Hoje foi um daqueles dias em que as memórias do passado parecem pesar mais do que deviam. Lembro-me como se fosse ontem do meu último ano na Universidade de Lisboa, quando descobri que estava grávida. Guardei o segredo por algum tempo, não contei logo ao Diogo. Só aos cinco meses é que ele acabou por saber.
Porquê este silêncio todo, Ana Filipa? perguntou-me ele, com aquele ar sério. Sabes o que acho: não devíamos ter filhos antes de acabarmos a licenciatura, antes de termos a nossa vida em ordem.
Respondi a tremer, mas sem hesitar: Eu nunca escondi que os estudos não eram mesmo para mim, sempre sonhei com uma família grande, Diogo.
O Diogo ficou furioso. Atirou o livro que tinha na mão ao chão, não me acertou, mas deu para perceber o quanto estava frustrado.
Vamos dar a volta a isto, vamos ficar no apartamento da tua avó em Alcântara, ela até pode ajudar com o bebé tentei eu, na esperança de acalmá-lo. Depois queremos outro, mas primeiro, o casamento. Tem de ser já, não faz sentido adiar.
Ele levantou a voz outra vez:
Tu estás a ouvir-te, Ana Filipa? Este tempo todo, fingiste que eras diferente…
Foi à mala, começou a arrumar as roupas sem dizer mais nada. Fiquei ali, parada, sem saber o que fazer.
Porquê ir embora? Agora tens de casar comigo! Se fores, vou fazer com que toda a Universidade saiba o que fizeste! gritei, sem pensar.
Não vou viver nesta casa contigo respondeu-me áspero. Vive sozinha um mês, depois decide o que fizeres! Quando o bebé nascer, fazemos teste, pago a pensão e cada um segue o seu caminho.
Dez anos passaram voando, e hoje soube por conhecidos que o Diogo trabalha num escritório em Sete Rios. O chefe dele ficou a saber que ele tem um filho:
Diogo, falas alguma vez com o teu filho? perguntou-lhe o chefe.
Não, para ser sincero, nem o conheço foi só o que ele respondeu.
Soube depois que o Diogo contou aos seus colegas universitários que tinha sido enganado por mim.
Então, deixaste-a sozinha com o miúdo? perguntou um deles.
Não a deixei! Sempre ajudei com dinheiro! respondeu irritado o Diogo. Mas a conversa foi-se espalhando de que ele pouco ou nada contribuía só uns trocos.
O chefe comentou ainda:
E ainda querias dar uma palmada no rapaz!
O Diogo, para mostrar que seguia tudo pelo livro, começou a pagar a pensão de acordo com o salário declarado. Recebi menos do que ele me dava antes. Já casada há um ano, segui com a vida. O Diogo diz que o nosso filho é traquinas, igual a mim. Talvez seja. Mas pelo menos, somos felizes e unidos, algo que o Diogo nunca chegou a compreender.







