Quem sabe para onde vai o rio do destino
Durante o último mês, Artur andava calado e distante, parecia sempre com a cabeça noutro lugar e pouco conversava com a esposa, Matilde. Ela olhava-o, preocupada, e pensava:
– Alguma coisa se passa, de certeza que está doente E ele a fazer 45 anos daqui a pouco, já ando a organizar a festa num restaurante. Tenho mesmo de o levar ao médico, ainda conheço lá um doutor conhecido. Tem de fazer análises e tudo o que for preciso
Matilde confidenciava as suas preocupações à sua melhor amiga, Amélia, e um dia ouviu dela:
– Olha, o meu Alfredo, quando arranjou outra, andava igualzinho, parecia que andava doente.
– Deixa-te disso, Amélia. Não compares o teu Alfredo com o meu Artur, cortou Matilde.
– E porquê? O teu Artur é melhor que o meu Alfredo?
– Não é, por isso mesmo. O teu Alfredo sempre foi um bonito rapaz, um conquistador, todos gostavam dele! Já o meu Artur não sabe dar dois dedos de conversa, fui eu que lhe propus o casamento, acredita? Fosse por ele, ainda hoje andava solteiro, eu é que me mudei para casa dele!
No ano passado, Amélia apanhou o Alfredo com outra mulher. Matilde apoiou-a, dizendo:
– Deixa lá isso! Mete-o fora de casa, olha por ti, muda de vida, basta de lágrimas, corre com esse traidor.
Amélia, revoltada, entregou-se a tudo o que podia: saiu, foi a bares, divertia-se, cortou o cabelo curto e anunciava a toda a gente: “mudei de visual”, enquanto Matilde olhava para ela, espantada. Ela queria que a amiga mudasse sim, mas inscrever-se em cursos, aprender a dançar, tirar um tempo para si mesma, voltar à faculdade, dedicar-se ao desporto
Mas, pouco tempo depois, Amélia perdoou Alfredo. Matilde não compreendia:
– Eu nunca conseguiria perdoar o meu Artur, pensava.
Ela e Artur estavam juntos há quase vinte e seis anos, quase a celebrar bodas e a preparar-se para viver uma velhice serena. Ainda não eram propriamente velhos, mas queriam fazer uma comemoração para o marido; já tinha combinado quase tudo com os familiares, ele é que ainda não sabia de nada.
Casaram-se pouco antes de acabarem a faculdade. Conheceram-se num acampamento. Estudavam em cursos diferentes, mas moravam em Lisboa. No quarto ano, organizaram um acampamento conjunto, nem toda a gente foi. À volta da fogueira, Matilde reparou logo em Artur, tão sossegado, e, apesar da sua timidez, aproximou-se dele. Foi ficando, tornou-se uma espécie de tutora dele, chegou a costurar-lhe uma camisa que ele rasgou num galho.
Artur, por sua vez, não a deixava carregar a mochila pesada e foi assim, lado a lado, que se aproximaram. A amizade deu lugar ao amor. Matilde tomou a iniciativa: foi a primeira a declarar-se e ele respondeu:
– Matilde, acho que também me apaixonei por ti.
– Então vamos viver juntos, levo as minhas coisas para tua casa e tratamos dos papéis, ele não hesitou.
Assim foi, mudou-se para o apartamento onde Artur vivia com a avó. O mais entusiasmado com a chegada de Matilde até foi o pai dele, porque a mãe de Artur nunca se dava com a sogra, desde jovem. Não queria cuidar dela e foi o neto zeloso Artur que se mudou para lá para a apoiar. Agora, era Matilde quem cuidava da avó.
– Arturzinho, gosto muito da tua Matildinha. Ela é despachada, enérgica, põe tudo a funcionar, é essa a mulher certa para ti. Logo que casem, passo-vos o apartamento. Cuida bem dela, filho.
Pouco depois, casaram. Não muito tempo passou e a avó faleceu. Vieram dois filhos, um após o outro. Agora já tinham vinte e três e vinte e um anos. A vida de Matilde e Artur era sossegada: iam de férias todos juntos. Mas ultimamente, Artur andava cada vez mais estranho. Um dia, atirou:
– Olha, Matilde, parece que a vida passou e nunca vimos nada de jeito, mãe, ela indignou-se.
– Como assim, Artur? Nós nunca passámos um verão em casa, fomos ao Gerês, ao Algarve, pelo Alentejo abaixo, e até demos um salto à Madeira e já fomos duas vezes a Paris! Criámos dois filhos! Daqui a pouco vêm os netos!
– Não é disso que estou a falar, desvalorizou ele, ficando calado e olhando-a de modo estranho, ao qual Matilde não deu grande importância.
Ela tinha outras coisas na cabeça.
– Artur, achas que devemos chamar o Salvador e a Isabel para o teu aniversário? Sempre foram amigos, mesmo mora ndo no Porto.
– Que aniversário, Matilde? estranhou ele.
– O teu! Vais fazer quarenta e cinco, vamos festejar no restaurante.
