Acredito que quanto mais filhos tiver uma família, melhor para todos…

Eu e a minha esposa, ambos com quarenta e quatro anos, vagamos por Lisboa como folhas soltas numa noite de vento. Recentemente, há cerca de quarenta e cinco dias atrás, tornou-se surreal: voltámos a ser pais. Já tínhamos cinco filhos, todos rapazes, parecendo sardinhas a saltar no Atlântico, e agora, finalmente, nasceu uma menina e só em sonhos poderia ter nome português, como Madalena.

O nosso amor cresceu cedo, ainda no liceu, entre bancos de madeira rangentes e cheiro a livros velhos. No meu sonho, a minha esposa, chamada Inês, deu à luz ao nosso primeiro filho aos dezasseis anos, numa casa pequena de Sintra cheia de azulejos azulados. Não sentimos a fragilidade disso, antes nos fortalecemos, casámos rapidamente, celebrando com bolinhos de bacalhau e vinho do Porto.

Os meus pais sempre foram pilares de granito no sonho, e quando soubemos, aos vinte anos, que Inês levava outro filho no ventre, houve folia e abraços, como se festas de rua nunca terminassem. A minha mãe, Maria da Graça, uma sombra leve no meu sonho, confessou que sempre quis ter dois ou mais filhos, mas ficou-se só por mim; compensava cuidando dos netos, os seus “meus tesouros”, como dizia com sotaque de Alfama.

Ser pai é uma estrada de calçada portuguesa, com pedras irregulares: há sustos febres altas, lágrimas perdidas há gargalhadas breves, tristeza depois de discussões à mesa, com o aroma das sardinhas a levantar o espírito. Mesmo assim, nada abala o meu amor por Inês e pelos nossos filhos, nem nos faz hesitar. Acho que enquanto tivermos fôlego e alegria, devemos trazer filhos ao mundo, como barcos que partem da Ribeira.

Eu e Inês vivemos com o coração cheio, sem intenções de parar, desejamos mais filhos, como se estivéssemos destinados a encher a casa de risos e sonhos, em euros e saudade, com esperança saltando como trambolhos no Tejo.

No meio deste sonho, pergunto-me: será que este modo de pensar, tão português e tão nosso, faz sentido?

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Acredito que quanto mais filhos tiver uma família, melhor para todos…
O meu pai abandonou-me a mim e à minha mãe quando eu tinha apenas 12 anos, deixando-nos sem casa e sem qualquer apoio.