Seguíamos pela autoestrada quando, de repente, um enorme urso apareceu no meio da estrada e começou a aproximar-se lentamente do nosso carro

Hoje escrevo para não deixar esquecer o que vivi esta tarde, numa daquelas estradas que serpenteiam pelo interior de Trás-os-Montes. Ia eu com a minha esposa, Maria da Conceição, regressando a casa depois de um longo dia na vila de Bragança. A chuva da manhã ainda deixava a estrada húmida, e quase não se ouvia nada além do motor do nosso Renault Clio e o vento suave entre os pinheiros.

Estávamos distraídos numa conversa sobre o jantar de logo, desejosos de chegar ao aconchego do lar, quando, sem qualquer aviso, surge diante de nós, no meio do alcatrão, um enorme javali. Fiquei de tal forma surpreendido que mal tive tempo de travar a fundo. O carro estacou, soltou-se um estrondo dos pneus a escorregar, e o meu coração quase saiu pela boca. O bicho parou a menos de dois metros do nosso capô e olhou-nos com aqueles olhos pequeninos, mas determinados, erguendo-se no corpo maciço, coberto de pelo grosso e escuro.

Durante uns eternos segundos, não houve um gesto. A única coisa que conseguia era olhar para aqueles olhos sem piscar. Maria apertava-me o braço, e percebi que ela, como eu, achava que estávamos numa encruzilhada perigosa. Aquela bestas parecia ponderar se nos atacava ou não. As portas fechadas e os vidros subidos nunca me pareceram tão frágeis.

O javali deu então uns passos lentos, aproximando-se do lado do condutor, sempre a olhar fixamente para nós. Consigo jurar que vi fome nos olhos dele. Imaginei que num só salto conseguiria partir o vidro e entrar no carro. Estávamos paralisados.

De repente, lembrando-me dos tempos em que caçava com o meu pai na serra, meti rapidamente a marcha-atrás e fui recuando, devagar. Sabia que se o animal quisesse atacar, não chegávamos a tempo de fugir. Senti um suor frio escorrer-me pela testa, enquanto a Maria tremia em silêncio ao meu lado.

E foi nesse momento que tudo mudou. Do nada, um eucalipto enorme que estava à beira da estrada, talvez fragilizado pelo temporal da noite anterior, tombou com um estrondo que parecia o de um trovão. Caiu mesmo ao lado do nosso carro, de tal modo que, se tivesse caído uns centímetros mais à nossa frente, teria esmagado o carro por completo. Tive a sensação de renascer naquele instante.

O javali assustou-se com o barulho, deu um salto brusco e fugiu de volta para o mato tão depressa que nem rastos deixou. Ficámos ali parados, a ouvir de novo apenas o silêncio da serra, como se nada tivesse acontecido.

Desde então não me sai da cabeça se o bicho queria de facto atacar-nos, se foi curiosidade, ou, quem sabe, se até nos estava a avisar do perigo do eucalipto. Não sei a resposta, mas aquele olhar nunca vai desaparecer da minha memória.

Hoje percebo melhor que nem sempre as ameaças maiores vêm daquilo que tememos à primeira vista. E que, por vezes, a natureza tem uma maneira muito própria de nos ensinar humildade.

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