O meu marido e eu estamos casados há quase sete anos e, mesmo antes disso, já nos conhecíamos há muito tempo. Ao longo desses anos, trabalhámos lado a lado e conseguimos amealhar o suficiente para ter uma casa própria, que nós mesmos construímos com esforço e dedicação.
Antes de embarcarmos nessa aventura, morávamos no apartamento do meu marido, em Lisboa. Ele tinha remodelado tudo mesmo antes do casamento e, apesar do passar dos anos, o apartamento mantinha-se em excelente estado.
Por isso, quando finalmente nos mudámos para a casa nova, nunca nos passou pela cabeça arrendar o apartamento antigo. Tínhamos receio que o estado impecável se perdesse, pois há sempre o risco de os inquilinos não cuidarem da mesma forma. Achámos melhor deixá-lo vazio por enquanto.
Entretanto, há meio ano atrás, os meus pais deram-nos um outro apartamento na baixa do Porto. Não considerámos vendê-lo, já tínhamos coberto a maior parte das despesas com a construção da casa, e achámos que não havia necessidade de o desfazer.
Combinámos, eu e o meu marido, que mais à frente iríamos fazer umas pequenas melhoras e trocar alguns móveis, preparando tudo para eventualmente arrendar queríamos que o espaço fosse simpático para os futuros moradores, mas sem gastar demasiado.
Acontece que, com o passar dos meses, o apartamento acabou por ficar desocupado. Numa noite de jantar de família, a minha cunhada reparou nisso.
Começou a comentar que tínhamos dois apartamentos parados. Dizia que um fazia sentido guardar, mas dois era um desperdício, especialmente numa altura em que toda a família tinha encargos e projetos por concretizar.
O caso é que a minha cunhada e o marido estavam a meio caminho de comprar uma casa em Vila Nova de Gaia. Não queriam recorrer ao crédito bancário tão cedo, porque ambos tinham ordenados baixos e preferiam evitar dívidas.
A conversa rapidamente tomou um rumo incómodo. A irmã do meu marido partilhou a opinião dela: achava que devíamos vender o nosso segundo apartamento, usar esse dinheiro para os ajudar na compra do lar deles e guardar só uma parte para nós, talvez num depósito bancário para render algum juro. A ideia seria emprestar-lhes esse valor, sem o perdoar, mas a devolução seria feita ao longo de vários anos.
Percebi pelo olhar do meu marido que ele se sentia desconfortável. Sempre tentámos, dentro do possível, apoiar a família não só com trabalho mas também financeiramente. No entanto, o pedido era demasiado exigente.
Por isso, resolvi responder diretamente à minha cunhada. Disse-lhe que aquilo era uma decisão que não podia ser tomada de ânimo leve. Ela e o marido ganhariam um apartamento, enquanto eu ficava sem um bem importante. Ficaríamos apenas com algum dinheiro posto de lado mas, depois disso, já não teríamos onde nos instalar se fosse preciso.
Além disso, nunca se sabe se o empréstimo seria devolvido dentro do combinado. As questões financeiras entre família merecem toda a seriedade e cuidado, apesar dos laços que nos unem.
Não foi de admirar que aquele ambiente e aquela conversa tenham deixado todos pouco à vontade. A minha cunhada olhou-me com algum ressentimento e o meu marido, ao notar o desconforto, tratou de mudar subtilmente o assunto. Assim ficaram as coisas, naquele jantar que ainda hoje me recordo.







