A Um Passo do Altar

A um passo do altar

Sofia estava em frente ao espelho do seu quarto, incapaz de desviar o olhar da própria imagem. Rodava-se lentamente ora para a esquerda, ora para a direita, apreciando cada detalhe, com um sorriso largo e genuíno a florescer-lhe no rosto. O vestido aquele, o de noiva caía-lhe suavemente pela silhueta, com a saia volumosa a ondular a cada pequeno movimento. Sofia ora levantava a bainha, ora deixava-a cair, imaginando o momento de caminhar até ao altar.

À porta surgiu Leonor, a irmã mais velha. Encostada ao batente, braços cruzados e sorriso maroto, observava Sofia com carinho.

Estás linda, linda mesmo comentou, acabando por soltar uma gargalhada. Mas olha que vais precisar de outro vestido. O dia e a noite toda nesse folhado, não vais aguentar! Pensa lá: o copo-de-água, danças, convidados… Com essa estrutura, nem te consegues mexer!

Sofia parou e fitou o espelho com atenção. As palavras da irmã fizeram-na reflectir. Porque não pensara nisso antes? O vestido era perfeito para a cerimónia e para as fotos exatamente como sempre sonhara: requintado, solene, verdadeiramente de noiva. Mas para a festa, para dançar e conviver, precisava de algo mais simples. Talvez um vestido branco curto, pelos joelhos, leve, confortável, que permitisse mexer-se à vontade.

Achas mesmo? franziu o sobrolho, levantando um pouco a saia volumosa. Bem Vais ajudar-me a escolher?

Claro! assentiu Leonor, confiante. Conheço-te tão bem Se fores sozinha, ainda acabas horas a experimentar tudo e sais sem nada. Nem sei como foste capaz de te resolver por este vestido!

Sofia encolheu os ombros, envergonhada:

Mandei fazê-lo por medida. A costureira executou o desenho como eu queria. Se fosse a uma loja de noivas, acho que nunca mais saía de lá. Tantas escolhas, tantos detalhes Até me baralhava!

Afastou-se do espelho e sentou-se na beira da cama, olhando para a irmã com expectativa.

Amanhã estás livre? Vais comigo às lojas? Contigo não me perco.

Leonor aproximou-se, alisou com carinho as inexistentes pregas no vestido e sorriu calorosamente.

Por ti adio tudo, minha irmãzinha. Não é todos os dias que a nossa mais nova se casa. Vamos encontrar o vestido perfeito para dançar!

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Sofia estava sentada à mesa da cozinha, rodeada por pilhas de convites brancos. A noite já caíra sobre Lisboa, a luz da candeia lançava um brilho quente sobre os envelopes e cartões enfileirados. Inclinada sobre mais um convite, Sofia escrevia com esmero o nome dos convidados, em letra caprichada. Queria tornar o convite pessoal; por isso recusou o envio impresso acreditava que a assinatura de próprio punho dava outro valor ao momento.

A mãe e a irmã tentaram ajudá-la, mas Sofia foi firme: É o meu casamento! Tenho de fazer alguma coisa sozinha.

Só faltam alguns resmungava baixinho, virando mais um cartão. A mão já doía, os dedos tremiam de tantas horas a escrever. Bolas, não tenho o hábito A mão já está dormente.

Leonor apareceu à porta. Observou Sofia em silêncio, depois sentou-se calmamente em frente, as pernas cruzadas, sorriso cúmplice no rosto.

Queres que te ajude? sugeriu suavemente. Ainda te faltam muitos. E, afinal, o Pedro também podia dar uma mão. Metade dos convidados são do lado dele!

Sofia pousou a caneta, aliviando os dedos doridos e recostou-se.

Ele anda sempre no trabalho, explicou, passando a mão pela pilha de convites prontos. Quer deixar tudo despachado antes das férias. Sabes como é: para depois não se preocupar com nada durante a lua-de-mel.

Uma pontinha de sonho iluminou-lhe o olhar.

Depois de casarmos, vamos viajar por uns dias. Um sítio quente, tranquilo Quero começar a vida a dois bem longe de confusões.

Mesmo assim, ele podia ter assinado meia dúzia de convites comentou Leonor, tentando disfarçar a inquietação.

Por dentro, Leonor não conseguia aceitar a postura de Pedro quanto ao casamento. Desde o início, sempre achou o futuro cunhado um pouco inexplicável. Sofia, no entanto, só via virtudes.

