Tomámos em conjunto, eu e a minha esposa, a decisão de vivermos em quartos separados. Eis o que aconteceu depois disso

Há cerca de um ano, eu e a minha esposa decidimos dar um passo revolucionário no nosso modesto apartamento em Lisboa: cada um ficou com o seu quarto. Não por drama, mas para não nos chatearmos um ao outro e, sejamos francos, evitar aquele tédio conjugal que começa quando não há um pastel de nata na mão. Afinal, cada um tem as suas pancas.

A minha mulher, Beatriz, por exemplo, tem o estranho hobby de ouvir música pimba aos berros e recusa-se a pôr uns fones como se os ouvidos fossem de ferro fundido! Eu, por outro lado, sou mais fã de silêncio e livros, ou de me perder em novelas brasileiras enquanto sonho ser o Tufão. Às vezes levo trabalho para casa e tenho de negociar acordos ao telefone com um cliente barulhento. Se ficasse tudo misturado, era logo confusão certa. Por isso, optámos por república de duas alas: o meu reinado e o dela. Temos só dois quartos, nada de luxos, mas ambas as divisões têm cama, secretária e margem de manobra. E olhem, achei que valia a pena partilhar esta experiência, porque isto é melhor que qualquer novela da SIC!

Bater à porta antes de entrar é agora lei do lar. E, meus amigos, não há sensação melhor do que estar no nosso canto, sem ninguém a aparecer de repente a perguntar onde estão as chaves do carro ou porque é que a toalha ainda está molhada. Alguns podem perguntar: Mas isso não é estranho?. Eu cá digo: estranho era quando tinha o meu quarto na casa dos meus pais em Santarém e, mesmo com a porta aberta, eles entravam sempre para fiscalizar. Estivesse eu a ler, a dormir, a jogar Super Mario ou a apanhar bonés, havia sempre perguntas. E para não levantar suspeitas, tinha de arranjar explicações parecia que estava no tribunal. Não era má vontade, era só aquele costume típico português de nunca respeitar a privacidade dos outros. E eu sentia-me encurralado, pronto.

Agora, dou por mim a anunciar à Beatriz, por detrás da porta bem fechada, estou ocupado! como se fosse um ministro em pleno Conselho de Estado. Se não estiver para aí virado, não a deixo entrar! E ela já aprendeu: não entra sem avisar, nem me interrompe. Assim, cada um vive na sua paz. Nada mais bonito!

Ter o nosso espaço é o verdadeiro luxo ibérico! Na minha sala/quarto faço o que me apetece: monto pilhas de livros, deixo a roupa espalhada sem remorso, e ninguém me amarga o prazer da desarrumação artística. Não tenho de pedir parecer técnico a ninguém, nem coordenar lista de tarefas domésticas no Grupo de WhatsApp de Casados. Enfim, sou dono da minha bagunça!

E ainda há aquele suspense do posso entrar ou não posso?. Somos tão civilizados que respeitamos as fronteiras como num jogo de pedras portuguesas: o meu é o meu, o teu é o teu. Faço sempre aquele pedido formal Beatriz, posso ir ver o que andas a fazer? Se ela diz que sim, é como ganhar o Euromilhões, tal é a raridade. Já não há aquela sensação arcaica de entrar porque sim, como quem vai buscar pastéis de bacalhau. A emoção está aí!

É como seduzir uma rapariga que não sabe bem se quer dar trela ou não. Nunca se sabe se a coisa vai resultar até ao último minuto da dança do pinguim.

A verdade é que muitos homens portuguesíssimos dizem: assim que vamos viver juntos, lá se vai a centelha! A rotina instala-se como uma invasora espanhola, e as emoções foram-se. Com esta solução, cada um ter o seu cantinho, muito se resolve.

Conclusão disto tudo: claro que se falarmos dos ricos de Cascais, cujas moradias têm dez quartos e cinco casas de banho, isto é normal, um baile sem novidade. Para nós, classe média remediada, é milagre dos deuses!

Conheço gente que, tendo duas divisões, passava a vida toda a dormir juntos na mesma. Porquê? Porque os miúdos ficaram no outro quarto parece cláusula obrigatória em cada família portuguesa. E se há três quartos, a terceira divisão vira sala com um sofá cor-de-rosa e um tapete herdado da avó, só porque sim. Mas será que vale a pena? Homens e mulheres precisam do seu espaço, nem que seja num T2 no Barreiro. Palavra de honra!

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Tomámos em conjunto, eu e a minha esposa, a decisão de vivermos em quartos separados. Eis o que aconteceu depois disso
Моята свекърва ме излагаше в ресторант и вече няма да бъда нейна лична подметка!