Tudo isto se desenrolava naquela escola primária, há muito tempo, numa pequena cidade portuguesa. O que se conta aqui é como se tudo tivesse acontecido entre o pó das lousas e o cheiro a lápis lascado numa manhã enevoada de 1986, ou talvez de nenhum ano em específico porque as coisas nos sonhos têm essa qualidade, de flutuar fora do tempo. Tinham todos oito anos, mas ninguém o confessou abertamente, nem sequer às mães nem aos pais. O segredo ficou preso entre paredes abafadas, como se as palavras morressem antes de serem ditas.
Só soube disto por boca da professora chamava-se D. Lídia Sousa, nome de quem nasceu entre vinhas e pinheiros, mas carregava nos olhos o fado de quem nunca esqueceu o que fez. Um dia, entre duas chávenas de café forte, contou-me como a culpa lhe corroía os silêncios culpa por algo feito a um menino tão frágil quanto a cerâmica das Caldas.
A D. Lídia era quase uma rapariga: vinte e dois anos, chegada de Viseu para a escola da vila por imposição do Ministério. Olhos novos, vontade de provar o seu valor, e aquela sede de mostrar que era capaz, tanto a ensinar, como a dar colo a meninos perdidos. Receberam-lhe uma turma de trinta e cinco era uma sala cheira a vozearia, mas logo no primeiro dia ela se encantou com o desafio de domar aquela pequena selva.
O segredo de D. Lídia foi perceber que há sempre algumas cabecinhas desejosas de testar os limites. E até era boa a lidar com rebeldes: dava-lhes cargos de limpeza, fazia-os sentir importantes, inventava jogos no recreio menos com um.
Chamava-se Simão, Simão Cardoso, nome de menino sem norte. Filho de mãe sozinha, que lhe dava pão e pouco mais, Simão crescia como mato à beira da estrada, sem jeito para conversas, sem interesse por amizade nem respeito por adultos. D. Lídia tentou tudo: sorriu-lhe, deu-lhe livros, pediu-lhe para abrir as janelas de manhã, mas Simão não lhe respondia nem com olhos.
Simão fazia do caos seu recreio: escondia-se debaixo das carteiras, transformava-se em bicho, fazia caretas e arrastava gargalhadas. Mandava palavrões que nem os pescadores se atreviam a dizer, berrava sem medo, chamava nomes tão crus que as meninas rebentavam em lágrimas. No pátio, fumava beatas encontradas no chão, pavoneando-se entre alunos mais velhos, desafiando o universo a puni-lo.
Quando algum colega enfrentava Simão, ele esticava o pescoço, cuspia um E então? Vais fazer o quê? e nem tremia. Mas o pior era o insólito hábito de cuspir. Não havia criatura na escola que escapasse a um arrojo de saliva. Simão mirava e disparava, audível, ensaiado, como se isso fosse música para os seus ouvidos.
D. Lídia explicou, chorou, ameaçou e Simão só cuspia mais. Um dia, recorreu à mãe: Por favor, fale com o seu filho. Ele já cuspiu em toda a gente, só falta em mim. A mãe prometeu resolver. No dia seguinte, Simão vinha manchado e azedo, marcas de cinto escondidas debaixo da camisola, os olhos feridos.
Mas Simão não mudou. E naquele dia, já ninguém o detinha. Começou a cuspir nos corredores, ao acaso, a qualquer um que passasse, tanto fazia se eram colegas como rapazes dos anos acima. Os mais graúdos por vezes apanhavam-no e davam-lhe uns apertões, mas Simão escapava-se sempre, cuspindo insultos como granizo.
O auge da sua loucura e talvez o mais onírico dos episódios foi naquela manhã quando subiu para o corrimão da escada, ali mesmo por baixo do vitral onde a luz vinha toda partida, e disparou um cuspo na cabeça da professora de Geografia, idolatrada por todos. Nem percebeu bem que tinha errado o alvo. Foi apanhado pelos rapazes do décimo ano e precisou de ser levado ao gabinete da enfermeira.
Um dia isto vai acabar mal, sussurrou a enfermeira à professora. Eles só percebem a linguagem deles.
Quer que cuspa nele também?, respondeu D. Lídia zangada, mas a verdade ficou ali suspensa.
O tempo passou. Simão acalmou durante uns dias, mas voltou ao velho. E então, no aniversário de uma menina, em pleno lanche de tabletes Regina, Simão, como possuído, cuspiu-lhe diretamente no rosto. Ela chorou, o chocolate a escorrer pelos dedos e as lágrimas a arderem-lhe nos olhos.
Foi neste momento que D. Lídia explodiu. Fechou a sala, virou-se para os alunos e disse: Ponham-se de pé todos os que já foram cuspidos pelo Simão. Levantaram-se quase todos. Dizem que ele não entende palavras. Talvez entenda isto. Cada um, uma vez, vai cuspir em Simão. Não é bonito, não é digno, mas eu já não sei o que fazer.
O que se passou a seguir parece saído de um quadro de Bosch as crianças, silenciosas, alinharam-se, e uma a uma cuspiram em Simão, encurralado junto à pia de lavar pincéis. Uns fizeram-no com estranha satisfação, outros por obrigação e tristeza, mas quase todos participaram. Só se ouviam os gemidos agudos do rapaz.
Quando tudo terminou, a sala parecia outra. Simão estava encolhido, lágrimas e saliva a transbordar o rosto, os joelhos recolhidos ao peito. Tenho vergonha, por mim e por todos, murmurou D. Lídia, espero que nunca mais se repita.
Deixou a porta aberta; ninguém falou de segredo, mas todos entendiam que nada disto queria ser conhecido fora das paredes da escola amarela.
Simão faltou à escola vários dias. D. Lídia foi procurá-lo em casa, onde a mãe dava desculpas Agora não fala, está estranho, não quer sair da cama. A professora entrou no quarto. Simão, é duro, eu sei. Mas coragem, amanhã vamos fingir que nada aconteceu, ninguém vai gozar contigo.
Do fundo do cobertor, Simão gritou: Nunca mais cuspo! Juro! Não quero mudar de turma
No dia seguinte apareceu, pequeno e calado, como se nada tivesse ocorrido e, num estranho pacto de silêncio, nenhum colega jamais voltou a cuspir. O tempo passou. O grupo tornou-se nota de orgulho na escola. Eles são como uma família, dizia-se nos corredores, enquanto outros sussurravam: Ou então guardam um segredo terrível.
Ninguém, nem mesmo D. Lídia, ousou tocar novamente no tema. Ela acabou por se mudar para o Porto. Mas aquela manhã permaneceu a pairar sobre si, sombria, durante muitos anos.
Um dia, já bem entrada nos quarenta e poucos, D. Lídia soube do paradeiro de Simão. O rapaz tornara-se oficial na Marinha, casado, pai de filhos, voltou uma vez à infância para um jantar de ex-alunos. Nunca, nem por graça, falou-se do segredo niquelado a saliva e pranto, como se tivesse acontecido a outra gente, ou talvez nunca tivesse acontecido de verdade, a não ser naquele quase-sonho antigo de uma escola portuguesa outrora perdida no nevoeiro.