E se estiver enganada? pensava Leonor. Se calhar sou eu que oiço demais o coração. Nem toda a gente demonstra tudo como eu. Será só feitio reservado?

A inquietação não passava. Sempre que mirava Pedro, crescia o pressentimento: como se ele não compreendesse realmente o que estava a fazer. Às vezes parecia que só seguia o fluxo e dizia sim a tudo o que Sofia propunha.

O irónico era que, afinal, Pedro foi o primeiro a falar em casamento. Estavam juntos há três meses, pouco tempo para tamanho passo. Mas ele propôs de repente e envolveu-se com entusiasmo nos preparativos.

Quero que seja um dia especial para ti dizia Pedro, espalhando no tampo da mesa fotografias de decorações de salas. Soava carinhoso, sorridente. Olha este estilo: tons suaves, flores naturais Vai ser lindo!

Escolheu o restaurante, insistiu num casamento grande, justificando que não podia desiludir família.

Os meus vêm do Algarve só para estarem presentes, explicava, revendo a lista. Merecem uma festa em condições. É o nosso dia!

Sofia via tudo com deslumbramento, sem perceber pequenas falhas o silêncio de Pedro quando se falava do futuro, ou o olhar ausente nas conversas mais sérias.

Leonor não sabia o que pensar. Ele parecia empenhado na organização, mas sentia-se nele qualquer coisa artificiosa como se desempenhasse o papel de noivo sem saber porquê.

Ou é nervosismo, ou sou eu que vejo problemas onde eles não existem tentava convencer-se Leonor. Casar é um passo grande. Mas porquê esta sensação constante de que algo está errado?

Olhou para Sofia, radiante a escolher tecidos para os arranjos, e suspirou. O mais importante era a felicidade da irmã. O resto talvez só o tempo pudesse dizer.

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Sofia sentia-se aliviada. Pedro assumira praticamente todas as despesas: reservou restaurante elegante, contratou fotógrafo, planeou uma viagem para depois do casamento. Restava-lhe apenas tratar do visual, do vestido, combinar penteado e resolver pequenas coisas. Era um enorme alívio e agradecia de coração o empenho do noivo.

Numa noite, enquanto as duas irmãs bebiam chá à mesa da cozinha, Leonor não aguentou o silêncio e fez a pergunta que lhe pesava na alma:

Não estás a ir depressa demais, Sofia? perguntou baixinho, mexendo na colher. Conhecem-se há pouco tempo Como será viverem juntos? E se surgirem discussões com o dia a dia? Talvez fosse melhor irem com calma, viverem juntos primeiro. Depois pensavam no casamento.

Sofia não se zangou; sabia bem que Leonor só se preocupava com ela. Sorrindo, com um brilho nos olhos, respondeu:

Não te aflijas, Leonor, vai correr tudo bem. Cozinho bem, tenho mil receitas na manga, e gosto de cuidar da casa. O Pedro trabalha imenso e não vai poder ajudar nas tarefas, mas não há problema, dou conta do recado. No limite, contrato alguém!

Bebeu um golo de chá e, cheia de emoção, continuou:

Estou apaixonada! Pela primeira vez sinto isto por um homem É como encontrar aquilo que sempre procurei. Não vou perder a minha oportunidade!

Leonor ouviu atentamente, travando as próprias dúvidas. O rosto de Sofia irradiava alegria parecia mesmo amor verdadeiro, daquelas que não deixam ver obstáculos, só promessas de felicidade.

Tens mesmo a certeza? insistiu Leonor, procurando no fundo encontrar razões válidas para tanta esperança.

Absoluta. Estamos juntos há pouco, é verdade, mas sentimos o mesmo. Queremos uma família robusta, compreendemo-nos bem, fazemo-nos felizes.

Leonor respirou fundo e sorriu, escolhendo apoiar a decisão da irmã.

Se assim estás tão segura, fico feliz por ti disse, pousando a mão sobre a de Sofia. O que mais desejo é ver-te feliz.

Sofia apertou-lhe os dedos.

Obrigada, Leonor. Sei que só te preocupas comigo. Mas confia, estou muito feliz. E isto é só o início de algo maravilhoso.

Leonor admitia: Pedro tratava a irmã com verdadeira devoção. Cada encontro era quase uma cena de filme romântico buquês de flores só porque sim, postais com frases doces, ou pequenas surpresas, como o chocolate preferido de infância da Sofia.

