Olha, deixa-te contar uma história que parecia mesmo tirada de uma novela portuguesa. Os pais do Rui nunca aceitaram bem a escolha dele para companheira. Eles esperavam que ele seguisse os hábitos tradicionais, casando-se com uma rapariga escolhida pela família, alguém do círculo deles, mas o Rui apaixonou-se pela Matilde quando andava na Universidade de Lisboa. Como ela era de outro meio, os pais dele não gostaram mesmo nada e, em vez de tentarem aceitar, expulsaram o Rui de casa.
Mas o Rui nem vacilou. Continuou firme na decisão dele de ficar com a Matilde. A coisa ficou mesmo feia quando os pais descobriram o namoro: houve discussões, ameaças e até houve agressão verbal e física à Matilde, tudo para a afastar do filho. O Rui, farto de ver a Matilde sofrer por causa deles, acabou por contar tudo à mãe, esperando que ela percebesse. Isso só incendiou ainda mais os ânimos, a discussão foi tão grave que o pai foi posto fora de casa por não alinhar com a vontade da mãe.
Sem opções, o Rui foi viver com a Matilde, que dividia um apartamento alugado na zona do Campo Grande. Decidiram assumir a relação de vez e, numa sexta-feira qualquer, casaram-se no registo civil. Os primeiros tempos foram duros, mas contaram com a ajuda dos pais e da tia da Matilde. Graças a este apoio, conseguiram arranjar trabalho, juntar uns euros, alugar um T2 simpático e até começarem juntos um pequeno negócio uma pastelaria caseira que se foi tornando um êxito.
O sucesso deles não foi suficiente para amolecer o coração dos pais do Rui, que continuavam distantes e nem ligaram ao nascimento dos netos. Mas a família da Matilde, essa, uniu-se ainda mais e até os ajudou na entrada para comprarem o primeiro apartamento próprio, lá perto do Lumiar. Com o tempo, até algumas das más relações familiares começaram a melhorar: houve visitas, conversas e pouco a pouco os laços foram-se recompondo.
Parecia que tudo estava a correr bem, até que a mãe da Matilde a sogra causou um sarilho. Um dia, o Rui e a Matilde chegaram do trabalho e encontraram o filho mais novo a chorar encostado atrás do sofá. Descobriram que a avó lhe tinha batido por não querer jantar. O Rui pediu à mãe que parasse com aquilo, ela disse que sim, mas no dia seguinte voltou ao mesmo. Foi aí que a Matilde, já farta, ganhou coragem, confrontou a sogra e avisou-a que, se voltasse a pôr um dedo nos filhos, havia de ver o braço a ser-lhe torcido. E estava mesmo a falar a sério.
Mais tarde nesse dia, quando o Rui e o pai dele chegaram a casa, a mãe do Rui fez-se de vítima, mostrando uma nódoa negra no braço e acusando a Matilde. Só que o miúdo, sem medo, contou logo a verdade à frente de todos. O Rui e o pai perceberam que a culpa era mesmo da avó e deram-lhe um raspanete dos antigos. O pai do Rui percebeu que já tinha perdido demasiados anos com o filho por causa da teimosia da mulher e não queria repetir a história. No fim, parece que a avó finalmente percebeu que precisava de se pôr no seu lugar dentro da família e nunca mais houve problemas com ela nem com a Matilde, nem com os netos. Olha, acredita, às vezes, só mesmo com sangue na guelra é que estas coisas se resolvem em Portugal!






