As crianças disseram que nunca mais querem ir à casa da avó. Depois disto, não lhes darei mais nada.

Lembro-me ca dacă ar fi fost ieri când fiica mea, Madalena, s-a aruncat în brațele mele, plângând cu disperare: Mãezinha, não quero nunca mais ir à casa da avó. Promete que não me vais obrigar, mãezinha, por favor.

Era no tempo em que as crianças ficaram apenas três dias com o pai e os pais dele, numa aldeia pacata do interior de Portugal, numa casa antiga, caiada de branco. A minha filha tinha quatro anos e o irmão, Afonso, já contava seis. O avô sempre insistira para que os netos lá ficassem, mas só mais tarde percebi o verdadeiro motivo.

Eu, Leonor, nunca tive uma relação fácil com os pais do meu marido. A sogra fazia sempre questão de frisar que eu não seria nunca suficiente para o filho dela, vindo de outra família e outras tradições. Aguentava as visitas apenas por respeito, mas o ambiente na casa dela era sempre pesado, repleto de discussões e murmúrios à mesa. Ninguém saía de lá bem-disposto nem mesmo o meu marido queria lá ir.

Com o passar dos anos, as idas à aldeia rarearam, ficando reservadas apenas para ocasiões como o Natal ou aniversários. Porém, não podíamos recusar o convite para o aniversário do sogro. Afinal, os netos já não viam os avós havia meses.

A festa decorreu sem incidentes dignos de registo. Pela primeira vez, senti-me quase acolhida; ninguém proferiu palavras amargas. No final, o avô convenceu as crianças a ficarem para passarem uns dias ao seu lado, prometendo-lhes um passeio de trator pelos campos. Os olhos dos meus filhos brilharam e começaram a pedir-me insistentemente para que os deixasse. Apesar de nunca lhes terem oferecido nem um rebuçado, consenti, até porque precisava de pintar as paredes de casa tarefa impossível com crianças a correr pelos corredores.

Se ao menos pudesse ter previsto o que aconteceu…

Quando voltaram para casa, ambos choravam inconsolavelmente. Madalena, a mais nova, escondeu-se nos meus braços, enquanto Afonso sufocava soluços. Não quiseram dizer o que se passara durante muito tempo. Só devagarinho, depois de muita insistência, percebi o que se passara.

O avô levara-os realmente a dar um passeio de trator pelos campos, rindo e divertindo-se. Mas, em casa, a avó começou a falar mal de mim diante deles, lançando farpas e ofensas a cada frase. Ao ver a mãe insultada, Afonso decidiu defendê-la. Irritada, a avó agarrou-o pelo braço, como se fosse um animalzinho, e arrastou-o até ao curral, trancando-o lá fora, vestido apenas com a roupa de casa no frio cortante do inverno. Logo a seguir, fez o mesmo com Madalena, batendo a porta atrás deles sem piedade.

O avô estava na adega quando ouviu os gritos. Correu, transtornado, e confessou-me depois que nunca tinha presenciado tal coisa pela primeira vez, perdeu a cabeça e levantou a mão à mulher. Pediu lágrimas nos olhos às crianças que não contassem nada aos pais, receando nunca mais voltar a ver os netos a correr pelos campos do Douro.

Desde então, a memória daqueles dias traz-me amargura e lamento por não ter visto mais cedo os sinais de perigo naquela casa cheia de segredos e silêncios. Por muito tempo, não consegui esquecer o olhar triste dos meus filhos nem as palavras tristes de Madalena e nunca mais regressámos àquela aldeia, por mais que o avô tentasse.

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