Até as colegas de escritório admiravam o ritual diário: todos os dias, à hora certa, chegava um café, exatamente como Sofia gostava com xarope de amêndoa e chantilly. O copo vinha com a frase Para a mais linda. Corava de alegria, visivelmente tocada pela atenção.

Pedro fazia questão de ir buscar a noiva ao trabalho todos os dias à hora certa, abria-lhe a porta do carro com gestos de galanteria. Do alto das janelas, as colegas exclamavam:

Que cavalheiro! Sofia, tens sorte. Onde o encontraste?

Sofia sorria, sem acreditar na própria sorte.

Vendo o namoro desenvolver-se, Leonor pensava se estaria a exagerar na preocupação. Pedro dedicava-se verdadeiramente, mas ainda assim aquele pressentimento incómodo não desaparecia como se, por detrás das atenções, houvesse algo por desvendar.

Numa dessas noites de chá, Leonor decidiu falar:

Sabes, tudo parece perfeito Mas sinto alguma coisa fora do lugar. Não sei explicar. Talvez seja só impressão, mas queria avisar-te.

Sofia olhou-a surpreendida:

Leonor, o Pedro é atencioso, faz tudo por mim, trata-me tão bem

A irmã hesitou, medindo as palavras.

Não digo que seja mau rapaz. É só É tudo tão perfeito. As flores, os presentes Mas prometo que não sou do contra, apenas te peço: observa além das aparências. Como reage ele quando os planos não correm bem? Já o viste nessas alturas?

Sofia pensou, depois sorriu docemente:

Sempre foste a séria da família. Não compliques onde não há problemas. Estou mesmo feliz e acredito que tudo vai dar certo.

Leonor abanou a cabeça:

Está bem, o tempo dirá concedeu, pouco convencida.

Mas o tal pressentimento que sempre soubera respeitar não a largava. E, infelizmente, não se enganou. Uma tormenta estava prestes a abater-se, algo que nem nos piores sonhos imaginaria

***********************

Sofia chegou a casa do Pedro animada. Levava consigo uma pasta com papéis e apontamentos queria discutir detalhes finais: lugares dos convidados, música, pormenores da decoração. Sonhava com um serão de risos e pizzas partilhadas.

Mas, logo ao entrar, sentiu que algo estava fora do sítio. Pedro recebeu-a no hall sem um sorriso, mãos enfiadas nos bolsos, rosto tenso e olhar frio, distante.

Como assim, não vai haver casamento? sussurrou Sofia, sentindo-se desfalecer. As palavras mal lhe saíam dos lábios adormecidos. O que se passa contigo? Estás tão diferente Fui eu que errei? Fala comigo, Pedro

Ele demorou-se a olhar para ela, sem qualquer traço de ternura.

O que fizeste Nada de especial respondeu com frieza, como se nem discutisse algo importante. Só nasceste mulher, não é? Vocês, mulheres, só sabem caçar bons partidos. Aparece alguém com mais dinheiro e lá vão vocês Odeio-vos por isso.

Sofia gelou. Não queria acreditar no que ouvia. Nunca dera razões para tal desconfiança. Tudo na sua vida girava em torno dele. Recusara encontros, suspendido planos, adiara até férias no trabalho para dar prioridade ao casamento.

Não percebo, Pedro sussurrou, apertando a pasta até os nós dos dedos ficarem brancos. Eu só te quero a ti. Tu sabes isso.

Ele encolheu os ombros, desviado o olhar para a janela:

Sabes? Não acredites. São todas iguais. Acreditas que não noto como sorris a outros homens? Só vês oportunidades, mais nada.

Sofia sentiu um nó na garganta. Queria protestar, explicar que era mentira, mas as palavras não saíam. Perante ela estava um estranho frio, desconfiado, amargurado por ofensas antigas e incógnitas.

Mas eu nunca tentou de novo, mas a voz falhou.

Basta de desculpas interrompeu, num gesto brusco Está tudo dito. Pensei que fosses diferente. Afinal és igual.

Sem resposta possível, Sofia permaneceu imóvel. Os pensamentos rodam sem resposta. Como, em minutos, tudo desabou? Como aquele que lhe prometera amor, agora só lhe atira fel e acusações?

Os joelhos tremiam, as palavras ficavam presas. Apeteceu-lhe gritar, suplicar que acreditasse nela, mas só murmurou:

Eu amo-te, não quero ninguém além de ti repetiu, tentando controlar o desespero. Confia em mim!

Pedro desviou o olhar, um brilho magoado nos olhos. Não conseguia ouvir Sofia só escutava os próprios fantasmas.

