Olha, tenho de te contar o que se passou cá por casa no mês passado, quando o meu irmão fez 18 anos! Ele apareceu com uma daquelas notícias que ninguém estava mesmo à espera disse-nos que queria casar com a namorada, a Leonor. Podes imaginar o choque dos meus pais. Nunca viram a Leonor com bons olhos, principalmente por não ter grandes maneiras e parecer desleixada com os estudos. Ela andava na universidade aqui em Lisboa, mas raramente punha lá os pés, e isso deixava os meus pais com os nervos em franja. Sempre acharam que ela estava a ser uma má influência para o meu irmão, a afastá-lo do caminho certo.
Além disso, a forma como a Leonor falava, e aquele ar de quem não quer saber de nada, só reforçavam a má impressão que os meus pais tinham dela. Nem a família dela queria saber do namoro aliás, não a queriam sequer lá por casa. Já estavam juntos há dois anos, mas a verdade é que nunca mostrou grande coisa que fizesse os meus pais mudar de ideias sobre ela.
O meu irmão ficou furioso com as críticas dos meus pais. Disse logo que não ia acabar com a Leonor só porque eles não aprovavam, ficou mesmo teimoso. Eu, sinceramente, nunca tive grandes opiniões sobre ela, mas até estava preocupada que essa confusão toda viesse estragar o ambiente cá em casa. O meu irmão ainda morava connosco, e a Leonor vivia com a mãe, o padrasto e a irmã mais nova numa zona aqui nos arredores. Como nenhum dos dois tinha dinheiro para irem viver sozinhos, ele até lhe chegou a sugerir que ela viesse morar connosco, ficando no quarto dele.
A confusão atingiu o auge quando o meu pai, já a perder a paciência, começou a disparar comentários do estilo: Como é que pensam viver num quarto sem móveis e a gastar dinheiro que não têm? e disse logo ao meu irmão que teria de pagar tudo do próprio bolso. O meu irmão ficou danado, exigiu a parte dele da casa imagina, pediu mesmo a quota-parte em euros e saiu de casa à pressa só com uma mochila. Andaram várias semanas a saltar de casa em casa de amigos, até que acabaram por voltar e anunciaram, de peito cheio, que nada nem ninguém os ia separar.
Entretanto, o meu irmão ainda virou tudo do avesso aos meus pais quando lhes disse na cara que queria vender a parte dele do apartamento. Até deu a entender que, se eles não aceitassem a Leonor, estava pronto para cortar relações. Escusado será dizer que houve uma discussão monumental e ele voltou a sair de casa. Aposto que a mãe da Leonor, que tem uns conhecimentos na área de direito, deve ter dado um empurrãozinho para este plano radical.
Eu tentei meter água na fervura e unir a família, mas nem os meus pais, nem o meu irmão quiseram saber só me disseram para não me meter onde não era chamada.
No fundo, olha, isto foi uma dor de cabeça daquelas. Só espero, com o tempo e muita conversa, que as coisas se acalmem e que consigamos voltar a ser aquela família unida de sempre. Ai, cada umaMas, acredita, há sempre surpresas quando menos esperamos. No domingo passado, finalmente todos se encontraram à mesa num almoço improvisado. O ambiente estava tenso, ninguém se atrevia a falar alto, parecia impossível que dali viesse coisa boa. Até que a Leonor, pela primeira vez, abriu o coração, agradeceu aos meus pais por tudo o que tinham feito pelo meu irmão e pediu desculpa se o jeito dela tinha parecido desinteresse. Disse que ela também tinha medo de perder o meu irmão e a família que queria construir nem ela conseguia evitar a voz a tremer.
Nesse instante, vi a minha mãe quase chorar. O meu pai, meio contrariado, soltou uma piada qualquer para quebrar o gelo e, lentamente, os sorrisos começaram a aparecer. Não digo que tudo ficou perfeito, mas naquele dia percebi que, apesar das confusões, há laços que resistem até às tempestades maiores. No final, enquanto arrumávamos a mesa, ouvi os meus pais a sussurrar: Talvez dê certo, afinal.
E naquele momento, finalmente, tive esperança de que, no fundo, o amor por mais desajeitado e teimoso que seja é sempre o que acaba por juntar toda a gente à volta da mesma mesa.







