Em tempos antigos, num bairro tranquilo de Lisboa, contava-se uma história que muitos ainda relembram ao sereno das noites. Dizem que era mesmo verdade: quanto mai tempo namoravam os casais, pior se revelavam os seus matrimónios…
Havia um casal, unidos pelo namoro durante sete anos, que só então decidiu casar-se. Ao longo de todo esse tempo, nunca tinham passado juntos um dia inteiro sob o mesmo teto: cada um prezava o seu espaço e as suas rotinas. Foi uma gravidez inesperada que os levou a juntar alianças.
No princípio, viverem juntos trouxe aos dois um entusiasmo novo. Renovaram o pequeno apartamento nos Anjos, a avó da rapariga mudou-se com os pais dela, deixando livre a casa para os recém-casados, e juntos foram comprar mobília e todo o necessário para o lar. Contudo, terminado o rebuliço das mudanças, instalou-se uma inquietação estranha entre quatro paredes.
O marido começou a pedir à esposa que o deixasse ir ao café com os amigos; ela, por seu lado, ficava até aliviada por ele sair e desanuviar com companhia. Assim se foi fazendo hábito e, como nos sete anos de namoro, só se cruzavam em casa já noite cerrada.
O tempo de dar à luz aproximava-se e, curiosamente, o marido rareava no sorriso, tornando-se cada vez mais sombrio. A esposa não deu grande importância ao princípio, até ao dia em que, inesperadamente, recebeu uma chamada de uma desconhecida. Essa voz de nervos incertos avisou-a de que o seu marido ia mudar-se com ela. De facto, o homem fez as malas e desapareceu enquanto ela, sem suspeitar de nada, tinha ido ao médico.
O mais doloroso foi constatar que ele nunca tentou explicar-se à mulher grávida; limitar-se-ia a evitar até a audiência do divórcio. A rapariga, de nome Inês, fez por tudo para garantir que, no registo de nascimento do filho, não constasse nome de homem algum. Os laços da família facilitaram as burocracias e ela conseguiu resolver tudo antes que o menino nascesse.
Chegado o momento, Inês trouxe ao mundo um rapaz robusto e são, com covinhas lindas nas faces. Bastou-lhe vê-lo para reencontrar a paz e esquecer o desgosto causado pelo companheiro de outrora. Os pais de Inês ajudaram-na com dedicação a criar o neto. Quanto a outros homens, fechou o coração; a ferida parecia ser para sempre.
Três anos passaram quando, numa tarde sossegada, soou a campainha. Inês esperava que fosse a mãe, pronta a tomar conta do neto, e abriu a porta sem hesitar. No limiar estava o antigo marido, empunhando um enorme ramo de rosas vermelhas a flor que ela sempre apreciara e um carro de brincar vistoso, o primeiro presente que oferecia ao filho após tantos anos.
Inês permaneceu muda, olhando para o homem do seu passado. Ele murmurou apenas:
Perdoa-me… Farei tudo o que quiseres…
Acreditas mesmo que te posso perdoar agora? Tantos anos passaram
O filho irrompeu pelo corredor, curioso.
Não. E peço-te que não voltes. Nestes anos todos nunca precisámos de ti, já nos é natural a tua ausência…
Inês não sentiu mágoa. As dores antigas há muito se tinham desvanecido, restando apenas compaixão por aquele homem, que perdera, sem se aperceber, o seu próprio filho.







