Há alguns anos, o meu amigo Tiago casou-se. Tenho de admitir, ele resistiu bastante tempo à ideia, já estava com trinta e três anos. Sempre viveu sozinho e fazia questão de dizer que não queria saber de casamento. Visitas à casa dos pais, comprar mantimentos para a semana, reuniões familiares tudo isso lhe parecia fora de questão. Quando os amigos e a família brincavam com ele, Tiago respondia sempre:
Eu tenho o meu apartamento, um bom emprego, para quê arranjar família? Dou-me bem sozinho. Além disso, tenho o melhor companheiro de todos o meu cão, o Chico. Vivemos juntos e estamos ótimos. E em relação a mulheres? Hoje estão cá, amanhã já não.
Mas mais tarde ou mais cedo tudo muda. E também mudou para ele. Caiu nas mãos de uma mulher, e ela era mesmo astuta… Fazia-se de difícil, o que só o motivava mais a tentar conquistá-la. Chamava-se Matilde e conheceram-se numa pastelaria. Ela tinha vinte e nove anos, era divorciada, mas sem filhos.
Voltaram a encontrar-se, e Matilde acabou por pernoitar algumas vezes em casa do Tiago; mal deu por isso, já tinha as roupas dela no armário dele. Quando deu por si, já viviam juntos. Num fim de tarde, estavam os dois na cozinha, a beber chá, e Matilde disse:
Tiago, já falaste algumas vezes em casamento, sabes? E, honestamente, acho que aceitaria.
Por mais que tentasse puxar pela memória, Tiago não se lembrava de ter mencionado. Mas também não quis contrariá-la. Tentou disfarçar, mas Matilde rapidamente mudou de conversa e começou a planear o casamento.
Tiago sentia que as coisas fugiam do seu controlo, mas não conseguiu resistir. Mais tarde ou mais cedo, teria de se casar, pensava ele. Além do mais, Matilde não era má escolha. E assim, mais um homem deixou a lista dos solteiros.
O primeiro ano de casados foi feliz. À exceção de umas discussões ocasionais, como acontece em todos os casais. Matilde não achava graça a Tiago chegar a casa tarde ou embriagado. Por sua vez, Matilde mantinha algum contacto com o ex-marido, a quem contava as desavenças com Tiago. Isto deixava Tiago desconfortável.
Para se justificar, Matilde dizia que devia ser gentil com toda a gente. Numa noite, Tiago foi à festa de aniversário do chefe e, claro, voltou a casa bastante animado. Deitou-se no quarto ao lado e ouviu Matilde falar com o Chico.
És um safado. Passas o dia a comer e a dormir. Não sabes fazer mais nada além de dormir. Igual ao teu dono. Não… tu és mais inteligente. Não dizes uma palavra, mas entendes tudo. O teu dono é que não entende nada. Como será que aguentas esta vida?
Tiago ouviu aquilo tudo e teve vontade de se levantar e dar uma resposta, mas optou por esperar.
Voltou a vir para casa bêbado. Também detestas o cheiro, não é? Bebe cada vez mais. Já não suporto vê-lo assim. Como fui casar-me com ele? Parecia tão normal e afinal é um desastre. O meu ex-marido era muito melhor. Não bebia, ganhava bem. Porque é que o deixei? Bem, traiu-me uma ou duas vezes, mas isso acontece a toda a gente. E ainda me dava presentes. Sabia bem pedir desculpa. Ainda hoje me tenta convencer a voltar. O que devo fazer, Chico? Anda, diz-me qualquer coisa…
De repente, Tiago entrou na divisão, chamou o Chico, olhou friamente para Matilde e disse:
Se pensas que era o meu sonho ter uma família, enganaste-te. Não preciso de mulher nenhuma, e menos ainda de alguém como tu. Foste tu quem invadiu a minha casa. É até desagradável olhar-te. Tens uma hora para arrumar as tuas coisas. O teu ex deve estar à tua espera. Ou então vai ter com outro, é-me igual. Ah, e amanhã podes tratar do divórcio.
Em vez de sair com dignidade, Matilde desmanchou-se em lágrimas e pediu desculpa. Ainda conseguiu acusá-lo de insensibilidade. Mas Tiago manteve-se firme e não cedeu. Acabou por a pôr à porta. Lá fora, pediu um táxi, entrou e desapareceu por Lisboa, sem deixar rasto.







