A vida de Alex foi uma jornada difícil que acabou por levá-lo até Mariana. Apesar de todos os desafios, conseguiram encontrar a felicidade juntos.

Alex nasceu como o filho tardio numa família portuguesa típica, onde os almoços demoravam horas e as avós discutiam a validade do bacalhau ao forno todos os domingos. Os pais dele sempre o encheram de mimo, histórias e roupa tricotada à mão. No entanto, o destino, sempre com aquele ar de quem gosta de pregar partidas, decidiu roubar-lhe primeiro a mãe quando Alex tinha 20 anos e, pouco depois, também o pai. Para cúmulo, o serviço militar, aquela tradição que parece feita só para dar trabalho aos jovens e orgulho às tias, obrigou Alex a faltar aos funerais dos pais. Restou-lhe saudade e um punhado de boas memórias.

Quando terminou o serviço militar, Alex voltou à casa que cheirava a alecrim e feijão-verde, apenas para descobrir que a família da tia, mais extensa que um almoço de Natal, ocupava todos os cantos e recantos do lar. Sentindo-se ali tão fora de lugar como açorda fria em agosto, pegou nas poucas tralhas e foi-se embora sem olhar para trás.

Tentou a sorte a viver em casa de um amigo ou melhor, de um conhecido, já que rapidamente percebeu que o ambiente estava mais gelado que o Douro em janeiro. Sem um cêntimo no bolso (que, ainda por cima, já tinha buracos), Alex meteu-se à boleia na direção de outra cidade, à procura de um futuro menos madrasto.

Foi através de uma dessas amizades que se fazem em cafés com cheiro a torrada que Alex conseguiu trabalho numa obra. Prometeram-lhe um salário honesto em euros, comida tradicional e até alojamento (ainda que colectivo). Durante algum tempo, achou que a vida ia finalmente endireitar-se, até ao dia em que os patrões desapareceram mais depressa que pastéis de nata numa pastelaria, deixando os trabalhadores à rasca. A maioria dos amigos ainda conseguiu desenrascar-se, fugindo ou pedindo favores, mas Alex ficou preso sem documentação, mais perdido que turista sem GPS.

Sem casa nem dinheiro, Alex viu-se a revirar caixotes do lixo à procura de algo comestível e a dormir onde calhava desde bancos de jardins até à entrada da estação de comboios, sempre tentando não parecer uma personagem saída de um fado triste. Entre uns percalços e outros, o aspeto dele foi-se degradando e os olhares de soslaio eram cada vez mais frequentes; um emprego estava tão distante como ganhar o Euromilhões.

Foi então que o destino, dessa vez vestido de boa pessoa, lhe pôs no caminho uma mulher chamada Filomena. Não era como as capas de revista, mas olhos vivos e alma afável não lhe faltavam. Trouxe-lhe uma sandes, um café e uma conversa tudo envolto numa simpatia desarmante.

A vida, que nunca perde uma oportunidade de pôr sal na ferida, decidiu ainda assim dar-lhe uma valente gripe. Ou talvez tivesse sido pneumonia, porque o hospital em Lisboa acabou por lhe servir de albergue durante uns dias. Ali, entre sopas quentinhas e cuidados médicos, deram-lhe banho, cortaram-lhe o cabelo e vestiram-lhe roupas decentes, coisa digna de um conto dos Irmãos Grimm à portuguesa. As visitas da Filomena eram o ponto alto dos dias e ela fazia questão de não faltar.

Quando saiu finalmente do hospital, Filomena estava à porta das urgências, com sapatos novos, roupa lavada e um sorriso de quem está sempre disposta a fazer o mundo girar melhor. Deu-lhe um abraço tão apertado que quase resolveu, sozinho, metade das angústias dele. Alex, emocionado até ao tutano, aceitou ir com ela para casa, sem fazer perguntas.

O irmão de Filomena era daquelas pessoas para quem a burocracia é um passatempo, por isso ajudou Alex a tratar de todos os papéis. Rapidamente, o nosso herói conseguiu emprego e, sem dar por isso, foi encontrando também o coração de Filomena. Entre sardinhadas e tardes de conversa, foram-se apaixonando. No fim, casaram-se com toda a pompa e circunstância que uma família portuguesa respeitadora das tradições consegue inventar e, apesar de todos os azedos das voltas da vida, encontraram a felicidade juntos, provando que até as histórias complicadas podem acabar num final feliz (e bem-disposto).

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