Matilde, se aude vocea da sogra dela. Matilde, que está ao telefone naquele momento, leva um pequeno susto. Estás aí parada, como sempre, diz a sogra, visivelmente descontente. Matilde continua a conversa ao telefone, tentando ignorar os comentários. Só falas, falas e falas, já devias ter preparado qualquer coisa para o meu filho comer, insiste a sogra num tom crítico.
Silêncio, responde Matilde, continuando a conversa. Olha para ela! Está bem! A sogra sai para o corredor. Matilde termina a chamada e, exausta, solta um suspiro profundo. Sente-se sobrecarregada com toda a situação. No ano passado, Matilde e o marido, Duarte, conseguiram finalmente pagar o empréstimo do apartamento deles. Era só um T1, mas a cozinha era grande e o apartamento tinha uma varanda generosa. Finalmente podiam pensar seriamente em ter um filho. Matilde trabalha em casa, mas Duarte sabe bem que não é tão fácil quanto parece. Já a sogra não compreende isso.
Os pais de Duarte sempre viveram numa aldeia perto de Viseu, e os jovens raramente conseguiam visitá-los. Para piorar, o vizinho de lá queria aumentar o terreno e, há algum tempo, tentava convencê-los a vender a casa. Não muito depois, ficou a saber-se que havia um apartamento à venda mesmo ao lado do deles, em Coimbra. A sogra de Duarte, que sempre se tinha recusado a trocar o campo pela cidade, mudou logo de ideias e lá vendeu a casa. O pai de Duarte ainda trabalha, mas a mãe acabou de se reformar. Sentia-se sozinha na aldeia e, ali, pelo menos teria a companhia de Matilde. O que ela não percebia era que Matilde trabalha o dia inteiro ao telefone, a cumprir as suas tarefas e não simplesmente a falar por falar ou passar o tempo nas redes sociais.
Assim, todas as manhãs, mal Duarte saía para o trabalho, a sogra aparecia em casa deles. Ao início, Matilde tentou explicar-lhe, assim como Duarte. Mas de pouco serviu. Passaram-se dias e tornou a apresentar-se à porta do casal. Um dia, o casal decidiu não abrir a porta. Matilde teve de continuar o trabalho ao som da campainha insistente. Até ao ponto em que a sogra gritou que chamaria a polícia se não abrisse, sendo só então que Matilde cedeu. Duarte e Matilde já não sabiam como lidar com a constante invasão de privacidade, mas sentiam que não podiam continuar assim. Houve um dia em que a sogra ficou verdadeiramente zangada, mas só durou um dia.
No seguinte, lá estava de novo, com conselhos intermináveis e conversas infindáveis. Já não aguento mais, confessou Matilde ao marido. Já nem te ouve a ti, quanto mais a mim. Compreendo-te perfeitamente. Também não sei o que fazer. Foram eles que decidiram vender a casa e mudar-se para cá. Como podia eu impedir? Não daria para arranjarmos alguma ocupação para a tua mãe? Já procurei, não há nada que a interesse O silêncio invadiu o espaço entre os dois.
Quanto temos nas poupanças?, pergunta de repente Duarte. Vamos ver. Mas porquê?, questiona Matilde. Moramos num T1, quando tivermos um bebé vamos precisar de mais espaço. E se comprássemos algo maior? Um maior? E noutra zona? Sim. Para quê esperar mais? Não acredito, responde Matilde, atirando-se alegremente para os braços do marido. No dia seguinte, a mulher andava de um lado para o outro pela casa, nem sequer se incomodou com mais uma visita da sogra. Duas semanas depois, o casal surpreendeu os pais com a notícia da mudança.
Como assim?, senta-se a sogra, incrédula. Muito bem, filhos! E onde é que os meus netos vão dormir? Pois claro!, comenta o pai de Duarte a rir. Ó mãe, vá lá! Só vamos para outro bairro, nem sequer é noutra cidade. Não fiquem aborrecidos. Aqui há muitos vizinhos da tua idade. E vamos cá estar sempre a dar notícias!, apressa-se Duarte a tranquilizá-la.
Curiosamente, a sogra depressa fez amizades no prédio. E o casal começou, finalmente, uma nova etapa nas suas vidas.