Já confiei noutra, e olha ao que cheguei murmurou, cerrando os punhos Gastei dinheiro, tempo, energia E na hora H, disse-me que eu não era suficiente.

Recordou o passado, as esperanças destruídas. No seu antigo casamento preparara tudo com esmero o anel, a festa, o futuro. E, no próprio dia, diante de cem pessoas, a noiva sorrira-lhe, apenas para confessar: Desculpa. Mudei de ideias.

Dói, sabes? prosseguiu, sem olhar Ser deixado a um passo do altar? Ao menos contigo, não faço cena diante dos convidados. Vai-te embora. Não me apetece mais nada.

As palavras caíram como bofetada. Sofia vacilou, mas não caiu. Quis responder, mas nenhum som lhe saiu. Limitou-se a sair, em silêncio.

A porta fechou-se suavemente, Pedro ficou só, afundado no sofá, a esconder o rosto nas mãos, tentando fugir da realidade e dos próprios pensamentos.

Está mais do que visto: preciso de ajuda pensou com amargura.

A verdade era que Sofia lhe fazia bem. Era bondosa, carinhosa, sabia ouvi-lo, fazia-lhe o prato favorito. Mas, quanto mais sério o amor, mais via nela a sombra da ex-noiva o sorriso, o olhar, o jeito meigo…

Quando Sofia falava de filhos e de futuro, sentia-se a sufocar de medo. Imaginava-a a repetir as palavras fatais:

Desculpa, mas encontrei alguém melhor. Quero aproveitar a vida. Tu não podes dar-me o que preciso.

Fechou os olhos, tentando afastar aquele espectro, mas a dor era avassaladora.

Com um suspiro, pegou no telemóvel. Olhou a lista de contactos, finalmente fez a chamada.

Olá, sou eu murmurou, em voz embargada. Preciso de ajuda. Tenho medo medo que tudo se repita. Não quero ficar sozinho outra vez. Quero ultrapassar isto.

Do outro lado, o psicólogo respondeu com tranquilidade:

Fizeste bem em ligar. Vamos conversar. Quando podes vir à consulta?

Pedro olhou para as luzes da cidade a esmorecer e respondeu em tom resignado:

Amanhã, se possível

**********************

Um ano depois, Sofia estava num salão cheio de luz, rodeada de amigos e família. Vestia o mesmo vestido de noiva delicado, com tule e renda nos braços.

A música soava suave e aconchegante. Sofia pegou na mão de Pedro e juntos avançaram para o centro da sala. Ele sorriu de leve, puxou-a para si e começaram a dançar.

Então, marido, disse baixinho, fitando-o que tal?

É estranho respondeu Pedro, semicerrando os olhos. Parece tudo igual mas sente-se tudo diferente.

Porque agora é real sorriu Sofia. Sem receios, sem fantasmas.

Lembrou-se do dia em que saíra de casa dele, devastada pelas palavras cruéis. Achara que o mundo tinha acabado mas foi essa dor que a fez reagir.

No dia seguinte, voltou a bater à porta. Não exigiu, nem implorou. Apenas disse:

Só saio daqui quando falarmos a sério. Tu tens medo do passado, mas isso não justifica destruir o nosso futuro. Quero ajudar-te juntos.

Pedro ficou calado, até admitir:

Tenho pavor de passar por tudo outra vez.

E eu não quero que vivas no medo respondeu Sofia. Procuramos ajuda. Juntos.

Foram, passo a passo, ao psicólogo. Pedro foi abrindo o coração, falando da traição antiga, da vergonha, do peso que trazia desde então.

Sofia ficou ao lado, sem julgar, oferecendo apoio e compreensão. Aprendeu a perceber os receios dele, e ele a confiar verdadeiramente nela.

Agora, ali estavam marido e mulher, dançando com serenidade, sem sombra de gelo nos olhos de Pedro. Só havia ternura, confiança, gratidão.

Sabes murmurou Pedro, apertando-lhe a mão ainda bem que não desististe.

Eu também sussurrou Sofia, abraçando-o mais forte. Agora sei que o amor vence todos os medos.

A música foi esmorecendo, mas o seu bailar continuou calmo, pleno daquela felicidade serena que só nasce quando superamos, juntos, todas as tempestades da vida.

A vida ensinou-lhes que a verdadeira felicidade não é a ausência de problemas, mas sim a coragem de os enfrentar lado a lado.

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