Mónica e Samuel esbarraram-se numa cidade vizinha durante uma das viagens de trabalho dela. Apesar da diferença de idade de doze anos (que, convenhamos, nunca foi obstáculo para negócios do coração), os dois acabaram a suspirar um pelo outro. Samuel, que era um homem de espírito aventureiro, passou a viajar frequentemente até Lisboa para passar tempo com a Mónica.
Passados três meses e muita conversa entre cafés e pasteis de nata, Samuel pediu Mónica em casamento, prometendo que seria um marido cuidadoso daqueles que sabe preparar um arroz de marisco e não se esquece do aniversário. Apesar de os pais e o irmão da Mónica torcerem o nariz à diferença de idades e acharem que ela devia arranjar um rapaz da sua idade e com menos cabelo grisalho, Mónica seguiu a voz do coração e mudou-se com Samuel. Logo a seguir, fizeram o registo oficial do casamento no Conservatório, com uma celebração que incluiu bolos e vinho verde.
Samuel, além de estável financeiramente, ocupava um cargo respeitado numa empresa portuguesa de renome e era dono de uma mercearia que prosperava no bairro. Arrendava ainda o seu antigo T0 no Porto, o que lhe dava um dinheirinho extra. Com toda essa estabilidade (e algum talento para os negócios), comprou um novo apartamento T2 em Lisboa e circulava pelas ruas com um carro caro, daqueles que fazem os vizinhos espreitar pela janela.
Oito anos depois, Mónica acabou o curso universitário e Samuel deu uma mãozinha para que ela encontrasse emprego numa firma de um amigo dele, claro, porque networking em Portugal é coisa séria. A vida deles seguia tranquila, só com um detalhe: os pais de Mónica nunca lhe perdoaram a rebeldia e cortaram comunicação. Entretanto, pelos amigos, ela soube que o irmão casou-se, morava com os pais, era bem sucedido financeiramente, viajava frequentemente para fora do país e ia trocando de carro como quem troca de camisa.
Algumas semanas atrás, a mãe de Mónica pediu-lhe para conversar. Durante a conversa, cheia de frases entrecortadas e silêncios dramáticos, a mãe começou a sugerir que Mónica podia ajudar o irmão a comprar um apartamento ou, pelo menos, enviar uns bons euros para dar uma força financeira. Era insinuado que Samuel podia emprestar o dinheiro, assim talvez Mónica conquistasse de novo a simpatia da família. Mónica hesitou: o irmão nunca mostrou vontade de comprar casa e, durante oito anos, ela viveu sem o apoio dos pais, encontrando satisfação na sua vida independente. No final, ela decidiu recusar o pedido, o que deixou os familiares furiosos e acusando-a de fechar-lhes as portas para sempre.
Apesar disso, Mónica manteve-se firme, reconhecendo que já está noutra fase da vida, feliz, e que deixar o passado para trás é às vezes o melhor caminho para se manter em paz e, claro, para continuar a saborear o pastel de nata sem remorsos.