– Ai sim? Nem sabia que já estava tudo decidido, olhou para ela de novo com estranheza.
Agora Matilde estava há horas sentada sozinha no sofá, a olhar para o chão, sem lágrimas.
– Nunca pensei passar por isto. murmurava, tristemente.
Artur chegou mais cedo do trabalho, o que era raro nos últimos tempos fazia sempre serão, ela já se habituara.
– Olá, cumprimentou ele, sentando-se logo na cozinha, ainda de casaco vestido.
– Olá, Artur, tira o casaco, vai lavar as mãos, vamos jantar, disse ela no seu tom habitual.
Artur ficou calado, de cabeça baixa.
– Matilde, vou-me embora, desculpa, disse ele, baixinho.
– Como assim vais-te embora? Tira o casaco e senta-te, estás a brincar? Estás doente, não? Vamos ao médico, já andava a suspeitar
Artur levantou a cabeça, olhou-a nos olhos.
– Estou bem, não preciso de médico. Matilde, apaixonei-me por outra, já namoramos há dois anos, é uma colega do meu departamento.
– Arranjaste uma nova, não foi? cortou Matilde, amarga.
– Não é nova, não é nenhuma beldade, é apenas uma mulher, uma mulher de verdade
– E eu, Artur? O que sou para ti? admirou-se ela.
– E tu? encolheu os ombros, tu és a minha gerente, a minha dona. Sempre fui uma espécie de cão com trela. Não consigo dar um passo sem ti. És sempre tu a mandar, decides tudo: que roupa visto, onde passamos férias, o que comemos, até como celebramos os aniversários. Nunca me deixaste ir ao estádio ver futebol porque achas isso uma parvoíce. Mas eu gosto!
– Mas eu só quero o melhor, faço tudo por ti, tentou Matilde argumentar. Mas ele não cedeu.
– Todo o dinheiro que ganho dou-te a ti, tu decides em tudo. Até para o café e cigarro me dás trocos. Nunca te ocorreu que isto pode ser humilhante para um homem? Não posso ir com os colegas beber uma imperial à vontade porque não tenho dinheiro no bolso falou sereno, no jeito dele.
Matilde ajoelhou-se à sua frente, procurando-lhe os olhos.
– Mas sempre foi assim, Artur. Se preferires, começo a dar-te dinheiro para ires beber uns copos com os amigos à sexta. Vamos juntos ao futebol. Vamos ao centro comercial e escolhes o que quiseres.
Artur fitou-a, triste.
– Matilde, não percebes, levantou a voz, e ela assustou-se. Quero poder respirar, fazer escolhas sozinho, comer o que gosto, não ser o eterno acompanhante da Matilde. Preciso do meu espaço, dos meus pensamentos, da minha liberdade Mas tu nunca me deixaste tentar. Chega.
– E essa mulher, permite-te isso? perguntou Matilde com voz seca.
– Sim. Ela deixa-me ser homem, deixa-me cuidar dela, os olhos de Artur brilharam, ela deixa-me ser eu próprio.
Matilde nunca antes o tinha visto assim. Parecia desperto, com vida. Percebeu que estava apaixonado, como quando eram jovens.
– Isto não faz sentido pensava ela nesta idade, que vergonha mas disse em voz alta: Artur, vais destruir a família por um capricho? E o que vão dizer de nós? Todos acham que o nosso casamento é perfeito.
– Que interessa o que dizem, Matilde? Qual perfeição?
Matilde percebeu que ele se revoltava, fazia um motim. Sentiu-se impotente e, pela primeira vez, chorou de verdade.
– Estás a chorar? espantou-se ele.
Ela abraçou-o. Mas Artur afastou-lhe os braços, recolheu algumas roupas, meteu-as numa mala e saiu porta fora. Ficou em silêncio.
– Nunca pensei que o destino me virasse assim. De uma mulher casada e segura, torno-me sozinha, e a velhice ainda por vir Matilde discava já para Amélia, que veio a correr para junto dela.
– Matilde, a nossa vida não acaba aqui. Vá, levanta-te! Lembras-te quando me sugeriste os cursos e ginásios? Acabei por não precisar de nada disso! O Alfredo pediu-me perdão, passou-lhe a lua, e ele acabou por ver quem sou. Deixa lá, pode ser que o Artur volte, mesmo sem acreditar muito, porque conhecia Artur e sabia que era diferente do Alfredo.
– Não, Amélia, o meu Artur foi embora para nunca mais. Disse-me coisas Não volta. O Artur é mesmo assim, suspirou Matilde.
Quando a amiga saiu, Matilde ficou, sem saber o que fazer, sem ninguém para cuidar, sem voz de comando, sem programar ou organizar nada para outrem. Agora, teria de se habituar à solidão. Ou talvez a vida ainda mudasse. Afinal, ninguém sabe para que margem o rio do destino nos levará. Talvez ainda encontre um novo porto, noutra margem qualquer
A vida ensina que por mais certo que pareça o nosso caminho, é preciso dar espaço ao outro e manter espaço para nós próprios, porque até o rio mais calmo pode mudar de curso.






