«Acabaste mesmo por fazer os meus pastéis preferidos!» exclamou o marido, regressando a casa da amante: mas mal deu a primeira dentada, ficou lívido, pois dentro do pastel esperava-o uma surpresa inesperada da esposa.
Rita empurrou cuidadosamente o tabuleiro para dentro do forno quente, limpou as mãos enfarinhadas e viu as horas. Hoje tudo tinha de sair perfeito. Os pastéis deveriam crescer, douradinhos, com aquele aspeto mesmo como o Manuel gostava.
Em tempos, Rita levava uma vida tranquila e discreta. Acostumou-se à solidão e quase aceitava que assim seria para sempre. Mas tudo mudou naquele dia em que um homem alto, de olhar seguro, apareceu para uma entrevista de emprego. Trazia consigo uma aura de força e confiança. Inesperadamente, Rita sentiu-se abalada por dentro.
A partir daquele momento, a sua vida tomou outro rumo. Apaixonaram-se, casaram-se e parecia, finalmente, que tudo encaixava. Rita era feliz, tão feliz que nem reparou que se entregava totalmente àquele homem.
Dois anos depois, Manuel fez as malas e disse que ia em trabalho para Lisboa por apenas um mês. Esse mês transformou-se num ano inteiro. Quase não telefonava e as mensagens eram raras e frias. Rita esperava, compreendia e acreditava. Até ao dia em que um conhecido lhe contou, por acaso, que tinha visto Manuel na cidade. Não estava sozinho. Dava um passeio sorridente pelo centro comercial com outra mulher, sem sinais de ter viajado.
Só nesse momento Rita percebeu que fora enganada durante todo aquele tempo. Podia ter feito um escândalo, ligado, pedido explicações. Mas ficou calada. Decidiu esperar. A vingança gosta de silêncio.
Um ano volvido, o telefone tocou de repente. Era Manuel. Dizia que o trabalho acabara e que estava de volta a casa. No fim, como quem não quer a coisa, acrescentou:
Faz os teus pastéis de carne, como só tu sabes. Tive tantas saudades.
«Acabaste mesmo por fazer os meus pastéis preferidos!» repetiu Manuel, entrando em casa com o ar de quem trazia a alma limpa: mas logo à primeira dentada o rosto perdeu a cor, pois naquele pastel estava um inesperado presente da esposa.
Manuel chegou calmo, certo de si. Sentou-se no banco da cozinha, cruzou as pernas e olhou em redor como se nunca tivesse partido. Rita recebeu-o com cordialidade, sem mostrar qualquer sinal do que sabia.
Estiveste mesmo a fazer os pastéis, estou a ver disse ele, sorrindo para a bonita pilha de iguarias douradas.
Sorria como se nada tivesse acontecido, apagando mentiras, desaparecimentos e a outra mulher. Aproximou-se, escolheu um pastel e deu uma generosa dentada. No instante seguinte, empalideceu e os olhos encheram-se de pânico. Não estava preparado para aquela vingança.
De manhã, Rita ligara o forno, amassara com paciência a massa e preparara o recheio com todo o cuidado. Mas agora, num dos pastéis, em vez de carne, estavam pequenos pedaços de vidro partido.
Ao mastigar, Manuel percebeu logo que algo estava mal. Cuspiu o pedaço rapidamente, mas era tarde. A boca inundou-se de sangue, a língua e as gengivas cortadas, a dor aguda e a arder.
Agarrou-se à mesa, tossiu, tentando perceber o que se estava a passar.
«Acabaste mesmo por fazer os meus pastéis preferidos!» dissera Manuel, regressando a casa da amante. Mas a surpresa foi amarga e inesquecível.
Rita olhava para ele serenamente.
Isto é pelo que me fizeste, pelas mentiras e traições disse num tom calmo. Da próxima vez que quiseres enganar alguém, lembra-te bem desta dor.
Manuel quis responder, mas só conseguiu soltar um som rouco. Tentou pegar no telemóvel, mas Rita já virava costas. Pegou na mala previamente feita, vestiu o casaco e dirigiu-se à porta.
Não chamou o INEM. Não disse mais nada. Rita partiu para sempre, deixando Manuel na cozinha com o sofrimento e a recordação, que nunca o deixaria esquecer.
E assim, Manuel aprendeu que quem semeia mentira e traição recolhe, inevitavelmente, a colheita da sua própria escolha. A honestidade pode doer de início, mas poupa muito mais dor no final.






