogra, aos gritos. Levem-no embora, agora!
O que se passa, mãe? Está tudo bem?
Está um inferno! O miúdo destruiu-me a casa! Recusa-se a comer, salta-me em cima como um potro! O meu coração não aguenta! Se não vierem em uma hora, chamo o INEM e a polícia para levarem-no a ele e a mim! Chega! Estou à espera!
Desligou.
Maria pousou o copo. Ficou vinho por beber e febras inacabadas na grelha.
Vamos lá, disse André, sombrio. Férias terminadas.
Foram em silêncio. Doía. Tinha sido ideia da sogra e agora fazia uma cena destas!
Mal tocaram à campainha, a porta abriu-se de rompante. Dona Amélia, pálida, cheirava a valeriana e parecia ter regressado da guerra.
O Tomás, por outro lado, saltou animado para os pais.
Graças a Deus, suspirou a sogra, empurrando o neto. Levem-no. E não me peçam mais nada! O que criaram não é uma criança; é um furacão! A cebola não serve, está aborrecido, só quer saltar em cima da avó…
É só uma criança, mãe, respondeu André, seco. Energiquinha, saudável. Avisámos-te. Disseste que conseguias.
Pensei que era normal! O vosso precisa é de médico! Dona Amélia levou a mão ao peito. Vão-se embora. Preciso de repousar, senão é que ainda vou desta para melhor.
Já no carro, Tomás aninhou-se e perguntou:
Mãe, quando é que vamos à casa do avô Manuel e da avó Lúcia?
Em breve, filho. Vamos sim.
Ainda bem… murmurou, quase a dormir. Porque a avó Amélia é esquisita. Só sabe gritar, não joga nada. E a comida dela é mesmo má.
Daquele dia em diante, Dona Amélia nunca mais falou em ficar com o neto nem questionou porque não o levavam. Agora, quando partiam de férias, só desejava boa viagem.
O Tomás passou sempre as férias com os pais da Maria. Lá, cavava minhocas com o avô, brincava às guerras e comia a sopa feita pela avó Lúcia sem cebola, pois ela sabia bem o que o neto gostava.
A relação com a sogra não melhorou, mas Maria não se importava. Pelo menos, ninguém mais lhe tentava ensinar como viver. Dona Amélia ficou com a sua razão e com as enciclopédias intactas, guardadas para um neto que nunca as quis abrir.







